Tusquets Editora
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David Trueba defende contemplação do mundo real em seu novo livro

'Blitz' mostra que a sincronia entre agitação e potência não passa de ilusão na maior parte das vezes

José Castello*, Colaboração para o Estado

30 Setembro 2017 | 16h00

Em tempos de alta velocidade, a agitação costuma ser confundida com produção. Produção de sentido, de riquezas, de bem estar. Blitz, o novo romance do espanhol David Trueba, mostra que essa sincronia entre agitação e potência não passa, na maioria das vezes, de uma ilusão. A agitação contemporânea tem sido, na verdade, uma camuflagem para o vazio. Para o tédio. Com ela, temos a impressão de que usufruímos e de que até controlamos o tempo, quando se dá bem o contrário.

Beto Sanz, o protagonista de Blitz, é um paisagista de Madrid que viaja a Munique para apresentar um trabalho em um congresso internacional. Seu projeto se chama “Jardim dos Três Minutos”. “A ideia do jardim era ensinar o valor preciso de três minutos, mostrar o que os três minutos representavam”. Contra os que se consolam com a ficção e o sonho, Beto faz uma defesa veemente do momento real. “Precisamos voltar a olhar para o mundo real, não embarcar na ficção, nem criar fantasias, nem continuar como fugitivos.” Apegar-se ao presente, às coisas que são, sem o adorno, ou o consolo do que não existe. 

O projeto que Beto apresenta em Munique sugere um jardim de ampulhetas, “para ver o tempo passar”. Que nos ajude a aceitar o tempo, e sua passagem rápida, com seu roldão de transformações. Naquele mesmo momento, contudo, Beto se separa de sua amada, Marta. Na verdade, ela o abandona, para voltar a um antigo amor, um cantor uruguaio – sinal de que o tempo dá voltas sobre si mesmo, se enrosca; por mais que tentemos empurrá-lo para frente, está sempre a se repetir.

Sozinho, e ainda preso à armadilha das horas, Beto Sanz, um rapaz de trinta anos, se envolve com Helga, uma mulher que já passou dos sessenta. Entre o erótico e a repulsa, o caso entre eles avança. Beto aproveita o ombro de Helga para se lamentar de sua sorte, mas agora é ela quem o traz de volta ao real: “Tudo acabar mal é a condição inerente ao fato de estarmos vivos”, lhe diz. Fazem um sexo lento e desajeitado, preso à distância dos anos, em que o elemento dominante é o vazio, que nenhum dos dois consegue preencher. Ao nos conectar com a realidade, a lentidão cobra esse duro preço: ela nos mostra que a vida é, antes de tudo, frustração, impedimento, derrota. Nos braços um do outro, eles descobrem que o sexo pode ser vivido como infelicidade.

“Tentei voltar a dormir, afundado em tristeza, deprimido, arrasado, esvaziado”, medita Beto. Após o sexo ofegante, mais uma vez tudo o que sobra é a ausência. Descobre, então, que o sexo feito às pressas não passa de “uma máquina de fabricar desprezo”. Ele nada mais é que um relâmpago – “blitz” em alemão, como anuncia o título do romance de Trueba. A felicidade, então, se assemelha a Vulcano, o planeta invisível que, durante longo tempo, os cientistas acreditavam existir entre Mercúrio e o Sol; astro imaginário que a Teoria da Relatividade, de Einstein, enfim desmentiu. Diante do inexistente, resta a Beto a resignação: a submissão à vontade sempre queixosa do destino. Resta a inércia. 

O sentimento de paralisia o coloca diante de uma questão já enfrentada pelo paisagista japonês Tatsuo Nashimira, seu grande mestre, que planejou um jardim para um asilo de idosos com Alzheimer. “Como fazer um jardim para quem se esqueceu de tudo?” Para Tetsuo, o sentido da vida é “viver seguindo o sentido da vida”. A memória, a história, o passado, de nada nos servem. A vida não passa, portanto, de uma serpente que se enrosca sobre si mesma. Voltamos sempre ao mesmo ponto – o que é mais uma prova da inutilidade da agitação e, em consequência, do futuro. Ainda assim, mesmo tenso e ilusório, o relógio de areia avança; o tempo passa e a decadência enfim se impõe. Medita Beto: é preciso, então, aceitar que a vida – como o ano – é feita de quatro estações. Vivê-las uma a uma. Entregar-se à passagem das horas, sem lutar contra isso.

Deve, enfim, enfrentar o nada, representado pela morte precoce do pai. “Como minha mãe, eu também era parte de um casal acorrentado pela ausência”. Avançamos, agitamos, a areia escorre no interior da ampulheta, mas o vazio não se preenche e, ao fim, é o nada que persiste e se impõe. Resta a Beto, talvez, cultivar o desapego – e é agarrado a essa ideia que decide se mudar para Barcelona para recomeçar. Viver cada gota do tempo; provar cada grão de areia como se fosse o último; gozar o presente imperfeito e sem promessas, eis o que é, enfim, viver. Tirar alguma coisa da estagnação em que estamos inevitavelmente retidos. Acreditar que, mesmo ali, no vazio insuportável, contemplando uma paisagem branca, a vida ainda é bela.

*José Castello é jornalista, mestre em comunicação pela UFRJ e escritor, autor de 'Ribamar' (Bertrand Brasil) 

Blitz

Autor: David Trueba

Tradução: Miguel del Castillo

Editora: Tusquets

176 páginas

R$ 34,90

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Literatura

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