Cuba e seu futuro invisível

País se transformou a ponto de já aceitar mudanças, mas não consegue deixar os modelos do Estado

Leonardo Padura*, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2009 | 02h00

QUARTA, 28 DE OUTUBRO

Por quase meia década

A Assembleia-Geral da ONU condena, pela 18ª vez, o embargo americano a Cuba, que dura oficialmente 47 anos. Apenas os EUA, Israel e a Ilha de Palau votaram pela manutenção do próprio. Os Estados Federados da Micronésia e as Ilhas Marshall se abstiveram.

Se o passado de um homem pode ser o acúmulo de experiências vividas que o tornaram o indivíduo que é, o futuro encarna o sonho, a expectativa do que esse homem quer ou gostaria de chegar a ser, do que aspira a possuir para ter uma vida melhor - no campo do material e do espiritual. Essa capacidade de olhar para um porvir e procurar forçar já no presente as qualidades do futuro é uma das condições intrínsecas da condição humana e a fonte da superação dos indivíduos e das sociedades às quais pertencem.

Para os homens de minha geração, que como eu cresceram e viveram em Cuba nas últimas cinco décadas, a noção de um futuro melhor foi um dos motores que nos impulsionaram durante nossa juventude, agora cada vez mais distante. O desejo de superação pessoal, animado pelos ventos de uma revolução que transformou a vida do país nos anos 60, nos levou a imaginar o futuro como um estágio tangível no qual os mais esforçados, capazes e inteligentes (ou dotados de talento para explorar seus esforços e capacidades) chegariam a ter não apenas satisfações espirituais que se concretizariam numa sociedade mais justa e culta, mas também recompensas materiais difíceis, mas não impossíveis de conseguir: um salário digno, uma casa confortável, talvez até mesmo um carro "concedido" pelo Estado (único provedor desse e de outros bens há 50 anos) como prêmio pelo trabalho social e pela superação pessoal conseguida.

A crise econômica e estrutural que tumultuou a sociedade cubana na década de 90 como consequência direta do desaparecimento da proteção da União Soviética, financiadora e parceira comercial em termos quase monopólicos do Estado cubano, provocou também uma fratura na relação dos cubanos com suas imagens do futuro: de um dia para o outro, muitas das esperanças que nos animavam desapareceram do horizonte e impôs-se uma modalidade de luta pela sobrevivência que só nos permitia procurar "resolver" o dia de hoje, sem que tivéssemos ideia de como poderíamos resolver o de amanhã. A capacidade e a inteligência dos indivíduos muitas vezes perderam suas conexões com as aspirações coletivas e desde então foram os mais hábeis e ousados os que garantiram um presente melhor para si, embora muitos deles nem sequer pudessem imaginar uma estratégia de futuro: a impossibilidade de saber que rumo a ilha tomaria impedia quase sempre a elaboração desse sonho.

Nos últimos anos, Cuba mudou. Mudou a ponto de aceitar a necessidade de mudanças nas estruturas e nos conceitos. Tanto mudou que muitos dos benefícios do passado, que se identificaram com as qualidades do modelo socialista, hoje são considerados deformações paternalistas, subsídios e gratuidades insustentáveis. E mais mudanças anunciam-se para esse contexto, como a possível eliminação do cartão de racionamento, agora considerado um subsídio impossível de custear por um Estado em sérias dificuldades financeiras, a eliminação da dupla moeda (divisas e pesos cubanos) que circula no país e dificulta as operações comerciais e a vida cotidiana das pessoas (principalmente das que não têm acesso às divisas) e outras transformações a respeito das quais não há outras informações, para cuja instrumentação o governo pediu tempo. Tempo do futuro de cada um dos cubanos.

Entre as mudanças recentes, uma bastante reveladora foi a eliminação, em vários ministérios, dos restaurantes operários (também subsidiados pelo Estado e fonte de permanente "desvio de recursos", eufemismo que esconde a palavra roubo). Nesses lugares, para que os trabalhadores possam agora adquirir uma refeição, é paga uma remuneração de 15 pesos diários, o que equivale (a 24 dias de trabalho por mês) a 360 pesos... num país em que o salário médio mal ultrapassa os 400 pesos (pouco mais de R$ 50). Será possível planejar um futuro pessoal com isso?

O próprio governo cubano reconheceu a realidade palpável de que os salários pagos são insuficientes para viver. Com menos evidência aceitou também as múltiplas deficiências de um modelo econômico que não garante a produtividade (Cuba importa mais de 70% da comida que consome) ou de sintomas de desintegração social visíveis em manifestações como o reaparecimento da prostituição, a corrupção, o aumento da marginalidade e a ânsia de migrar que tentam muitos jovens.

Mas pouco se fala, quase nada, a respeito da impossibilidade de criar modelos ou aspirações de futuro além dos que são garantidos pelo Estado (saúde, pública, educação, tão essenciais, mas geradoras de outras expectativas nos indivíduos e sociedades em que são asseguradas). Digamos que um sonho tão necessário como o de ter uma casa - e são muitos os que ocupam habitações em condições deploráveis ou vivem comprimidos em espaços mínimos - é uma utopia inalcançável em um país onde um saco de cimento custa mais de um terço do salário médio. Mas, depois de concluir uma carreira universitária, a que uma pessoa poderia aspirar?

Os cubanos de hoje, mesmo que tenham uma maior possibilidade de expressar suas insatisfações com o presente, são incapazes de prever um futuro que se vislumbra diferente, mas ninguém imagina como nem quando chegará. O dispendioso paternalismo gerado pelo Estado e do qual hoje este tenta livrar-se também envolve essa aspiração de sonhar um futuro possível, pois este se regerá pelas formas e decisões estabelecidas pelo mesmo Estado, em mais um gesto do seu paternalismo. Que mudanças ocorrerão, quando, como afetarão cada um de nós e até que ponto influirão em nossos futuros? Ninguém aparentemente sabe, enquanto os anos passam e o que pode ser futuro fica no passado irrecuperável das vidas individuais.

*Escritor e jornalista cubano. Sua obra mais recente, El Hombre que Amaba a los Perros (Tusquets), tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ramón Mercader

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