Darwin unilateral

Grandes roubos comprovam que as leis da evolução funcionam mais para o crime que para a polícia, lenta como toda burocracia

Guaracy Mingardi, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2014 | 16h00

O estudo da evolução da criminalidade nos últimos cem anos mostra que os criminosos profissionais aprendem rápido. Eles utilizam as novas tecnologias e a experiência coletiva para orientar suas ações e maximizar o lucro. É evidente que a maioria continua a reboque, apenas copiando os modelos que os mais inventivos criam. Foi assim quando da invenção do carro, que deu mobilidade inesperada aos assaltantes no meio oeste americano, período em que floresceram alguns criminosos que até hoje são tema de filmes ou livros. Quadrilhas como a de Dillinger usavam carros velozes, roubavam o banco em uma cidadezinha e sumiam do mapa antes que a polícia conseguisse entender a situação. Outro exemplo mais atual é o dos estelionatários, que estiveram entre os grupos que mais se beneficiaram com advento da internet, utilizando o sistema recém criado para aplicar golpes e tirar o dinheiro dos usuários incautos.

Além de se apropriar das novas tecnologias, as quadrilhas também aprenderam rapidamente uma lição da modernidade, o valor da organização e da informação. Nos últimos trinta anos os métodos mudaram e novos grupos tomaram o espaço dos antigos por estarem mais adaptadas. E algumas organizações centenárias que continuam no mercado do crime tiveram de se reestruturar. Como a Yakusa, as tríades chinesas, a Máfia de New York, etc. No mundo do crime as leis de Darwin funcionam de forma exemplar. Quem não se adapta não sobrevive. 

Seria de se esperar que o outro lado da moeda, a polícia, também fosse capaz de aprender tão rápido quanto os criminosos, mas ela é uma burocracia, e como em toda burocracia, a evolução é muito lenta. Além dos entraves causados por leis, procedimentos e costumes arcaicos, existe um complicador adicional. Nas poucas vezes que uma organização policial consegue analisar os problemas e propor soluções inovadoras, a mudança é descaracterizada ou ignorada pela máquina estatal, que prefere manter tudo como de costume, funcione ou não.

Esse longo intróito é fundamental para discutir o grande roubo que ocorreu nesta segunda-feira (dia 07/07) em Campinas, quando um grupo fortemente armado invadiu a fábrica da Samsung, fez dezenas de reféns por horas e roubou produtos eletrônicos avaliados em R$ 80 milhões. Os detalhes do crime foram discutidos por toda a imprensa, mas a situação, até o momento em que escrevo, continua obscura. A única certeza é que havia informações internas. Eles sabiam muito bem o que estavam fazendo e conheciam o local.

Nada impede que amanhã ou daqui uns dias o crime seja solucionado, inclusive porque despertou atenção da mídia e furor dos empresários, mas o problema é que ele só foi possível porque o sistema de segurança pública ignorou, ou deu pouca atenção, ao controle das quadrilhas especializadas em receptação de mercadorias roubadas. E crimes desse porte só são possíveis quando existe um comprador para o produto do roubo. Ninguém arriscaria uma ação tão complexa se não tivesse saída garantida para a res furtiva (objeto de roubo).

Mesmo aqueles casos do cotidiano, como o roubo de celulares, só persistem porque existe um mercado para o produto. O receptador compra do ladrão e vende para um usuário qualquer como um aparelho semi novo, em lojas legalizadas, que supostamente pagam seus impostos. Tudo feito a luz do dia, não na calada da noite nos becos.

E o problema não é novo. Já ocorria quando os trombadinhas roubavam correntes de ouro nas ruas do centro, objeto que era vendido a poucos metros do local do crime, para um ourives qualquer. E uns anos depois, no período áureo dos desmanches, quando muitos deles só vendiam peças de carros roubados. Ou seja, o problema da receptação não é novo, mas nunca foi combatido de forma organizada e sistemática.

O caso da Samsung não foi o primeiro roubo de larga escala na região. No final de 2012 um grupo de assaltantes encapuzados e bem armados invadiu um depósito da TAM no Aeroporto de Viracopos e roubou uma carga de eletrônicos avaliada em R$ 3,9 milhões. Pelo que se sabe a polícia interrogou alguns suspeitos, mas ninguém foi preso, e a carga não foi recuperada.

Aparentemente trata-se de um modus operandi (forma de agir) que a polícia ainda não tem know how para coibir. Parece ser uma regra universal, não apenas no Brasil, que os ladrões criam e a polícia corre atrás do prejuízo. Só depois de vários casos e muita pressão externa que a estrutura policial começa a se adaptar aos novos métodos de ação dos criminosos. E quando isso ocorre eles inventam outra modalidade. 

Basta seguir o noticiário para ver que o ciclo se repete indefinidamente. Um motivo disso é que o mundo do crime é, e sempre foi, mais dinâmico que o Estado. A troca de informações é rápida e simples, os criminosos aprendem as novas metodologias dos colegas que freqüentam a mesma escola do crime, o sistema prisional. Enquanto isso os policiais que tentam inovar, trazer novas metodologias, são contidos pela máquina, que prefere manter tudo como esta para ver como é que fica.

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Guaracy Mingardi é doutor em Ciência Política pela USP e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública

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