Cláudia Trevisan/Estadão
Cláudia Trevisan/Estadão

De jeans no reino dos Kins

Desde 1993, diretor britânico leva turistas à hermética Coreia do Norte, uma relíquia da Guerra Fria

Cláudia Trevisan /PEQUIM,

25 de maio de 2013 | 17h24

O primeiro encontro do inglês Nick Bonner com a Coreia do Norte ocorreu em 1993, durante uma partida de futebol em Pequim. Entre os expatriados que se reuniam para jogar bola na capital chinesa estava um funcionário do governo de Pyongyang, que semanas mais tarde sugeriu ao britânico levar um grupo de estrangeiros a seu hermético país.

A Coreia do Norte havia se aberto ao turismo em 1987, mas o fluxo de visitantes estava aquém do esperado pelas autoridades locais. Bonner estudava paisagismo em Leeds e tinha uma passagem de volta para a Inglaterra.

A proposta o faria abandonar sua carreira, prolongar a permanência na China até hoje e fundar a mais bem-sucedida agência de turismo especializada em apresentar a ocidentais o país que muitos nem acreditam ser possível visitar.

O encontro com a Coreia do Norte também o transformou em produtor e diretor cinematográfico, com um currículo de quatro filmes realizados desde 2002. O mais recente é Comrade Kim Goes Flying (Camarada Kim vai voar), uma coprodução norte-coreana, britânica e belga exibida pela primeira vez em setembro, no Festival Internacional de Cinema de Toronto.

A protagonista do filme é Kim Yong Mi, operária de uma mina de carvão que aos 28 anos decide perseguir o sonho de se tornar trapezista de circo. Segundo Bonner, é a primeira obra cinematográfica do país sem um explícito caráter de propaganda política.

“É uma comédia romântica sobre uma mulher e suas aspirações individuais”, observa o britânico no escritório da Koryo Tours em Pequim, onde trabalha rodeado de sua coleção de pôsteres e obras de arte norte-coreanas.

Não é pouco para um país no qual a doutrinação política permeia a vida cotidiana e o coletivismo esmaga a diversidade e a expressão pessoal.

Os mecanismos de submissão do indivíduo no regime totalitário foram retratados no documentário A State of Mind, de 2004, produzido por Bonner e dirigido pelo também britânico Daniel Gordon.

A obra mostra o dia a dia de duas ginastas adolescentes e suas famílias no período de oito meses de preparação para os Jogos de Massa, um megaespetáculo de estética socialista no qual 100 mil pessoas realizam movimentos sincronizados e criam mosaicos imensos com o uso de painéis coloridos.

O espetáculo é o maior do gênero em todo o mundo e tem um caráter de educação ideológica tanto para os artistas quanto para o público norte-coreano. “Para os participantes, os Jogos de Massa reforçam a submissão ao grupo. Para a audiência, ressaltam os valores do trabalho em equipe e as glórias do Estado e de seus líderes”, diz o narrador do documentário. O indivíduo sabe que o menor erro vai comprometer a atuação de todos e que ele, sozinho, não terá impacto no imenso estádio em que as performances se realizam.

As apresentações se repetem todos os anos entre os meses de julho e setembro e são uma das principais atrações para os turistas estrangeiros na Coreia do Norte. Os que veem os Jogos de Massa saem maravilhados com a perfeição e as dimensões do espetáculo, que dificilmente seriam alcançados em outro país.

Como quase todas as manifestações artísticas norte-coreanas, a temática é ideológica e gira em torno da exaltação do regime e da família que está no poder desde 1948, em uma dinastia iniciada por Kim Il-sung (1912–1994) e continuada por seu filho, Kim Jong-il (1941–2011), e o neto, Kim Jong-un, no comando desde fins de 2011.

A equipe que realizou A State of Mind conseguiu acesso sem precedentes ao cotidiano da Coreia do Norte e realizou uma obra que revela traços fundamentais do país: a idolatria quase religiosa aos líderes, o feroz antiamericanismo e a máquina de doutrinação ideológica que garante a sobrevivência do regime, apesar de seu crescente isolamento internacional.

O culto à personalidade dos Kins integra o roteiro dos pacotes turísticos, que incluem visitas às estátuas de 20 metros de altura de Kim Il-sung e Kim Jong-il e ao mausoléu onde estão os corpos embalsamados de ambos. Os visitantes são orientados a se curvar e fazer as mesmas reverências executadas nos locais pelos norte-coreanos, em sinal de respeito. “É como usar véu durante a visita a uma mesquita”, justifica Hannah Barraclough, diretora de projetos culturais da Koryo Tours, que quase todos os meses acompanha visitantes ao país.

Os turistas que vão à Coreia do Norte são escoltados o tempo todo por dois guias e não podem sair desacompanhados do hotel. Há regras estritas sobre o que pode ser fotografado, e seu descumprimento pode pôr os guias em situação delicada.

As estátuas de Kim Il-sung e Kim Jong-il só podem ser fotografadas por inteiro – ainda que a tecnologia permita cortes posteriores. Também são vetadas fotos de soldados, pobreza e close-ups de rostos sem expresso consentimento. Lentes de alcance superior a 150 mm devem ser deixadas em casa.

Mascar chiclete, comer e usar roupas velhas ou sujas nos locais relacionados aos líderes são vistos como gestos desrespeitosos.

Interessados que considerem essas restrições inaceitáveis devem desistir da viagem, aconselha a Koryo Tours. O preço pode ser outra barreira para os visitantes estrangeiros. O pacote de três noites custa 1.190 (R$ 3.100), o que inclui passagem aérea a partir de Pequim e despesas com hotel, alimentação e transporte na Coreia do Norte.

Desde 1993, Bonner viajou quase todos os meses para o país, uma relíquia da Guerra Fria onde a população não tem acesso à internet e vive em estado de permanente mobilização contra a suposta ameaça de invasão externa comandada pelos Estados Unidos.

Ao longo desses 20 anos, houve poucas transformações perceptíveis no cenário urbano. A capital, Pyongyang, experimentou um surto de construções no período que antecedeu o centenário de Kim Il-sung, em abril de 2012, mas ainda assim continua “tão reconhecível” como em 1993, diz o britânico.

Em sua opinião, as alterações na mentalidade dos norte-coreanos também foram sutis, embora “evidentes”. Telefones celulares são cada vez visíveis e o número de estrangeiros que vão ao país cresce a cada ano.

A situação geopolítica e a retórica belicosa no relacionamento com o mundo exterior, no entanto, não se alteraram. A narrativa sobre o ano de 2003 que abre o documentário A State of Mind poderia ser reprisada em 2013: o regime da Coreia do Norte era alvo de uma onda de críticas em razão de seu programa nuclear e usava a ameaça internacional como catalisador da unidade interna.

A despeito do isolamento, o país atrai um número crescente de visitantes, no que a agência britânica Lupine Travel batizou de “turismo geopolítico de aventura”. Em 2012, cerca de 5 mil ocidentais e 15 mil chineses estiveram na Coreia do Norte, estima Bonner.

Adversários do país na Guerra da Coreia, encerrada em 1953, os “imperialistas” norte-americanos integram a maior fatia de visitantes ocidentais, com pouco mais de 20% do total, seguidos dos britânicos.

A participação de brasileiros entre os clientes da Koryo Tours dobrou no ano passado, para 18. Os homens representam a maioria esmagadora dos turistas, com 75% do total.

As boas relações de Bonner com autoridades de Pyongyang são alvo de críticas de pessoas que o consideram conivente com o regime totalitário e colaborador de uma indústria que fornece moeda forte à família Kim e sua corte.

O britânico se defende com o argumento de que o turismo e os projetos cinematográficos e esportivos em que se envolve reduzem o isolamento dos norte-coreanos e permitem uma melhor compreensão do país pelos estrangeiros e vice-versa. Além disso, ressalta que seus contatos se dão com funcionários de baixo escalão e nunca com a cúpula do governo.

Bonner e sua equipe já levaram jogadores de futebol norte-coreanos para a Inglaterra e times de basquete norte-americano e hóquei no gelo canadense a Pyongyang. Também promoveram campeonato de frisbee e a primeira corrida beneficente da Coreia do Norte.

“Tudo isso foi conquistado junto com nossos colegas norte-coreanos, que forçaram os limites (do permitido) e obtiveram autorização para convidar times estrangeiros e fazer com que norte-coreanos jogassem com eles”, afirma. “Esses são os primeiros passos do engajamento, e são extremamente gratificantes.”

Cada filme que Bonner produziu ou dirigiu foi exaustivamente negociado com as autoridades da Coreia do Norte e todos tiveram caráter pioneiro na abordagem de temas que não haviam sido retratados anteriormente nem mesmo por norte-coreanos.

Depois de A State of Mind, o inglês produziu Crossing the Line (Cruzando a Linha), documentário sobre o ex-soldado norte-americano James Dresnok, que em 1962 cruzou a zona desmilitarizada que divide a península coreana no Paralelo 38 e desertou para o regime de Pyongyang.

Finalista do prêmio do júri no Festival de Cinema de Sundance de 2007, o filme apresentou pela primeira vez a história de Dresnok, 40 anos depois de seu “desaparecimento”. O desertor vive até hoje em Pyongyang, onde cresceram seus dois filhos, fruto do casamento com outra estrangeira moradora da capital. Apesar de terem cabelos loiros e olhos claros, ambos são norte-coreanos e, como seus compatriotas, levam espetados do lado esquerdo das blusas os broches com as imagens de Kim Il-sung e Kim Jong-il.

A obra de maior sucesso de Bonner dentro da Coreia do Norte é The Game of their Lives (O Jogo de Suas Vidas), que narra a improvável vitória do time do país comunista sobre a favorita Itália na Copa de 1966, na Inglaterra. “Foi o maior choque da história do futebol mundial”, exagera Bonner, que há quatro anos namora a jornalista italiana Antonia Cimini, com quem forma um dos casais mais exuberantes da comunidade de expatriados de Pequim.

Os integrantes do time que derrotou a Itália são as estrelas do documentário, realizado em 2002. Os norte-coreanos são fanáticos por futebol e até hoje o filme é reprisado pela televisão estatal.

Apesar de viajar para o país desde 1993 e se declarar apaixonado pela população local, Bonner não fala coreano. Sua comunicação se dá em inglês e chinês. Quando está filmando, o britânico usa seu talento de desenhista e pintor para retratar as cenas que imagina e mostrá-las aos atores.

É difícil mensurar o impacto das iniciativas de “engajamento” de Bonner, mas é inegável que os turistas provocam ao menos um impacto visual nas ruas de Pyongyang. A maioria é mais bem nutrida e mais alta que a média da população local, afetada pela carência crônica de alimentos. Além disso, muitos usam jeans, um dos principais ícones da influência cultural dos Estados Unidos no mundo.

Na Coreia do Norte, essas calças, que na origem vestiam operários, são vistas como símbolo do imperialismo norte-americano e não integram o guarda-roupa por falta de credenciais ideológicas.

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