ALEXEI DRUZHININ/REUTERS
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De Bric a broken

Ecos da Guerra Fria, lambuzados de petróleo em queda livre, ameaçam a economia russa

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00

Não diga “agora posso morrer em paz” só porque testemunhou os três mais improváveis acontecimentos dos últimos 70 anos. Pois vem mais um aí. Depois da queda do Muro de Berlim, do 11 de Setembro e do reatamento de relações entre os Estados Unidos e Cuba, finalmente teremos a 3ª Guerra Mundial. 

Que, naturalmente, não será como as anteriores. 

O império soviético ruiu em 1989, mas o império russo permanece de pé e é grande o interesse em sufocá-lo. Há dois meses, Thomas L. Friedman perguntou, em sua coluna no New York Times, se era só impressão dele ou uma guerra global envolvendo o petróleo estaria rolando, com os Estados Unidos e a Arábia Saudita de um lado e a Rússia e o Irã, do outro, objetivando a queda de Vladimir Putin e do aiatolá Ali Khamenei? Em julho, o historiador Eric Zuesse fora mais longe, anunciando um choque inevitável e iminente entre os Estados Unidos e a Rússia. 

Para o historiador (e não é o único a pensar assim), a Guerra Fria nunca acabou porque as elites americanas ainda consideram a Rússia uma ameaça ao controle geopolítico e econômico do mundo pelos Estados Unidos. A principal (ou única) ameaça, diga-se. A menos que a Rússia deixe de ser a segunda maior potência militar do planeta - e entre em franca e irreversível decadência.

Zuesse acredita numa guerra pra valer. Ainda que 98% do Congresso americano (e 100% do Senado!) a favoreçam, uma pesquisa mais ou menos recente mostrou que 67% dos americanos são contrários a qualquer agressão militar à Rússia. Intervenções periféricas, tudo bem. Zuesse considerava a situação de cinco meses atrás, com o bedelho de Washington na Ucrânia, mais preocupante, porque mais explosiva, que a da crise dos mísseis soviéticos, aquela que consolidou o bloqueio dos Estados Unidos a Cuba. 

É tentador comparar a situação da Ucrânia em 2014 com a de Cuba em 1962. Se os russos não tinham por que instalar ogivas nucleares a 145 km da Flórida, os americanos não tinham por que se meter na derrubada de um presidente legitimamente eleito num país encostado na Rússia. Nas duas oportunidades, os americanos levaram a melhor. John Kennedy fez Kruchev arrepiar carreira e Obama pirou Vladimir Putin, e ainda premiou o novo governo ucraniano com US$ 450 milhões.

Os ucranianos são esquisitos. Divididos ideologicamente durante a 2ª Guerra Mundial, até hoje simpatizantes do nazismo circulam lépidos e fagueiros pelas ruas de Kiev. Os ucranianos elegeram Viktor Yanukovich com mais de 80% dos votos, mas só 49% da população se dizia favorável a sua volta ao poder dois meses depois de cassado pelo Parlamento, às pressas e sem o quórum exigido pela Constituição. 

Na corrida presidencial americana de 2012, Obama criticou Mitt Romney por ele insistir que a Rússia é “o principal inimigo geopolítico dos Estados Unidos”. Que me lembre, Obama não tocou mais no assunto. Romney estava certo, proclamou em setembro a liberal The New Republic, ligando o réchaud da Guerra Fria. Obama não verbaliza, mas concorda com essa tese. Não é apenas no quesito charme e simpatia que ele ganha do rival russo. Se Putin pegou de volta a Crimeia (doada à Ucrânia por Kruchev, em 1954), Obama invadiu a Líbia e a Síria, reinvadiu o Afeganistão e o Iraque e patrocinou a derrubada de Yanukovich, o que já é muito para um Nobel da Paz, sem contar as torturas da CIA e o gulag de Guantánamo. 

Com quatro países produtores de petróleo -Iraque, Líbia, Síria e Nigéria - pegando fogo e o Irã encurralado por sanções econômicas, o normal seria uma alta estúpida do preço do barril. Deu-se justamente o contrário: o barril que meses atrás custava US$ 100 já caiu abaixo de US$ 70, comprometendo as economias de países que dependem da exportação de petróleo, sem exclusão, é claro, do Brasil, encalacrado em dobro pelo escândalo da Petrobrás. 

Simples: a Arábia Saudita, de combinação com os Estados Unidos e demais aliados, não reduziu sua extração e produção, entupindo o mercado de petróleo e derivados, o que fez os preços despencarem. Era a arma mais eficaz de que os sauditas dispunham e dispõem para se vingar de Putin por sua preferência pelos sunitas, por seu apoio ao governo iraniano e ao regime do sírio Bashar Assad. Os sauditas receiam o predomínio religioso, geopolítico e petrolífero do Irã na região tanto quanto os americanos. 

O mundo assiste a um videotape. Também foi simbolicamente afogada no ouro negro que a União Soviética tubulou no final do século passado. Quatro anos antes de ruir o Muro de Berlim e a Rússia perder o controle de seus Estados-Satélites, o império soviético teve a morte decretada “por ordem” do xeque Ahmed Zaki Yamami, ministro do petróleo da Arábia Saudita. Em 13 de setembro de 1985, Yamami alterou radicalmente a política energética do país, descongelando o preço do barril (de US$ 32 chegou a US$ 10) e quintuplicando a produção de petróleo nos seis meses seguintes. Nessa, a União Soviética, que chegou a vender seus barris na bacia das almas por US$ 6, acumulou um prejuízo anual de US$ 20 bilhões e, sem condições de quitar suas dívidas com bancos estrangeiros, agravadas pelo custo de uma guerra suicida com o Afeganistão que se arrastou por uma década, foi à bancarrota. 

Com o barril abaixo de US$ 70, a Rússia perderá US$ 40 bilhões no segundo semestre deste ano. O rublo já caiu 23% e US$ 128 bilhões de capital volátil se volatizaram nas últimas semanas. Sem grana e à beira da recessão, a Rússia de Putin pode até deixar de ser Bric, para uma vez mais virar Broke.

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