National Library of Medicine
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Da peste negra aos dias atuais, por que a quarentena é tão perturbadora

Livro narra a história das quarentenas provocadas por doenças contagiosas

Anna Reisman, Especial para o The Washington Post

12 de agosto de 2021 | 10h00

Em março, minha filha me telefonou em pânico. Uma das suas amigas havia testado positivo para o coronavírus e estava em isolamento num local designado para isso. Minha filha e outras quatro amigas haviam feito o teste, que deu negativo, disse ela, mas passaram um tempo com a amiga infectada, de modo que corriam risco. Nos dez dias seguintes, todas estavam em quarentena num quarto de hotel individual em Hampton Inn. Minha filha tentava se concentrar nas suas aulas pelo Zoom, mas às vezes era tomada pela incerteza e pelo pânico. Eu fiquei tão perturbada quanto ela.

Nossa apreensão decorre do caráter da quarentena, que, em termos práticos, é diferente do isolamento. No seu livro vívido e envolvente, Until Proven Safe: The History and future of Quarantine [Até que se prove seguro: A história e o futuro da quarentena, em tradução livre], Geoff Manaugh e Nicola Twilley explicam: “Se você sabe que está infectado com uma doença contagiosa e as pessoas dizem que deve permanecer em casa ou num hospital para não propagar essa doença, então você não está em quarentena: está isolado”.

A quarentena, inversamente, “surge de uma situação de suspeita: tem a ver com a infecção potencial e o risco possível”. É essa incerteza inerente que torna o conceito de quarentena não só inquietante, mas também misterioso.

No seu livro, Manaugh e Twilley oferecem uma história com uma perspectiva ampla da quarentena médica, seu uso, sucessos e fracassos, desde a Peste Negra até os dias atuais. E também exploram aspectos da quarentena além da esfera médica: como ela é usada para proteger plantas, animais, minerais e até o nosso planeta. E nos informam sobre suas descobertas à medida que nos levam junto com eles na sua pesquisa para o seu livro. Como resultado, Until Proven Safe é um documentário de viagem expressivo, informado pela história, política e ciência, retomando habilmente locais e períodos da história e nos levando até o ponto em que estamos neste momento. Apesar de começarem seu exame da quarentena anos antes da pandemia do coronavírus, seu livro serve como uma história esclarecedora do presente.

Manaugh, autor e escritor de artigos para revistas, e Twilley, que apresenta um podcast e contribui para a New Yorker, nos levam a algumas das primeiras estações de quarentena na Europa, se identificando como “turistas de quarentena”, e seguem os passos de John Howard, “filantropo, vegetariano e defensor de uma reforma do regime prisional” que, em 1785, decidiu inspecionar as condições de vida das pessoas colocadas nos “lazaretos”, ou hospitais destinados à quarentena. Para viver pessoalmente a experiência, Howard embarcou num navio infectado, chegando meses depois na ilha veneziana de Lazzaretto Nuovo, onde, por causa da sua exposição à doença, ficou por um curto período em quarentena, “num quarto sujo, repleto de vermes”. (Ainda bem que ele não esteve ali dois séculos antes: durante os surtos de pragas em 1576, esse lazareto que deveria abrigar 100 pessoas tinha mais de 10 mil “esperando no meio dos mosquitos e da umidade surgirem os sinais terríveis da doença). Howard cumpriu sua quarentena incólume. Os autores escrevem que ele “ajudou a identificar elementos essenciais de um centro de quarentena bem administrado, desde a ampla ventilação e uma circulação cuidadosamente projetada aos serviços religiosos comunitários e os cuidados compassivos” - elementos que às vezes estão ausentes nas quarentenas contemporâneas.

Em Londres, o filatelista Denis Vandervelde explica aos autores a prática de séculos de desinfetar objetos vindos pelo correio em épocas de doenças contagiosas. Cartas e pacotes potencialmente contaminados eram colocados por uma semana em caixões de madeira com condimentos e ervas, e outros eram tratados com vinagre e fumaça, ou grelhados sobre uma rede de metal. Vale lembrar que a minha biblioteca local, em meados de 2020, colocou os livros em quarentena antes de colocá-los à disposição, que eram pegos sem contato com as pessoas do local.

O poder para implementar quarentenas à força naturalmente vem junto com o poder de corromper e isso com frequência legitima o preconceito e o racismo. No final dos anos 1800, John Cumpston, diretor do Departamento de Saúde da Austrália, expôs os objetivos de uma política de quarentena nacional: criar uma “Austrália branca” por meio da proteção contra doenças e contra “certas raças de estrangeiros cujos hábitos impuros e absoluta falta de consciência sanitária constituem uma ameaça permanente à saúde de qualquer comunidade”.

Em 1900, as autoridades em São Francisco isolaram “uma comunidade inteira (Chinatown) com cordas, postes e arame farpado” depois de um vendedor de madeira morrer por causa da peste. Muitos habitantes em São Francisco reivindicaram a área de Chinatown para erigir novos prédios e os moradores chineses temiam que a quarentena fosse o primeiro passo para uma possível prisão de todos eles e a destruição de suas casas em nome da saúde pública. No final, um juiz decidiu que o Departamento de Saúde havia aplicado a quarentena “com olhar maligno e de um modo desigual” e que havia “direcionado isso claramente contra uma classe de pessoas (os asiáticos) numa direta contradição com as proteções iguais para todos garantidas pela Constituição”.

Misoginia e preconceito contra os negros permearam algumas políticas de quarentena, como o American Plan de 1917, uma iniciativa federal de saúde pública para proteger os soldados que posteriormente se expandiu para estados e municípios.

As mulheres que se acreditava eram responsáveis por propagar doenças venéreas eram detidas, colocadas em quarentena e examinadas sem o seu consentimento. Algumas eram entregues pelos próprios maridos depois de uma briga; uma foi presa por jantar sozinha. Em Kansas, um terço das mulheres detidas era negra. Indagado porque os homens não eram incluídos, Gardener M. Byington, autoridade de saúde de Michigan, deu uma explicação estúpida, de que “uma mulher propaga doenças venéreas muito mais rapidamente, e habitualmente é mais fácil hospitalizar uma mulher do que um homem, devido ao fato de este último ser um assalariado”.

Martin Cetron, diretor da divisão do CDC - Centros de Controle e Prevenção de Doenças, dedicada à migração global e quarentena, disse aos autores que “cada importante epidemia global é acompanhada por uma epidemia de medo e uma epidemia de estigmas”. Como um exemplo triste do uso perverso da quarentena, os Estados Unidos negaram a entrada ao país de não cidadãos com aids durante 22 anos, até 2010.

Os autores também analisaram o papel da quarentena na proteção do fornecimento global de alimentos. Visitaram um centro de pesquisas de doenças de animais em Manhattan, Kansas, e uma estufa em Londres no International Cocoa Quarantine Center, onde viram plantas de cacau em quarentena por vários anos de modo a garantir que as entregas futuras estivessem livres de doença, e assim “salvaguardar a oferta de chocolate no mundo.

A estufa, escrevem Manaugh e Twilley, “é um raro exemplo de uma real quarentena no universo da biossegurança não humana”.

Com as quarentenas e lockdowns de novo aumentando à medida que a variante Delta se propaga de modo descontrolado entre os que ainda não foram vacinados, podemos muito bem avaliar o que Cetron, do CDC, chamou de “quarentena moderna”, que dá o mesmo peso para os direitos dos indivíduos e a necessidade de proteção da saúde pública. “Existe um equilíbrio de fatores delicado. Se as autoridades governamentais exigem que as pessoas cedam seus direitos no interesse da saúde pública, elas precisam prometer cuidados médicos: no mínimo oferecer alimentos básicos e abrigo, testes e tratamento, comunicação e transparência. Como disse Cetron: “Não há nenhum controle sem assistência. Não se trata de proteção da saúde versus direitos humanos - é um equilíbrio cuidadosamente negociado entre ambos”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*Anna Reisman, clínica geral, é professora de medicina e dirige o Program for Humanities in Medicine, na faculdade de medicina de Yale.

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