De como o torneiro chegou lá

Breve e competente antologia dos cordéis, que exaltam as qualidades e esquecem os defeitos de Lula

Raimundo Carrero*, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2008 | 23h15

Embora as musas estejam em decadência, ou mortas, são ainda freqüentemente invocadas pelos escritores de folhetos de cordel para exaltar políticos, heróis ou santos brasileiros, às vezes nem tanto heróis nem tanto santos, mas quase sempre políticos, que ninguém é de ferro. Assim é possível encontrar Lampião em luta com satanás, prostituta conversando mansa com São Pedro na porta do céu, tentando convencê-lo a lhe dar passagem, político pedindo proteção divina. A verdade é que no Nordeste nunca falta imaginação nas feiras, nos botecos, ou nas gráficas onde são impressos os folhetos. Cantiga, pecado e viola.Folhetos, aliás, que enfrentam todo tipo de modernidade, pós-modernidade ou atraso de vida. O certo é que resistem até mesmo à informática, embora existam experiências na internet, com direito a sites, blogs e e-mails. Mas folheto que se preza tem que ser impresso em gráficas a vapor quente, com tipos feitos em marmeleiros, e capas com artistas de cinema, com um coração ferido de flechas. Por isso mesmo começo com uma invocação para evitar males, feitiçarias e julgamentos: "Vou contar uma história, de grande repercussão, vocês vão se admirar, sem saber qual a razão, depois que for explicada, vão sentir motivação". Só para imitar, expressamente, imitar um dos poetas da antologia, lembrando o folheto A Saga do Torneiro-mecânico que se Tornou Presidente, de Graziela Costa Fonseca. Mesmo que a musa não ajude, recorro a ela, nas fímbrias do além, para tratar de Lula na Literatura de Cordel, de Cipriniano Neto, uma breve e competente antologia dos folhetos que exaltam as qualidades - e esquecem os defeitos - do atual presidente, nascido em Pernambuco e criado em São Paulo, entre imigrantes e sindicalistas, para honra e glória dos nordestinos.Um livro que é uma novidade, sem dúvida, mas não o assunto: os poderosos têm sido tratados com distinção, às vezes com críticas e acusações pelos autores de folheto. Somente Getúlio Vargas tem mais de cem livrinhos, sem contar os ditadores João Figueiredo e Ernesto Geisel, conforme farta documentação apresentada no volume, com capas, versos e estrofes. Cipriano, aliás, tem como musa inspiradora o livro A História do Brasil em Cordel, do norte-americano Mark Curran, do tempo em que falar do Brasil dava mochila e dinheiro. Agora eles desapareceram. Correram para o Oriente Médio.No entanto, não se pode deixar de reconhecer que Cipriniano Neto é um especialista, domina à vontade o assunto, controla os impulsos narrativos, sustenta rimas e prosas, oferece provas e documentação, mesmo se excedendo nos elogios ao presidente da República. Não é por acaso que joga essa pérola antológica: "O sofrimento de Lula, aspecto típico dos heróis do povo, seja na Literatura de Cordel, seja no cinema americano, pois ?não há glória sem sacrifício?, é um tema recorrente em todos os folhetos sobre o presidente". Lula estaria, então, mais para político, herói ou santo? Juntando os três, parece pouco com cada um. O autor, que revela uma aguda consciência política, se esforça em oferecer uma revisão crítica, mas não vai muito longe, porque os assuntos mais fortes e dolorosos desaparecem por completo, quase sempre naquilo em que se destacaria o tema da corrupção. Não de Lula, é claro. Não é isso que se quer dizer. Mas do ambiente político. Desse, aliás, recorrente assunto político, que corrói e atormenta o povo brasileiro. No texto de abertura, o autor adverte numa breve contradição: "Mesmo não tendo uma militância política e um comprometimento ideológico, a maioria dos poetas falam bem e mal dos presidentes, especialmente daqueles que se tornam mais populares. Getúlio e Tancredo parecem exceções, com um posicionamento quase só a favor". Pelo óbvio: Getúlio porque era ditador e Tancredo porque morreu. Mas lembra, sobretudo, que com a "retomada da luta sindical contra os pelegos que dominavam os sindicatos a serviço dos patrões e da ditadura militar e a volta do movimento estudantil, começou a surgir uma forte linha de Literatura de Cordel a serviço das lutas populares". A linguagem é virulenta, sem dúvida movida a martelo e viola, cabeça inchada e festa do interior, conforme o tom da feira ou do mercado. Ele mesmo autor do folheto que chama de Meu Martelo, admirado pelo próprio Lula, conforme afirma, porque animava as grandes greves do ABC paulista, ao lado de Pra não Dizer que não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, e da Internacional Comunista. Num caçuá só entravam São Paulo, Nordeste e Cortina de Ferro. Modesto e eufórico, acrescenta: "O Meu Martelo é um desafio vertical, de classe, revolucionário". Um pouco de verve e graça pega bem, companheiro.O mais curioso, porém, fica por conta de uma constatação intelectual e erudita, mistura de discurso panfletário e crítica de idéias: ele identifica, por exemplo, uma "Escola de Mossoró", no Rio Grande do Norte, na qual "os poetas foram se engajando na criação do PT e a Literatura de Cordel passou a fazer parte da luta popular, como um forte instrumento de conscientização política". Critica o Paracordel, com folhetos escritos por intelectuais imitando poetas populares, sobretudo nas campanhas políticas. E o Neocordel, que passa também por esse viés, mas ressalta que "isso não existe a não ser como farsa, embuste, mistificação. Literatura de Cordel tem regras, tem uma poética". Isso é verdade pura. Trabalhado na linhagem da epopéia e do poema clássico. Com musa, talento e tudo.Cipriano Neto sabe das coisas. Com certeza. Não faltam verso, viola e sabedoria. Mas um pouco de pimenta e cachaça, numa rede de franjas longas, não faz mal a ninguém. Não é isso, companheiro? *Raimundo Carrero é jornalista e escritor - autor, entre outros, de O Amor não Tem Bons Sentimentos (Iluminuras)

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