Shah Marai/AFP
Shah Marai/AFP

Cruzada do desespero

A guerra no Afeganistão chegou ao ponto em que a morte inútil esfacela a retórica do heroísmo

Simon Jenkin, The Guardian

23 de agosto de 2009 | 01h51

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Na quinta-feira, à frente de uma urna de votação, um funcionário da ONU pegou o dedo manchado de tinta azul de um eleitor afegão e o levantou para as câmeras. "Vejam", disse realizado. "Esta é a razão de tudo."

Não é. Mesmo em sua atual posição beligerante, o mundo ocidental não sai matando pessoas apenas para que possam votar. A ocupação do Afeganistão teve como motivo punir os taleban por dar abrigo a Bin Laden e impedi-los de voltar a fazê-lo. A punição foi aplicada. Já a operação para evitar a reincidência foi e continua sendo mal elaborada e difícil de entender.

Ninguém que acredite em escolher seu governo poderá negar a força do voto. Ele continua sendo o rito fundamental da democracia. As eleições de quinta refletiram as aspirações de milhões de afegãos. São um avanço em relação ao fundamentalismo islâmico por darem aos eleitores a possibilidade de escolher um governante e a oportunidade, embora com grande risco pessoal, de compartilhar da vida política nacional.

O provável triunfo de Hamid Karzai como presidente não invalida a causa. Para uma nação pobre como a afegã, realizar uma eleição contestada, que inclui Ashraf Ghani, o favorito das ONGs de Cabul, é uma façanha, ainda que seria impossível sem a presença de um enorme contingente militar estrangeiro. Qualquer coisa que permita deixar de lado por um instante a política da morte, da destruição e da corrupção é bem-vinda.

Mas voto é uma coisa, mudanças, outra. As eleições não influirão significativamente na estrutura desconjuntada do governo num país que, quase oito anos depois da invasão da Otan, se encontra totalmente desequilibrado. Embora diplomatas ocidentais tenham razão ao afirmar que ninguém deve esperar um pleito ilibado naquele país, o grau espantoso de poluição eleitoral deveria fazer até os mais ardorosos defensores da recriação do país refletirem.

O noticiário fala continuamente em venda de votos e fraude generalizada. O colega de chapa de Karzai é o suspeito caudilho Mohammad Qasim Fahim, que permitiu o retorno do brutal líder dos tajiques, Abdul Rashid Dostum, de um merecido exílio. O fraco comparecimento dos eleitores no centro e sul, dominados pelo Taleban, poderá levar Cabul a voltar-se para o norte, que não é pashtun, distorcendo a política nacional.

Malalai Joya, uma corajosa jovem que ocupa uma cadeira no Parlamento, disse recentemente que o Afeganistão é uma cleptocracia, e não uma democracia que funcione. Sua afirmação de que a situação das pessoas (principalmente as mulheres) não é melhor agora que sob o Taleban não pode ser contestada por quem esteja de fora.

E isso contribuirá para dar ainda mais força a líderes taleban emergentes como defensores dos pashtuns contra o regime de Karzai. Com o aumento da violência, Cabul está se preparando para o que, mais cedo ou mais tarde, venha a ser talvez sua sina: uma cidade sitiada, sufocada por antigas divisões e conflitos que o Ocidente não tem condições de impedir.

O Reino Unido está sem cacife na guerra. Bombardeios cada vez mais intensos se sucedem na região de Helmand, ocupada pelas forças britânicas, e o caos reina. Não há prova mais decepcionante do fracasso de três anos de esforços para conquistar "corações e mentes" do que o fato de somente 3 dos 13 distritos eleitorais de Helmand serem considerados seguros para que os monitores das eleições pudessem trabalhar. Apenas a metade dos eleitores da província recebeu garantia de encontrar uma sessão aberta. O Taleban está em toda parte e a ideia, tão alardeada pelos ministros britânicos, de que a realização de eleições permitiria "limpar as ruas do Reino Unido da ameaça terrorista" é absurda.

Mesmo que o Taleban tivesse como objetivo provocar o caos nas ruas britânicas, o que não é verdade, a operação afegã deve constituir a maior incitação ao mal jamais inventada. Como escreveu esta semana Ghaith Abdul-Ahad, do jornal britânico The Guardian, uma nação que sob o Taleban era introvertida e passiva (com exceção de seu papel nos atentados de 11 de Setembro como hospedeirA involuntário de Bin Laden) é hoje um ímã para fanáticos e assassinos internacionais. A estratégia britânica, qualquer que fosse, simplesmente não funcionou, fracassou. Nenhuma banalidade que se diga em Londres ou Washington poderá alterar essa situação.

Essas eleições deveriam ser o momento da verdade para os intervencionistas liberais do mundo todo. Correr o mundo incitando a realização de eleições sob a mira de um fuzil pode ter conferido uma imagem pública neoconservadora a George Bush e a Tony Blair. Essa política teve seu castigo com a divisão da Iugoslávia, a volta do Iraque às rixas religiosas e o caos do Afeganistão. Outros teatros desse zelo missionário - Paquistão, Palestina, Sudão e, num sentido diferente, Irã e Mianmá - não chegam a constituir uma publicidade entusiasmante. De quem será a vez de receber a democracia das bombas de um avião não tripulado?

Intervencionistas argumentam que a filantropia global é naturalmente atraída por situações difíceis. O cristianismo obteve seus maiores sucessos nas desoladas extensões pagãs da África e da América Latina, em Bornéu e nas pútridas favelas das Filipinas. Talvez a intervenção liberal seja ambiciosa demais ao querer pular da anarquia para a democracia sem passar pelo imperialismo, mas ainda assim o objetivo é nobre. O dedo afegão manchado de azul poderá ser cortado em breve pelo Taleban, mas pelo menos sua foto continuará como crédito para a Otan.

Não vejo motivo para júbilo. O Afeganistão tornou-se um caldeirão lucrativo para ONGs idealistas, diplomatas subempregados e vendedores de armas hi-tech. As eleições de quinta estão no mesmo plano da erradicação do ópio e dos cursos de conscientização de gênero na longa história da "filantropia a distância", como satirizou Charles Dickens com a sra. Jellyby. Seus filhos podiam morrer de fome enquanto ela se dedicava, "até que alguma outra coisa chamasse sua atenção, à questão da África, ao cultivo de café e aos nativos". Ela reencarnou em Douglas Alexander, o secretário do Desenvolvimento do Reino Unido, com seu "imenso desafio do Afeganistão".

Retrospectivamente, Donald Rumsfeld é um guia melhor para a política afegã. Sua intenção original de punir o Taleban apoiando as tribos do norte - e sair antes de ser sugado no plano de reconstrução do país - era prudente e pragmática. Não se envolvam, alertava. Deixem que os afegãos decidam seu futuro, qualquer que seja.

Se essa política tivesse sido seguida depois de 2001, o Taleban talvez tivesse retornado ao poder numa nova aliança, possivelmente sob a silenciosa influência de sua antiga aliada da era soviética, a CIA - com a qual estava restabelecendo seus vínculos antes do 11 de Setembro. Se as tropas da Otan não estivessem presentes, magnetizando e revitalizando a Al-Qaeda, o Paquistão poderia ter reformulado a política afegã de forma que se coadunasse melhor aos interesses do Ocidente em matéria de segurança. A esta altura, o país seguramente teria se acomodado em um novo isolamento en relação ao mundo.

Imagino que isso deverá passar, mas somente depois de uma década de caos induzida pela intervenção atual. Como no Vietnã, será preciso que primeiramente se trave uma batalha, em Washington e em Londres, entre os bravos realistas e os falsos patriotas. Isso agora ganha adeptos. Publicações antes entusiastas da intervenção (como o London Times e a Economist) estão fazendo perguntas ásperas, embora não ousem oferecer respostas. Os ministros parecem estar cada vez mais em pânico. Os generais ameaçam com retirada para implorar simpatia e recursos.

Uma cruzada bombástica transformou-se primeiro numa árdua e demorada missão e, agora, numa situação de desespero. O ritual diário da morte de soldados seria aceitável para uma nação em guerra. Mas há um ponto na retórica do heroísmo em que a inutilidade de tudo acaba rebentando as amarras de um suposto patriotismo. Claramente, uma eleição, o ponto culminante do realismo político, é o momento em que é preciso parar com a tergiversação e chamar o erro de erro.

QUINTA, 20 DE AGOSTO

Campanha do medo

 

Os talebans não conseguiram realizar os atentados prometidos contra as eleições afegãs, mas a intimidação funcionou. O comparecimento às urnas foi visivelmente baixo. Na Província de Kandahar, sul do Afeganistão, a abstenção chegou a 95%.

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