De como o presidente tece a eleição de si mesmo

Fazer do próximo pleito um plebiscito visa à volta em 2014, diz cientista político

Francisco C. Weffort*, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2010 | 01h21

Muitos simpatizantes da oposição pedem que a candidatura Serra se declare desde já, publicamente. Ou seja, que se inicie logo a campanha eleitoral. Há mesmo quem entenda que Serra deveria ter-se manifestado candidato ontem ou antes. É uma ansiedade compreensível de quem quer ver a luz no fim deste túnel eleitoral tipicamente brasileiro, em que, à margem da lei, só o governo federal aparece em campanha (ou pré-campanha, como se queira). Mas não seria mais razoável, como quer o próprio Serra, esperar pelos prazos da lei, das convenções partidárias, e, mais ainda, da racionalidade política?

Pode parecer um paradoxo, mas creio que a ansiedade maior em face das eleições é do próprio Lula. Em recente reunião ministerial ele voltou a falar em plebiscito. Tudo em Lula transpira ansiedade. Como me disse certa vez um velho companheiro seu de sindicalismo, ele é uma espécie de "Kid Microfone" da política. Fala de tudo e, consideradas suas origens sociais, talvez isso tenha sido uma qualidade para que chegasse a líder num país tão desigual socialmente quanto o nosso. Mas desde que chegou ao governo, ele passou do ponto. "Nunca antes neste país" um presidente falou tanto, em todas as oportunidades possíveis. Falou ? e continua falando ? sobretudo, dele mesmo, o "torneiro mecânico", o "sem títulos universitários", o "filho de mãe analfabeta", o "iluminado", o "cara", etc. "Quem sou eu, quem és tu", o fascínio do Lula é sua própria identidade.

Colocando-se sempre ao lado dos anjos, prometeu e promete tudo, como a "ética na política", que desrespeitou, os "milhões de empregos", que não cumpriu, a "aceleração do crescimento", que continua medíocre como antes. No início do seu governo chegou mesmo a propor um "projeto fome zero" para o mundo (!), que, como tantos outros, abandonou. Do mundo real, o que mais lhe agrada é viajar para conversar com o direitista Sarcozy, o fascista Ahmadinejad, o neofascista Hugo Chávez e, se possível, com o liberal americano Barack Obama. Lula não se limita a programas ou a ideias. Bem pensadas as coisas, o essencial da política de Lula é ele mesmo.

Dessa overdose de lulismo nasceu a "estratégia" do plebiscito para a eleição de 2010. É como se essa não fosse mais do que uma espécie de prévia para 2014, quando ele espera voltar "nos braços do povo". É esse o seu "projeto". Daí a escolha de Dilma Rousseff como candidata, quando teria certamente, no PT ou na "base aliada", muitos nomes melhores do ponto de vista político e eleitoral. Daí também a maior dificuldade de Dilma que, como sugerem as pesquisas, não consegue ir além do eleitor lulista-petista mais incondicional. Deveria estar evidente, a estas alturas, que Dilma não tem luz própria. E é difícil imaginar que na campanha possa vir a ter alguma luz quando o que se vê hoje é uma candidata afogada no mar de significações que seu patrono difunde para alimentar a ilusão do próprio carisma.

Na pressa de quem sente o governo terminando, Lula quer provar que pode tudo, inclusive eleger um poste. Aos que criticam a fragilidade de Dilma, insinua às vezes que vai tirar licença do governo e engajar-se pessoalmente na campanha. Pode ser essa a sua intenção hoje, mas não creio que aconteça. Primeiro, porque mesmo Lula é capaz de perceber que sua presença vai criar uma inibição para Dilma, ao invés de ajudá-la. Segundo, porque ele sabe ? melhor do que ninguém ? que assim que começar a sair do governo, começará a sair também do controle da "máquina", desbaratando controles previamente existentes sobre a sua "base".

O mais provável é que fique no governo e tente usá-lo, tanto quanto possível, em favor de sua candidata. No mais, terá sempre os álibis que já ocorreram a outros presidentes no passado. Se ela vencer, a vitória é dele, se perder, a derrota é dela. E, convenhamos, para Dilma, que nunca teve nenhuma significação própria em política, mesmo uma derrota será sempre uma vitória. Assim, ela vai "para o sacrifício" docemente constrangida. O senador Sérgio Guerra enfatizou em entrevista recente que Dilma teria uma propensão para a mentira. Há algum tempo, um jornalista sugeriu que seria ela própria uma mentira. Talvez. De minha parte, estou convencido de que ela é puro marketing, o produto mais completo da marquetagem desses dois governos Lula.

Tudo somado, a crítica que me ocorre à oposição não é a José Serra, que aguarda o momento certo para aparecer publicamente como candidato, mas a seu partido, que tem deixado passar mais de uma oportunidade para marcar suas posições no cenário. É certo que alguns líderes se mobilizam com mais frequência, como Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati, Sérgio Guerra e uns poucos mais. Aécio Neves tem feito declarações interessantes para se construir uma perspectiva política de oposição visando à campanha eleitoral. O partido, porém, parece lento demais, sem suficiente articulação para apresentar as próprias ideias ao público. Nesse sentido, as aspirações da oposição no País crescem mais como resposta ao cansaço suscitado na opinião pública pelos excessos verborrágicos de Lula ? e às lambanças, aliás muito frequentes, do próprio governo ? do que como resultado de ações partidárias.

*Cientista político, foi secretário-geral do PT e, mais tarde, ministro da Cultura no governo FHC

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