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Crítico vê origem da ficção científica na filosofia da Grécia antiga

Cosmologias da Antiguidade e a revolução protestante são duas origens do gênero para Adam Roberts

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

07 Julho 2018 | 16h00

O termo “ficção científica” (FC) foi popularizado pelo escritor, inventor e editor Hugo Gernsback nas primeiras décadas do século 20. Entretanto, a obra A Poesia da Ciência (1848), de Robert Hunt, já inspirava autores a falar em uma ficção da ciência e a unir empiria e beleza. Desde então o gênero tem suscitado calorosos debates que oscilam entre a adoração dos fãs e a variedade formal dos escritores, os fenômenos de entretenimento e o menosprezo acadêmico. Como uma contribuição decisiva para essa colonização do futuro, a editora Seoman traz agora ao leitor brasileiro A Verdadeira História da Ficção Científica: do Preconceito à Conquista das Massas de Adam Roberts, um dos mais importantes estudos sobre o gênero. A edição de 700 páginas conta com tradução de Mário Molina, apresentação de Silvio Alexandre, prefácio de Braulio Tavares e posfácio de Gilberto Schroeder. A primeira edição em inglês é de 2006. A edição brasileira optou por seguir a reedição de 2016, expandida e profundamente alterada pelo autor. 

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Roberts auxilia o leitor nessa demarcação a partir de alguns critérios. Um deles é a ênfase às viagens extraordinárias (voyages extraordinaires). Nesse sentido, haveria três modalidades de viagens: temporais; espaciais ou tecnológicas; imaginárias ou reais. Por isso, a FC se apoia sempre em metanarrativas (narrativas de longa duração), quer digam respeito à formação do cosmos, da humanidade, da vida na Terra ou em projeções de cenários futuros, positivos (utopias) ou negativos (distopias). Para tanto, a FC se vale de um recurso central: a extrapolação. A extrapolação é imaginativa e especulativa, e se dirige a um conjunto de dados do mundo. Quase sempre a extrapolação tem como objetivo a construção de mundos e a busca pela novidade, o novum dos latinos. 

Quando levada a seu limite, a tecnologia se confunde com a magia. Apesar dessa afirmação do mestre do gênero Arthur C. Clarke, haveria uma separação desses dois registros. A diferença entre FC e fantasia seria a diferença entre tecnologia e magia. Para a FC, mesmo quando predominam elementos mágicos ou fantásticos, a explicação das causas é sempre materialista. Para Roberts, trata-se de uma dialética entre os imaginários protestante e católico que remonta ao século 17.

Enquanto o catolicismo conserva recursos da magia em sua imaginação sacramental, a imaginação protestante perfura o tecido das analogias. Explicita os mecanismos internos dos processos naturais, esvaziando-os de seu sentido transcendente. A dinâmica entre magia e tecnologia, ciência e sacramento, catolicismo e protestantismo definiria a FC como um gênero predominantemente protestante. Para tanto, Roberts apoia-se no conceito de secularização de Charles Taylor. Um mundo secular é um mundo que surge da “condição de possibilidade da descrença”. Esse mundo tem em comum a divisão radical entre ordem natural e ordem transcendente, levada a cabo pelo protestantismo europeu. Se o natural não emana do transcendente, as causas e efeitos podem ser quantificados em termos materiais. 

Por seu turno, a ciência moderna se estabelece a partir do século 16 sobre duas matrizes: o experimentalismo e a refutabilidade. Ambos conceitos foram desenvolvidos, respectivamente, pelos filósofos da ciência Karl Popper e Paul Feyrabend. Popper é autor da seguinte divisa: tudo que não pode ser refutado não é ciência. Feyrabend criou o “anarquismo epistemológico”. Pressupõe que a ciência nunca deve se apoiar em um método dominante, mas sim em uma pluralidade de meios investigativos, inclusive não-científicos. Esses seriam o coração da ciência moderna e, por conseguinte, da FC. Altera-se o estatuto da literatura e da especulação imaginativa. A FC torna-se uma forma de fazer ciência. 

Os estudos acadêmicos, em geral, alocam o início da FC no século 19. Às vezes retroagem ao século 18. Uma das originalidades de Roberts é refutar essa cronologia. Situa a origem da FC na Antiguidade, nas cosmologias (teorias sobre a estrutura do universo), nas cosmogonias (teorias sobre a origem do universo) dos primeiros filósofos (physikoi), em Platão e em Aristóteles. Também vincula a FC às primeiras viagens extraordinárias, como a viagem à Lua descrita por Luciano de Samósata (século 2 d.C.) e a ascensão da alma às estrelas, concebida por Cicero em seu Sonho de Cipião, fonte para o Somnium (1634) de Johannes Kepler, um dos protagonistas da revolução cosmológica do século 17. Algumas dessas obras podem ser consideradas quase como religiões especulativas, pois unificam conhecimento racional e divino em uma mesma premissa. Essa premissa gera estranhamento especulativo e faculta outro alicerce da FC: os mundos alternativos. 

Essa visão ao mesmo tempo transcendente e materialista do universo configura o âmago da FC. Por isso, poucas obras medievais podem ser inseridas nesse gênero. E mesmo a travessia de Dante Alighieri pelas esferas naturais e sobrenaturais do cosmos ainda estaria em uma chave sacramental. A FC recupera o elo perdido da Antiguidade apenas a partir do século 16. Mais precisamente a partir das utopias, das novas cosmologias e das cosmografias maravilhosas, de Campanella e Morus, de Copérnico e Galileu, de Kepler e de Brahe. 

A partir do século 16, a literatura começa a descrever, nas obras de Marino e Ariosto, viagens interplanetárias. E, no século 17, surge a obra-prima de viagem à Lua assinada por Cyrano de Bergerac. As viagens extáticas pelo universo passam a ser a tônica de escritores-pensadores, como o jesuíta Athanasius Kircher. Multiplicam-se as cartografias da Terra e das infinidades de céus. As zoologias de mundos terrestres e extraterrestres ganham força com os relatos de viajantes. Criadores de mundos e utopistas como Gabriel de Foigny, Nicholas Goodman, Joshua Barnes, Johann Valentin Andreae são os mentores dessa alteração das formas mentais. 

A FC se vincula à conquista de dois conceitos: o infinito e a pluralidade dos mundos. Por isso, a morte de Giordano Bruno em 1600, condenado à fogueira pela Inquisição, é o marco fundador da moderna FC. Toda FC desde então se relaciona em maior ou menor grau com a cosmologia pluralista, infinitesimal e organicista deste gênio de Nola. A descrição da FC do século 20 ocupa mais da metade da obra. Mas a riqueza e a erudição desse preâmbulo do gênero é um dos pontos altos. Por meio dele, compreendemos em que medida a pluralidade de mundos de Fontenelle, a monadologia de Leibniz, os corpos sutis de Descartes e mesmo a mecânica de Newton deram ensejo a potentes obras da FC. E como eles mesmos podem ser concebidos como escritores especulativos. 

Por outro lado, As Viagens de Gulliver de Swift (1726) e o divertido Micrômegas (1752) de Voltaire passam a guiar as topografias e as topologias do século 18. Regulam uma nova vertente: o jogo entre pequeno e grande, o microcosmo e o macrocosmo. A era da razão produz não apenas uma expansão monumental no campo das ciências e do conhecimento do universo. Produz também a reação do século 19 a esse conhecimento ilimitado. Os mitos de Frankenstein e de Fausto, o romance gótico e o contrailuninismo de Sade e Walpole. 

Não por acaso, a essa era da razão segue-se a era das mobilizações (1850-1900). Trata-se de uma era de descoberta do tempo profundo da vida (Darwin) e do espaço profundo do universo: uma quantidade virtualmente infinita de mundos. Uma era também da descoberta da entropia, o princípio que rege a perda de energia dos sistemas, por Clausius, Maxwell e Boltzmann, pedra angular de boa parte da FC do século 20. A perda de sentido transcendente e o eclipse de Deus e das explicações imunizadoras produzem uma interessante síntese: a FC mística. Também produz dois dos maiores expoentes da FC de todos os tempos: Júlio Verne e H. G. Wells. 

O princípio de Verne é simples: mobilis in mobile (móvel no elemento móvel). As sociedades modernas, de paredes finas e das espumas, são sociedades da mobilidade, frutos de ideologias expansionistas. Essa matriz imaginária do século 20 foi forjada no cadinho da FC. Por mais que no começo do século 20 o culto às máquinas tenha se vinculado aos totalitarismos, Roberts nos lembra a ênfase progressista dos autores de FC, quase sempre críticos ao especismo (depreciação das espécies não-humanas), ao antropocentrismo (centralidade do humano no universo) e ao patriarcalismo, sendo a FC o gênero com o maior número de escritoras de toda literatura. 

A hesitação entre a experiência mística de um universo infinito e os limites da razão manipuladora geraram o atrito fundamental para a FC do século 20. Em especial para os mestres Huxley e Orwell, Clarke e Asimov, configurando a Era de Ouro da FC (1940-1960). As mudanças culturais determinaram a alteração do imaginário das décadas seguintes, definidas pela New Age (1960-1970). Nota-se um forte influxo da cultura pop e dos meios de comunicação de massa em autores como Frank Herbert, Ursula K. Le Guin, J. G. Ballard e Philip K. Dick. 

Essa era deságua no presente de um modo potente e paradoxal. Potente pela expansão da FC: Hollywood, indústria do entretenimento, HQs, televisão, cinema, séries, redes internacionais de fanfics, fã-clubes, obras transmídias, plataformas virtuais, realidades expandidas, interatividade, games, realidades imersivas, fliperamas, ficções multimídias e holografias. Ou seja: um mercado global que circula bilhões de dólares todos os anos. 

Paradoxal porque essa amplificação gigantesca de certa maneira corrompeu um dos pilares da FC: a primazia das ideias. Os produtos tendem a simplificar questões metafísicas e a instrumentalizar as ciências. Minimizam o poder especulativo, espinha dorsal do gênero. O especulativo tem cedido ao espetacular. A contracultura e o anarquismo virtual do cyberpunk transformaram-se na nostalgia e na evasão do steampunk (recusa do presente). E, sobretudo, começou a haver uma ruptura quanto ao valor das obras. Assim, alguns de seus maiores autores, como Thomas Pynchon, não encontram acolhida de crítica e público de FC. 

Contudo, a despeito dessa diagnose negativa, a obra de Roberts desmente a si mesma. Inscreve-se como uma das mais exaustivas, monumentais e eruditas introduções à FC. O levantamento de dados das pulp fiction (revistas populares) do começo do século 20 e os cruzamentos entre a FC os cem anos de existência do cinema merecem uma menção especial. Fenômenos como a série The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia), baseada no romance da escritora especulativa Margareth Atwood, dentre tantos outros, podem também servir de contraexemplo a essa visão desestimulante do presente e do futuro da FC. 

Uma dúvida paira ao fim da leitura: por que nenhuma menção a Lovecraft? Como todos, Roberts deve ter seus desafetos e idiossincrasias. Contudo, se pensarmos na beleza tentacular de informações, análises e referências, populares e eruditas, que o autor esbanja nesta obra singular, essa omissão não deixa de ser uma bela ironia. 

*Rodrigo Petronio é escritor e filósofo, professor titular da Faap e pós-doutorando no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP)

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