Da missa, a metade

Da missa, a metade

Como a marxista Lina Bo Bardi usou o ritual católico para encerrar a revolta operária do feijão contra a soja brochante

Mônica Manir, O Estado de S. Paulo

18 Outubro 2014 | 16h00

Foi quase uma revolução proletária. Contra o cardápio burguês, mas foi. Em 1980, já com o Sesc Pompeia bem adiantado, uma massa de operários procurou d. Lina no canteiro de obras. Queriam que ela intercedesse junto à chefia para o menu do almoço voltar a ser o que era: um menu de raiz, de sustância, de potência, um menu de macho. Que negócio era aquele de trocar o feijão pela soja, frescura sabidamente brochante? D. Lina que batesse o compasso na mesa e usasse sua influência. Os cabras já sentiam, lá no fundo, que a coisa não estava funcionando bem...

Como de praxe, Lina Bo Bardi ouviu atentamente o clamor do povo. A arquiteta logo exigiu dos fornecedores das marmitas que largassem de modismos proteicos e voltassem ao feijão com arroz. Fez mais: encomendou uma missa de corpo presente no canteiro, da qual participaram os operários, diretores do Sesc, engenheiros, um frade franciscano, o artista plástico Edmar de Almeida, Graziella, irmã de Lina, a própria Lina e seus assistentes imediatos, André Vainer e Marcelo Ferraz, que reproduzem essa versão da história. “No culto, todos os operários foram reunidos para que aquela espécie de mau-olhado fosse banida, libertando todos de uma certa impotência sexual”, diz Marcelo. “Era um momento efervescente da obra; Lina nasceu na Itália, sabia como uma missa apaziguava”, arremata André.

Quando da rebelião do feijão, o Sesc Pompeia estava na fase de acabamento da primeira etapa. Naquela altura, cerca de 400 homens circulavam pela antiga fábrica de tambores. Lina havia se encantado com a estrutura de concreto dos galpões, distribuídos um após outro conforme os projetos ingleses do começo da industrialização europeia. Queria preservar o jeitão do prédio, mas subverteria sua alma, como lembra a arquiteta Olivia de Oliveira no livro Obra Construída: “Ela retirou daquele espaço de trabalho o caráter desagradável, repressivo, violento e penoso para relacioná-lo a sensibilidade, liberdade, imaginação e libido”.

A maior parte dos operários vinha de Minas, e a origem dos demais oscilava para cima: Bahia, Ceará, Piauí, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba. O cearense Francisco Braz Rodrigues começou como assistente de cozinha e logo galgou o posto de encarregado do setor no lugar de d. Antônia, que fazia o café de d. Lina. “Precisavam de um homem para botar ordem na casa”, diz ele. Trinta e quatro anos depois, lembra sem titubear o cardápio semanal, literalmente exposto à peãozada na parede do restaurante: segunda-feira, virado à paulista; terça-feira, dobradinha; quarta-feira, feijoada; quinta-feira, macarronada; sexta-feira, rabada. O suco era de laranja; a sobremesa, um pudim de leite, uma fatia de abacaxi, outra fruta da época. A peãozada sabia ler? “Na verdade, a maioria não sabia, nem entendia isso de um prato diferente por dia”, reconhece Braz, enquanto conversávamos num restaurante de shopping com gente diferenciada.

Braz, que morava num dos barracões do terreno, acumulava a função de admissão e demissão dos trabalhadores, além de andar com um três-oitão por dentro da calça, do qual tinha porte por ter servido no Exército. Uma vez, recorda, um operário bêbado virou um caldeirão de feijoada quente sobre um assistente seu da cozinha. Foi rapidamente para o chuveiro - e que não se machucasse o tresloucado. “D. Lina não admitia nem um beliscão nos operários, ficava brava.”

Da rebelião do feijão, sua versão é outra. As marmitas oriundas do Sesc Campestre não teriam grãos de soja. O que pegou foi o óleo de soja. Ele passou a ser usado como tempero cotidiano, o que deu certo revertério nas dobradinhas dos operários. A arquiteta prontamente mandou cancelar o óleo, porém os ânimos continuaram um tanto exaltados.

Não há detalhes vívidos da rebelião do feijão nem da rebelião do óleo nas memórias do Luiz Octavio Martini de Carvalho. engenheiro da obra do Sesc Pompeia. Restaram momentos mais singelos, pueris até, como o frango esculpido por um dos carpinteiros numa prateleira do restaurante. “Quando Lina viu, ela ficou... Vamos fazer um... Ela bolou um lugarzinho na cozinha para ele fazer outras coisas”, diz, tentando expressar o maravilhamento da ítalo-brasileira. Quanto à missa, Luiz foi testemunha ciente e presente. Estava na segunda fila, bem atrás de Graziella Bo. Não lhe parece estranho Lina se autodeclarar marxista-leninista e, ao mesmo tempo, propor um ritual católico no meio do canteiro. A missa levantou o astral. “Era isso o que importava.”

Ficou ainda a lembrança nítida de uma grande tapeçaria atrás do altar, um crucifixo. Era uma obra de 2 m por 3,40 m do iconógrafo Edmar de Almeida, que mora em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Ali a arquiteta deixou sua marca na Igreja do Espírito Santo do Cerrado. A voz mansa de Edmar, entrecortada por inúmeros cigarros de palha, explica como foi convencê-la a projetar o prédio para uma igreja que ela condenava. “Chamei o frei Egydio para eles conversarem aqui no sítio”, diz. “Ele era franciscano, mas começou mal, dizendo-se italiano como ela e amante de macarrão.” Lina respondeu que era brasileira, que apreciava mesmo o arroz com feijão e que só faltava ele gostar do Mussolini... Edmar teve que recorrer ao passado de capelão de guerra do frei Egydio e ao empenho do pároco na produção de um filme de Rossellini sobre São Francisco. 

Três dias depois, estava esboçado em guache o conjunto de quatro volumes cilíndricos articulados entre si, erguido pela comunidade em mutirão de fins de semana. Uma estrutura simples, de tijolo aparente, com piso de pedra portuguesa, que questionava a visão centralizadora e hierárquica das religiões ocidentais. Lina tinha pelo ar condicionado o mesmo horror que tinha pelos carpetes, daí ter bolado pequenas aberturas que queria espalhar ao longo da parede. Elas desapareceram e, no lugar, espalharam-se ventiladores negros. “Cada padre que vem insere uma coisa nova”, comenta o arquiteto Ariel Lazzarin. Ele faz uma tese de doutorado sobre a igreja, que abrigará uma exposição sobre Lina em novembro e dezembro, mais uma homenagem neste semestre aos 100 anos de nascimento da arquiteta, jornalista, designer, professora, museógrafa, cenógrafa, figurinista.

Frei Egydio era das poucas pessoas que se aproximavam fisicamente de Lina. “Ele me dá um abraço que o Pietro nunca me deu”, confessava ela, referindo-se ao marido, Pietro Maria Bardi. Bebiam uísque e vinho juntos, e Lina teria ficado muito abalada com a morte do pároco num terremoto em Polla, na Itália, para onde ele foi a fim de arrecadar fundos para a igreja. 

Para a missa no Sesc, ela convidou frei Fúlvio Sabia, que hoje cuida de um asilo em Montecorvino Rovella, a 20 quilômetros de Salerno. Ele foi um dos fundadores das Creches Comunitárias Associadas de Uberlândia, uma delas ao lado da Igreja do Espírito Santo do Cerrado, que acolhe festivamente crianças e adolescentes. “D. Lina não me falou o motivo da celebração, se tinha algo a ver com o cardápio ou coisa assim”, diz ele por telefone, num português escorreito. Frei Fúlvio entendeu que devia transmitir aos operários o lema franciscano de paz e bem. “A missa foi formal, mas o ambiente nem um pouco”, diz, emocionado. Lina, como de costume, estava de preto e carregava no peito um cordão longo e grosso, um terço de Pedro Sardinha, comprado pelo marido num antiquário. “Ela adorava joias, usava uma de manhã, outra à tarde, outra à noite. Usava por prazer, ia até a porteira do sítio e voltava”, diz Edmar. Já André se lembra de um anel romano do século 1º ou 2º, pau pra toda obra, assim como dos indefectíveis tênis e da estrela vermelha no lado esquerdo do peito, um broche que tinha a ver com Lenin e Che Guevara.

Socializando as versões do feijão e da soja, Edmar também tem a sua. “Os operários se revoltaram contra uma marmita deste tamanhinho, com estrogonofe dentro, a mesma que era enviada aos tecnocratas.” Chegaram quebrando tudo, queriam arroz, feijão, farinha, carne-seca, rapadura. “Acho que eles estão passando fome”, disse Lina. Lá foi ela insistir para popularizar o cardápio. No paralelo, incumbiu Edmar de sondar os operários, conferir suas origens e a religião que professavam. A missa seria para dali um mês. Edmar embrulhou seu crucifixo de tapeçaria e se despachou com ele de Uberlândia pra São Paulo. “Não aprovo essa folclorismo em torno dos fatos, não é verdade.” 

Sobre as rebeliões do feijão, do óleo e do estrogonofe paira uma imagem comum: a de uma Lina Bo Bardi forte e determinada, inovadora dos conceitos, professora em tempo integral, defensora do gosto popular, dama sofisticada e sensível, religiosamente marxista, que por vezes esmurrava a mesa se dizendo o homem da reunião. Complexidade que uma frase escrita de próprio punho, em exibição no Sesc Pompeia, talvez consiga resumir: “Fiquei apavorada de ter nascido mulher, depois procurei me ajeitar”.

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