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David Fincher narra polêmica sobre autoria de 'Cidadão Kane' em novo filme

'Mank' conta a história do roteirista Herman J. Mankiewicz, que colaborou com Orson Welles em sua obra-prima

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2020 | 16h00

O filme que durante décadas foi considerado o melhor da história do cinema também já virou um produto Netflix. Não, não vem por aí uma nova versão, para streaming, de Cidadão Kane, que, aliás, nem em sua forma original faz parte do decepcionante repertório de atrações da Netflix. O que vem por aí é uma espécie de making of do projeto Citizen Kane. Ou melhor, um docudrama com os bastidores da criação do filme que projetou Orson Welles como o maior e mais influente diretor do cinema moderno. 

A começar pelo título, Mank, o fulcro desse “netflick”, ora em filmagens sob a batuta de David Fincher, diretor de Os Sete Crimes Capitais e A Rede Social, é a polêmica criada em torno da autoria do roteiro original de Cidadão Kane. Mank era o apelido de Herman J. Mankiewicz (leia-se “manqueuiques”), parceiro de Welles na confecção do script e na premiação do único Oscar que o filme, concorrendo a mais oito estatuetas, conquistou em 1942. 

Irmão mais velho do também roteirista e depois diretor Joseph L. Mankiewicz (A Malvada, A Condessa Descalça), Herman foi jornalista do New York Times, publicista da bailarina Isadora Duncan e crítico de teatro da revista The New Yorker, antes de ir para Los Angeles tentar uma carreira de roteirista, nos estertores do cinema mudo. Chefiou a divisão de roteiristas da Paramount, trabalhou na Metro, palpitou nos scripts de O Mágico de Oz e Os Homens Preferem as Louras, produziu as três melhores comédias dos Irmãos Marx e ganhou um segundo Oscar ex-aequo, pelo roteiro de Ídolo, Amante e Herói (The Pride of the Yankees). 

Pinguço hard, desde o início da preparação de Kane, Mank foi mantido longe do álcool, sob a vigilância de John Houseman, braço direito de Welles no Mercury Theater. Morreu em 1953, aos 55 anos. Gary Oldman o encarna no filme de Fincher. Quem faz Welles é o também britânico Tom Burke, salvo engano o sexto ator a interpretar na tela o cineasta, já vivido até por um brasileiro, Arrigo Barnabé, em Nem Tudo é Verdade, de Rogério Sganzerla.

Pelos dados até agora disponibilizados pela produção de Mank, sabe-se que Amanda Seyfried faz o papel da atriz Marion Davis, amante de William Randolph Hearst, o magnata que serviu de modelo a Charles Foster Kane, mas nenhuma informação sobre o intérprete de Hearst vazou para a imprensa. As figuras de Chaplin, Sternberg e Norma Shearer também fazem aparições de destaque no filme, mas não vi qualquer referência a Houseman. Sem Houseman, a história da polêmica sobre a autoria do roteiro de Kane fica meio capenga, pois ele, além de vigiar Mank e intermediar sua relação com Welles, deu ideias para o filme, aceitas pelo cineasta. 

A polêmica, saliente-se, é mais velha que o próprio filme. Nove meses antes do lançamento de Kane, em maio de 1941, a colunista de fofocas hollywoodianas Louella Parsons – a mesma que moveria feroz campanha difamatória contra o filme para bajular Hearst, seu patrão numa poderosa cadeia de jornais – divulgou uma declaração de Welles sobre o roteiro, sem mencionar o nome do parceiro. Mank ficou uma cacatua e estrilou; mas, já tendo embolsado US$ 22.833,35 pela coautoria, aliás proposta por Welles, pôs o galho dentro. 

Trinta anos depois, a recidiva: convidada a prefaciar a edição em livro do roteiro de Kane, a legendária crítica da revista The New Yorker, Pauline Kael, ressuscitaria a controvérsia, tomando as dores de Mank. O ensaio pode ser lido em Criando Kane, traduzido pela Record. Espero que Jack Fincher, o finado pai de David, autor do roteiro de Mank, tenha se abastecido mais das histórias dos bastidores de Kane recolhidas por Robert L. Carrington (The Making of Citizen Kane, University of California Press, 1985) do que do texto tendencioso de Kael.

Sua tese de que as sacadas mais brilhantes de Kane saíram da cabeça de Mank é inteiramente furada. Para início de conversa, o filme não adquiriu notoriedade por sua urdidura dramática nem seus diálogos, mas pelo virtuosismo da mise-en- scène de Welles, visualmente deslumbrante e com notável influência da sonoridade radiofônica trazida pelo cineasta de sua experiência no Mercury Theater On the Air. 

Encontraram entre os guardados de Houseman uma troca de cartas dando conta da insatisfação de Mank com a ênfase que Welles dava ao visual, em detrimento de seus diálogos. Essa revelação não engorda a tese de Kael.

Carrington leu todos os tratamentos submetidos por Mank. Se não fosse Welles, incontrastável autor da concepção e da estrutura do filme, Kane teria sucumbido a uma quantidade ponderável de cenas mal alinhavadas, supérfluas e enfadonhas, concluiu Carrington. 

Se Mankiewicz já dramatizara a vida da líder religiosa Aime Semple McPherson e do gângster John Dillinger à base de flashbacks, em roteiros que não chegaram a ser filmados, Welles já utilizara similar artifício para contar a vida do armamentista Basil Zaharoff numa de suas peças radiofônicas. Detalhe: o bilionário Zaharoff também morria cercado apenas de sua criadagem num castelo de Monte Carlo, também comprado para uma velha amante. Antes de dar seu último suspiro, o personagem pedia para ser levado até uma roseira (“rosebush” em inglês). 

Embora tivesse reconhecido por escrito a importância de Mank na preparação do roteiro, Welles considerava bem maior sua dívida com o diretor de fotografia Gregg Toland, cujo nome fez questão de pôr ao lado do seu, nos créditos finais do filme. Sem Mank, Welles teria feito Kane quase igual ao que conhecemos. Sem o know how, a paciência e o gênio de Toland, tenho minhas dúvidas. 

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