Cuidado: não aperte demais

A causa do Tibete é forte. Misturar outras queixas pode ser perigoso

Philip Bowring, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2008 | 22h12

Os tibetanos têm uma causa forte contra Pequim. Mas misturá-la com a Olimpíada e Darfur é o mesmo que agitar um pano vermelho diante de um touro jovem ferido. Muitas vezes, o nacionalismo é incitado mais por reveses que por sucessos, de modo que os problemas do Tibete e as possíveis ameaças a uma Olimpíada triunfal estão colaborando para essa incitação. No horizonte existe a possibilidade de que esses fatores se combinem com inflação alta, estagnação das exportações e tensões comercias com os Estados Unidos para criar uma tempestade nacionalista perfeita.Os líderes chineses têm pela frente um difícil ato de equilibrismo. Como sua legitimidade se baseia hoje nas conquistas nacionais e não na ideologia comunista, eles devem se mostrar afinados com o sentimento popular. Mas estabilidade em casa e boas relações no exterior requerem manter sob controle as emoções nacionalistas. A paranóia a respeito de intenções estrangeiras malévolas, que prosperou no tempo de Mao Tsé-tung e foi afastada por Deng Xiaoping, ainda está à flor da pele.Quase toda a China se sente ofendida pelo fato de estrangeiros se mostrarem tão ávidos em censurá-la e encorajar os pequenos boicotes que poderiam estragar a festa olímpica. Os chineses legitimamente se enfurecem por serem acusados pelo que ocorre em Darfur enquanto seus críticos ocidentais ocupam o Iraque. Pequim permite alegremente que esses ressentimentos nacionalistas circulem na linguagem às vezes violenta de blogs e salas de bate-papo da internet.O ódio, por sua vez, facilita ao governo atribuir os problemas tibetanos a estrangeiros e exilados tibetanos chefiados pelo dalai-lama para prender defensores de direitos humanos e reprimir a mídia estrangeira.Pequim joga com a ameaça estrangeira como o governo americano usou a ameaça da Al-Qaeda para justificar a invasão d o Iraque. Assim, foi levantado, por exemplo, o espectro de esquadrões da morte tibetanos organizados pela "claque do dalai-lama" para atacar os Jogos Olímpicos.A possibilidade de ameaças como essa não pode ser ignorada. Mas um governo mais calmo fortaleceria discretamente as defesas em vez de elevar a temperatura e suscitar temores de que ataques terroristas poderiam ser encenados para desacreditar os tibetanos.Pressionadas, as autoridades recuaram para o linguajar e as mentiras da Revolução Cultural. O secretário do Partido Comunista no Tibete descreveu o dalai-lama como um "monstro com face humana".Menos dramaticamente, o primeiro-ministro Wen Jiabao disse que o canal de diálogo com o dalai-lama estava aberto desde que ele "abandonasse as pretensões à independência do Tibete" e usasse sua influência para "pôr um fim à violência no Tibete". Na verdade, há muito tempo o dalai-lama aceitou o princípio de autonomia dentro da China, contanto que fosse uma autonomia verdadeira. E ele está em conflito com muitos tibetanos que se opõem a sua defesa de meios pacíficos.É igualmente importante a maneira como a mídia oficial chinesa tem descrito a violência no Tibete como ataques aos chineses han. Isso, como era previsível, provoca uma irritação na etnia han, que constitui 90% da população da China e tende a ver o Tibete como uma região estagnada que os hans melhoraram com seu ímpeto modernizador.A etnia han não vê razão para os tibetanos estarem descontentes com sua migração e domínio comercial, e se ressente de que os tibetanos não se sintam gratos pelo dinheiro despejado pelo governo na região. "O Partido Comunista é como um pai do povo tibetano e está sempre atento às necessidades dos filhos", declarou o secretário do partido no Tibete. O partido, disse ele, é o "verdadeiro Buda" para os tibetanos.Esse aspecto racial/cultural não só dificulta para a China resolver questões de minorias como põe a questão da identidade han num contexto mais amplo, internacional.Mitologia racial e identidade cultural se acirram tanto com vizinhos imediatos "bárbaros" - sejam eles japoneses, mongóis ou russos - como com os ocidentais que por muito tempo dominaram o Império do Meio. Como os chineses reagirão se a Olimpíada realmente ficar mais marcada por manifestações e boicotes de estrangeiros inspirados por tibetanos do que pelas conquistas de atletas e organizadores da China? E contra quem o ódio popular se dirigirá então?Se a festa for estragada, seja pelo Tibete ou pela poluição do ar, a necessidade de bodes expiatórios de alto escalão poderá se tornar irresistível. Pior ainda se isso coincidir com um agravamento de tensões comerciais com os Estados Unidos que poderiam surgir com a entrada da economia americana em recessão. Se os chineses vierem a perceber que os benefícios da globalização chegaram ao ponto máximo, os líderes não poderão recuar de 30 anos de engajamento "denguista"?Nada disso precisa acontecer. Mas orgulho étnico e ambições frustradas são forças poderosas. Vale lembrar que pressões econômicas estrangeiras, fervor patriótico e poder militar crescente transformaram um dia o Japão liberal num Japão expansionista, militarista e hipernacionalista nos anos 1930. Os tibetanos têm uma causa forte contra Pequim. Mas misturá-la com a Olimpíada ou Darfur é agitar um pano vermelho diante de um touro jovem ferido. *Philip Bowring é colaborador da seção de opinião do Internacional Herald Tribune

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