Alex Welsh/The New York Times
Alex Welsh/The New York Times

Crítico literário Franco Moretti analisa os romances de formação

Teórico italiano mostra que a evolução literária não é uma progressão simples, mas tem seus becos sem saída

André Jobim Martins*, Especial para o Estado

15 de fevereiro de 2020 | 16h00

Perto da metade dos Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, o protagonista recebe uma carta e fica sabendo que seu pai acaba de falecer, que seu melhor amigo é agora também seu cunhado e que este irá administrar a empresa da família. O cunhado propõe ainda que Wilhelm passe a administrar uma fazenda a ser comprada com os fundos da venda da casa da família. A essa carta caricaturalmente fria e pragmática, Wilhelm responde recusando a proposta, pois tem outros planos: “Instruir-me a mim mesmo, tal como sou, tem sido obscuramente meu desejo, desde a infância. Ainda conservo essa disposição.” O narrador goethiano acrescenta: “O ideal que seu cunhado lhe pintava da vida burguesa não o atraía de maneira alguma; sentia-se antes impelido violentamente para o campo oposto, por conta de um secreto espírito de contradição”. O campo oposto, é claro, é a arte. Candidamente egoísta e um tanto irresponsável, Wilhelm pelo menos tem, ou quer ter, uma personalidade. Identifica dentro de si potencialidades que só se realizarão por meio de um cultivo inicialmente exclusivo e unilateral, até o desabrochar de uma maturidade que as realiza e se abre para a ação no mundo. Essa é a ideia implícita por trás de sua estranha e aparentemente paradoxal expressão: “instruir-se a si mesmo, tal como se é”.

Pouco importa se, no final, a arte não é a verdadeira vocação de Wilhelm, que terminará o romance, feliz, como proprietário rural. O “erro” de Wilhelm tem de ser fruído até o fim para que seja efetivamente superado, e mesmo aí ele seguirá integrando, sob o aspecto da “experiência”, uma totalidade harmônica. Nas palavras de Hegel, o grande filósofo da época que o romance de Goethe anuncia, “o verdadeiro é o todo”: a verdade não escolhe entre a semente e o carvalho, ela é o ciclo vital do qual ambos são momentos.

Pouco atraente para o gosto literário do século 21, o romance de Goethe é uma das mais cristalinas expressões de um dos conceitos-chave que organizam a experiência moderna: a formação. Hegelianamente, porém, a formação é um conceito dinâmico, e sua formulação inicial não dá conta de outros contextos: Jane Austen, Stendhal, Puchkin, Balzac, Dickens, George Eliot, cada autor terá de se haver com a necessidade de produzir uma forma para o tipo de individualidade possível em seu mundo. O Romance de Formação, de Franco Moretti, é uma tentativa de compreender as estruturas estético-sociais por trás da evolução do gênero.

Para Moretti, a obra de arte atenua tensões existenciais – um pouco como na poética aristotélica, a arte aqui é eficaz na medida em que “cura” as angústias da vida. O Romance de Formação, assim, tenta figurar o dinamismo do mundo moderno (o novo mundo burguês, sempre a partir do ponto de vista de um jovem de classe média), variando, de época para época, nas suas estratégias de sublimação dos aspectos mais problemáticos do social. A própria ideia de formação atua nesse sentido: seus textos fundadores, Os Anos de Aprendizado (1796) e a Fenomenologia do Espírito (1807), são monumentos ao progresso espiritual elaborados na Alemanha, onde a Revolução foi politicamente neutralizada.

Não por acaso, o primeiro grande romance de formação francês, O Vermelho e o Negro, é marcado pelo sentimento profundo de frustração ante o triunfo das forças conservadoras após a queda de Napoleão. O conteúdo importa menos do que a forma: sob a aparência da tragédia de um herói que tem em si muito mais que o mundo lhe permite ser, o romance de Stendhal legitima em sua estrutura profunda certa “má-fé”. Num mundo onde, para “ser o que se é” é imperativo ser ao mesmo tempo outra coisa, a duplicidade há de ser tolerada – o protagonista Julien Sorel é um narcisista dado a delírios de grandeza, mas os leitores de Stendhal sabem que é difícil odiá-lo. O comportamento homicida de Julien é obviamente repreensível, mas não exatamente por mostrar alguma falta de caráter. É o contrário: seu destino mostra exatamente como, quando a consciência dilacera a camisa de força da má-fé, as coisas fatalmente dão errado.

Algo parecido ocorre em Balzac, onde a letra está ainda mais longe do espírito. A sabedoria sentenciosa do narrador da Comédia Humana importa menos como enunciação de uma “moral da história”, como seria de esperar, do que como seu contrário: suas máximas, enunciadas de modo quase febril, servem para que nos esqueçamos da necessidade de que as histórias tenham qualquer moral. Na Paris dos parvenus, a “capital do século 19” onde o dinheiro pode comprar tudo, não há tempo para pensar nessas coisas; fazê-lo seria arriscar o equilíbrio tênue da vida na metrópole em permanente ebulição. É melhor se deixar levar e continuar lendo a interminável Comédia que, não pretendendo ser divina, não tem juízos finais a emitir, apenas um vasto mundo a descrever.

O capítulo sobre o romance inglês é um protesto contra a sua mediocridade conformista (exceção feita a George Eliot), embora a “culpa” não seja exatamente dos escritores. Como a sociedade vitoriana conseguiu administrar sua modernização sem gerar a crise de legitimidade disseminada pelo continente, o trabalho do romance se reduz a pintar uma galeria de tipos humorísticos e conduzir heróis insípidos a uma felicidade que é sua por direito. Não por acaso, um dos happy endings mais comuns é a descoberta de uma herança legada por algum parente distante.

O Romance de Formação termina com um ensaio sobre as relações entre os últimos representantes do gênero e o modernismo. Para Moretti, as imperfeições de obras como o Retrato do Artista Quando Jovem mostram que as técnicas solicitadas pela fase da modernidade iniciada no século 20, como o fluxo de consciência, não se acomodam no romance de formação. Ou a forma se eleva a uma perfeição “estéril”, como no realismo ultrarrefinado e filosofante de Thomas Mann, ou é implodida para dar lugar a Ulisses, Mrs. Dalloway e Em Busca do Tempo Perdido. A inspiração da teoria da história literária de Moretti é darwiniana – a evolução literária não é uma progressão simples; tem seus becos sem saída. Seu esquema não pode ser uma linha contínua, mas uma árvore. Foi preciso partir de uma bifurcação anterior ao romance de formação tardio para superá-lo. As implicações desse desenlace teórico são menos agradáveis do que talvez se esperasse no começo da leitura. Mas não se pode dizer que ela traía o ideal de Goethe, que, além de admitir certa crueldade na evolução das formas, pôs na boca do diabo uma tirada com a qual provavelmente concordava: “Cinza, caro amigo, é toda a teoria/E verde a áurea árvore da vida”.

O ROMANCE DE FORMAÇÃO

AUTOR: FRANCO MORETTI

TRADUÇÃO: NATASHA BELFORT PALMEIRA

EDITORA: TODAVIA

416 PÁGINAS

R$ 74,90

*ANDRÉ JOBIM MARTINS É HISTORIADOR E TRADUTOR

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