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C.S. Lewis subverte ficção científica em sua 'Trilogia Cósmica'

Livros espaciais do autor de 'As Crônicas de Nárnia' são reeditados no Brasil e revelam a batalha espiritual do escritor e professor

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

01 de junho de 2019 | 16h00

Muito antes de o território mágico de Nárnia existir, C.S. Lewis se preocupava mais com o que poderia acontecer com o nosso sistema solar. Concebidos anos antes do lançamento consagrador de As Crônicas de Nárnia, os três tomos da chamada Trilogia Cósmica – Além do Planeta Silencioso (1938), Perelandra (1943) e Aquela Fortaleza Medonha (1945) –, publicados agora no Brasil pela Thomas Nelson, mostram que o grande apologeta cristão foi, antes de tudo, um dos grandes pioneiros da ficção científica moderna, mas ao mesmo tempo subverteu-a de tal modo que, até hoje, ninguém conseguiu repetir o seu feito.

Sem dúvida, Lewis era fascinado pelo gênero; porém, também o via com alguma suspeita. Para ele, o que lhe interessava não eram apenas os aspectos fantásticos e tecnológicos ou a trama repleta de peripécias e reviravoltas. Sua maior obsessão era criar um mundo particular, incrivelmente complexo, um espelho da nossa realidade para nos fazer encontrar alguma transcendência. Como o próprio comenta em um clássico ensaio intitulado Sobre Histórias, o importante é registrar uma “dialética vivida” na estrutura do romance a ser escrito, tornando o cosmos uma “região” onde a existência de “outros planetas” servem para a eficácia da “ficção interior”, uma vez que “nenhuma estranheza meramente física ou distância apenas espacial perceberá essa ideia de alteridade, que é o que estamos sempre tentando entender em uma história sobre viajar pelo espaço: você deve entrar em um outra dimensão. Para construir ‘outros mundos’ plausíveis e ativos, você deve se basear no único ‘outro mundo’ real que conhecemos: o do espírito”.

Portanto, a Trilogia Cósmica cumpre o adágio latino: De te fabula narratur. A história fala de todos nós. Este é o eixo que molda a estrutura do primeiro volume do ciclo espacial, Além do Planeta Silencioso. No caso, o planeta do título é a própria Terra, exilada no cosmos. No centro da história, temos a viagem espacial do professor de filologia Ransom (inspirado no melhor amigo de Lewis, J.R.R. Tolkien, que o instigou a cumprir uma aposta sobre quem escreveria melhor um livro no estilo H.G.Wells), que, sequestrado pelo físico Weston, se vê no planeta Marte (apelidado de Malacandra). Ali, descobre que todos os mitos narrados pelos seres humanos são reflexos distorcidos de uma verdadeira batalha que sempre existiu pela alma de cada habitante do universo.

Este tema continua no segundo volume, Perelandra, que, na cosmologia de Lewis, seria o verdadeiro nome para o planeta Vênus. Desta vez, fica nítido que Ransom é o filólogo que foi chamado por alguma espécie de Providência divina para “resgatar” a raça humana da nova queda que ela enfrentaria se ele não impedisse a tentação demoníaca a qual o Rei e a Rainha deste planeta sofrerão se caírem nas mãos de um Weston completamente possesso por forças irracionais, maquiadas com o disfarce da mais perfeita racionalidade. A jornada ficcional serve como pretexto para Lewis brincar não só com o gênero da ficção científica, mas também para usar e abusar dos seus dotes de scholar de Cambridge e Oxford, com referências cifradas à teologia cristã e aos clássicos da literatura ocidental, como A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e Paraíso Perdido, de John Milton.

Contudo, o leitor não deve ver estas estratégias como as preocupações de um beletrista. A obra de C.S. Lewis, independentemente de alguns esquematismos dramáticos, sempre teve um leitmotiv perturbador que o orientou da primeira à última linha. Trata-se do fato de que todos nós somos vítimas, direta ou indiretamente, de um combate espiritual que está muito além do nosso controle – e sobre o qual, muitas vezes, não podemos fazer absolutamente nada. Isto fica evidente no terceiro tomo da trilogia, Aquela Fortaleza Medonha, cuja inspiração literária é nada mais, nada menos que o épico inspirado nas lendas dos Cavaleiros da Távola Redonda – no caso, A Morte de Arthur, de Sir Thomas Mallory. 

Aqui, Lewis constrói minuciosamente o drama de um casal de intelectuais ingleses, Jane e Mark Studdock, que se vê enredado numa vasta conspiração cientificista comandada pelo INEC (Instituto Nacional de Experimentos Coordenados, que, no original, chama-se NICE, numa dessas piscadelas irônicas que só um irlandês de Belfast era capaz de fazer). O Instituto quer instaurar na Inglaterra uma “tirania dos especialistas” que não deixa nada a ver aos impérios totalitários do nazismo e do comunismo. Porém, agora, fará isto não por meio da força, e sim por meio da união entre ciência e magia, simbolizada pelo espectro do mago Merlin, enterrado, mas não morto, em um terreno que tem uma importância simbólica para o INEC. Nesse meio tempo, enquanto Mark mergulha cada vez mais no lodo moral da burocracia científica – que não tem nada a ver com a verdadeira ciência –, Jane se envolve com uma comunidade que combaterá o Instituto, liderado por um importante e misterioso personagem dos dois romances anteriores da Trilogia.

Aquela fortaleza medonha é, com certeza, a obra-prima literária de C.S. Lewis. Ele só conseguiria fazer algo semelhante, naquela mesma época, com Cartas de um Diabo a seu Aprendiz (1942), mas sem a mesma ambição ou escopo. O episódio final da Trilogia Cósmica é a dramatização de várias ideias, agora levadas às últimas consequências, que foram esboçadas em A Abolição do Homem (1943), um dos livros mais duros e proféticos já escritos no século 20. Em todos eles, notamos como Lewis revela-nos o combate espiritual que existe no palco deste mundo para depois confirmar que a única maneira de recuperarmos algum controle sobre tudo isso é abandonar-se por completo – e permitir que a graça divina atue quando não há mais esperança. Todavia, toda essa experiência só pode ser adequadamente compreendida se ela for registrada por meio de uma sensibilidade apropriada, moldada pela arte. Eis a importância da literatura na obra de Lewis, não só como diversão, mas sobretudo como o fundamento de uma imaginação moral, segundo as palavras do professor Paulo Cruz na excelente dissertação de mestrado Ficção Científica contra o Cientificismo, defendida em 2016.

Esta imaginação é o único trunfo que temos contra a tirania dos especialistas que hoje domina o nosso cotidiano. Se eles vencerem, perderemos as nuances de um combate espiritual que, apesar de ser invisível, é o que nos liberta dos “círculos íntimos” os quais formam nossos grilhões de consciência. Só um coração partido, sem nenhum grupo para apoiá-lo, reconhece que o universo inteiro não passa de uma casca de noz. E, graças a esta amarga lição, C.S. Lewis conseguiu transformar a ficção científica em um instrumento artístico para contemplarmos o mistério do espaço que ainda nos assombra e nos fascina.

*Martim Vasques da Cunha é autor dos livros Crise e Utopia – O Dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012) e A Poeira da Glória – Uma (inesperada) história da literatura brasileira (Record, 2015); pós-doutorando pela FGV-EAESP

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