De como virar a casaca canarinha

Aqui, uma lista de seleções para torcer, já que a do Brasil virou a Meryl Streep da bola: pura técnica, sedução zero

Sérgio Augusto

12 de junho de 2010 | 14h42

Qualquer um, menos o Brasil.

 

Aspas, por favor, que a frase não é minha, é do jornalista e escritor Alex Massie. Ela não é a expressão individual de um irlandês excêntrico, mas a síntese de um anseio coletivo por um tropeço da seleção brasileira na Copa da África. Continuamos, como sempre, entre os favoritos; absolutos, faz tempo que não.

 

Desprovido dos encantos únicos que outrora enfeitiçaram o mundo inteiro, o esquadrão de ouro acabou à mercê do fator Golias. Se ainda estivesse jogando o mágico futebol que lhe deu fama e títulos, suas cinco Copas seriam um fardo negligenciável, um motivo de ressentimento praticamente exclusivo dos concorrentes diretos, daqueles que, até hoje, conquistaram quatro ou três Copas - mais, é claro, os argentinos, que embora só duas vezes campeões, são nossos mais renitentes rivais. Torcer pelo Brasil no futebol é como torcer pelos Estados Unidos na World Series, o Mundial do beisebol: não tem graça alguma, e agora menos ainda, argumenta Massie, decepcionado com o pragmatismo burocrático da era Dunga, "um híbrido dos eficientes, mas enfadonhos estilos de jogo de italianos e alemães".

 

Viramos a Meryl Streep da bola: pura técnica, sedução zero. Por isso, Massie resolveu torcer, desta vez, pela Espanha, que além de eficiente parece às vezes jogar por música. E, appeal subsidiário, nunca foi campeã mundial.

 

E como ficam os brasileiros que, fazendo coro com o dr. Johnson, consideram o patriotismo o último refúgio dos canalhas e se recusam a ver premiado o jeito Dunga de ser, jogar bola e relativizar a escravidão?

 

Há mais brasileiros do que se imagina ameaçando torcer por outra seleção nesta Copa, caso o pior aconteça. O pior, para esses, não seria a desclassificação do Brasil, hipótese inimaginável na primeira fase do torneio, mas a classificação inconvincente, a performance desanimadora, a consagração do demérito. Afinal de contas, raciocinam, temos uma reputação a zelar, não podemos compactuar com a mediocrização de nossa arte maior, com a negação do nosso glorioso passado. Se alguma equipe estrangeira repetir a atuação da brasileira em 1958, 1962 e 1970, por que não assumir uma postura olímpica e torcer por seu merecido triunfo?

 

É difícil. Mas nós estaríamos dando uma tremenda prova de maturidade. E, sobretudo, de desprendimento, se o "Brasil" desta Copa for a desacreditada equipe de Maradona.

 

Já perdemos o complexo de vira-lata, mas ainda falta assumir uma altivez mais condizente com nossa atual condição de galgo nos rankings da Fifa e do FMI. Das sete maiores economias mundiais, só Brasil e Alemanha figuram também entre as sete maiores potências do futebol, com o Brasil em primeiro lugar e a Alemanha em sexto. Podemos nos permitir o luxo da generosidade, do noblesse oblige.

 

A globalização dos esportes em geral, e do futebol em particular, facilitou bastante as coisas, criando seleções algo apátridas, formadas por atletas que há anos atuam (ou sempre atuaram, caso, por exemplo de sete ou oito jogadores africanos) no exterior, sem vínculos afetivos com os torcedores de seus respectivos países de origem. Nossa crescente convivência com os campeonatos europeus acabou beneficiando mais os grandes clubes italianos, espanhóis e britânicos, que passaram a contar com fiéis torcedores por estas bandas, fenômeno impensável 30, 20 anos atrás, do que os jogadores brasileiros que neles atuam.

 

Como sempre entramos nas Copas como favoritos ou um dos favoritos, não sabemos como transferir nossa afeição de torcedor para outras seleções, que critérios de escolha adotar. Só enfrentamos esse dilema uma vez, no auge do regime militar. Por temer que a conquista do tricampeonato levasse água ao moinho da ditadura, houve quem tentasse (e mesmo pregasse a necessidade de se) torcer contra o Brasil na Copa de 1970. Nossa seleção, porém, era tão maravilhosa, merecia tanto levar o caneco, que até os mais intransigentes dos inimigos do regime se renderam ao primado da meritocracia e se juntaram aos "90 milhões em ação".

 

De modo geral, na escolha de uma seleção alternativa, os países periféricos que conseguiram entrar no torneio levam alguma vantagem, com prioridade para aqueles mais amofinados por problemas sociais, econômicos, ou que muito penaram na fase classificatória. Mas logo são descartados porque raramente passam da primeira fase, deixando órfãos seus simpatizantes de última hora. Os africanos, a Sérvia, a Eslovênia e a Grécia se encaixam nessa categoria. Perda de tempo e adrenalina torcer por qualquer uma dessas seleções.

 

Ganha-se tempo suprimindo de cara os times representantes de regimes autoritários, o que exclui in limine a Coreia do Norte. As equipes comandadas por técnicos ditatoriais, antipáticos e ranzinzas também são fortes candidatas a um kaput prévio. É nessa categoria que entrariam os dois prováveis classificados do Grupo G, Brasil e Portugal, e o virtual primeiro colocado do Grupo B, a Argentina. No outro extremo, temos a Holanda, cujo técnico, Bert Van Marwijk, é uma simpatia, além de ser bastante competente.

 

Eis uma boa alternativa, a Holanda. Perdeu injustamente as Copas de 1974 e 1978, revolucionou o futebol, certamente será mais lembrada daqui a cem anos pelo que fez com Cruyff em campo do que a seleção brasileira no Mundial de 1994, e não veio a passeio à África do Sul.

 

A Espanha, contudo, chegou a Nelspruit como a favorita de todos aqueles que se desiludiram com o atual futebol brasileiro, detestam Maradona (e até acham que ele prejudica o rendimento do Messi), pouco confiam na determinação dos holandeses e se extasiam com a orquestra regida por Iniesta. O problema é que, na hora H, os espanhóis costumam entregar a rapadura. Nem no Mundial de 1982, disputado na Espanha, eles se impuseram.

 

Nós também perdemos em casa, em 1950, mas nos recuperamos amplamente nas décadas seguintes, e, malgrado Dunga ou por conta dele, corremos o risco de emplacar o hexa.

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