Dando rosto às estatísticas

Ao espalhar retratos gigantes pelas paredes de concreto, cidade mexicana assolada pelo crime quer transformar números frios em vítimas impossíveis de ignorar

Damien Cave, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2012 | 03h08

Quando os moradores desta cidade industrial pobre olham para os morros, eles agora veem os rostos de vítimas do crime devolvendo seu olhar. Retratos enormes cobrem casas de concreto como parte de um projeto de arte comunitária que capta o que se tornou uma obsessão mexicana: visualizar as vítimas ou, mais amplamente, transformar números frios e tediosos em pessoas de verdade. "Falamos muito em números", disse Marco Hernández Murrieta, presidente da Fundación Murrieta, que organizou o projeto fotográfico neste subúrbio da Cidade do México. "Estamos dando rosto às estatísticas."

Outros grupos deram voz a vítimas em vídeos com atores famosos - como Diego Luna. Eles interpretam mexicanos que perderam entes queridos para a violência das drogas ou por violações dos direitos humanos. Contas do Twitter como @Tienennombre também nomeiam os mortos, amiúde acrescentando idade e outros detalhes pessoais. Esses esforços representam mais que uma frustração com a crescente insegurança no México. Especialistas e ativistas dizem que são também um grito de indignação contra a impunidade e a falta de transparência que mantêm os mexicanos no escuro, em geral incapazes de separar o culpado do inocente.

Muitos dos chamados visualizadores de vítimas do México querem é mudar a mentalidade dos vizinhos. Suas campanhas são, em geral, tentativas de criar uma consciência pública, de evitar que as pessoas aceitem a violência fazendo-as sentir o sofrimento que o crime provoca.

"Esses movimentos são significativamente diferentes das boas e velhas marchas", disse Andrés Monroy-Hernández, bolsista no Berkman Center for Internet and Society de Harvard. "As marchas carregam o estereótipo de movimentos formados por pessoas da classe operária, chefiados por líderes políticos ou sindicais carismáticos. Esses novos movimentos na mídia social são interligados pelas redes e atraem jovens de classe média que se identificam mais com o Ocupem Wall Street e com a Primavera Árabe."

O projeto de Ecatepec foi inspirado, de fato, por um astro tanto da rua como da internet: o fotógrafo francês JR, que posta retratos imensos em prédios e espaços públicos. Alguns anos atrás, ele expôs pôsteres de jovens que viviam em projetos habitacionais nos arredores de Paris. No Oriente Médio, pendurou retratos de palestinos e israelenses, em ambos os lados dos muros que os dividiam. O processo no México foi mais comunal. A Fundación Murrieta deu aulas de fotografia a jovens dos bairros pobres e recrutou vítimas do crime para seus temas.

"Vítima" foi definido de maneira ampla. Com os que testemunharam assassinatos em primeira mão, perderam parentes ou sofreram crimes violentos, a categoria incluiu viciados em drogas, namoradas de criminosos e um velho que temia não poder ver seu filho preso antes de morrer. Os nomes dos retratados omitidos por segurança.

Cerro Gordo, o bairro escolhido por sua visibilidade, no início não quis se ligar ao projeto. "Todos acharam que era político", disse Antonio Olvera, de 24 anos, um morador que ajudou a pendurar os pôsteres. "Mas na verdade, é apenas arte."

Hernández, da fundação, descreveu a experiência como prevenção artística do crime. Ao lado da foto de uma jovem de lábios grossos e olhos intensos, ele se disse esperançoso de que as imagens fariam as pessoas que pensavam em se comprometer com o crime reconsiderarem e estimulariam os mexicanos a questionar amigos e parentes envolvidos em gangues e no tráfico.

Esforço similar para despertar do público pode ser encontrado em 31 K Portraits for Peace, que está postando 2 mil pôsteres de mexicanos ansiosos por paz nas cidades mais violentas do país, e no trabalho de El Grito Más Fuerte, coletivo ativista saído do cinema e do teatro.

Um vídeo de cinco minutos que o El Grito Más Fuerte postou online neste ano, In the Shoes of the Other (Colocando-se no lugar do outro, em tradução livre), recebeu ampla cobertura da mídia mexicana e atenção no Facebook porque inclui celebridades contando a história de Javier Sicilia, poeta cujo filho foi assassinado no ano passado, e várias outras com desfechos estarrecedores.

"Não há passos concretos a dar", disse o astro Gael García Bernal, numa coletiva à imprensa para El Grito Más Fuerte. Ele acrescentou que o coletivo visava mais a uma "troca de conversas". Mas para o México, uma democracia complexa que historicamente preferiu a estabilidade à reforma, será que conversas bastam?

Homero Aridjis, poeta e ativista ambiental de longa data, se disse encorajado pela paixão que cerca aqueles com "credenciais de sangue". "No México, porém, precisamos de transparência judicial", disse. "A única esperança é reformar o Judiciário." Sem uma mudança institucional, acrescenta, a popularização da vítima pode trazer mais problemas, à medida que as pessoas se sentirem encorajadas a agir como vigilantes. "É preciso ser cuidadoso para as vítimas não se tornarem inquisidores."

Em Ecatepec, os moradores dizem que os retratos provocaram orgulho cívico. Muitos esperavam, porém, que a atenção que as fotos atraíram faria o governo prover serviços desde há muito necessários, como melhoria das vias públicas e do policiamento. Três meses após a primeira imagem surgir, isso não ocorreu. A criminalidade no bairro também não diminuiu. Moradores dizem que há tiroteio uma vez por semana, em média.

Mesmo assim, Hernández sustenta que pequenos atos de reengenharia cívica são a única maneira de avançar. "Temos de ser como formigas", disse ele, "trabalhando duro em coisas pequenas que sejam bem focadas.'

Como a própria esperança, porém, as fotos tem encontrado dificuldade de se manter. Das 35 que foram penduradas, 10 sobreviveram. As demais foram destruídas por tempestades ou roubadas por vizinhos que usaram o vinil da impressão como telhados para suas casas. Necessidades básicas como abrigo, ao que parece, ainda se sobrepõem à de conversar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

DAMIEN CAVE É CORRESPONDENTE DO NEW YORK TIMES NA CIDADE DO MÉXICO

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