De que serve esta onda que quebra

O Rio, que sintetizou a glória do Brasil dos anos 50, agora condensa a tristeza da primeira década do milênio

Entrevista com

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2009 | 01h14

.

Ah, por que estou tão sozinho? Ah, por que tudo é tão triste? Me deixa encontrar minha paz, você que é bonita demais... A cada ausência tua eu vou chorar... Descrente deste mundo... Depois de uma semana de cão, que teve helicóptero policial abatido a tiros, cadáver dentro de carrinho de supermercado, homens da lei roubando os bandidos que mataram para roubar tênis e jaqueta, e saldo de 42 mortos, daria para resumir nos versos de Tom e Vinícius o sentimento do Brasil em relação a sua mais bela e castigada cidade. Sem bairrismo, por favor, que não é hora para isso. O Rio de Janeiro é para amadores - os que o amam.

 

Amadores como o economista Carlos Lessa, de 73 anos, professor emérito da UFRJ, ex-presidente do BNDES, e carioca da gema diplomado pela Confraria do Garoto. Para preservar o afeto da memória (a sua e a dos outros), Lessa tem comprado e restaurado casarões antigos no centro. Depois de salvá-los da impiedosa sanha imobiliária, ele os aluga para a instalação de bares, restaurantes... e assim, a despeito da melancolia pontual de Tom e outro parceiro, Aloysio de Oliveira, a paisagem vai ganhando utilidade.

 

Veja também:

linkNo fogo cruzado da guerra alheia 

linkO risco de vestir a faixa de a mais feliz do mundo 

linkTerceiro Mundo, quando convém  

Lessa é autor de O Rio de Todos os Brasis - Uma Reflexão em Busca de Auto-Estima (Record, 2000), um livro tão belo quanto fundamental para se entender a formação e o desenvolvimento do Rio e sua gente. Na entrevista que concedeu ao Aliás por e-mail ("para ter certeza de que suas palavras não fossem mal interpretadas", explicou a secretária), o economista e também "nacionalista, republicano e otimista" deixa claro que o problema do Rio é grande, mas fica maior quando insistem em enxergá-lo como reduto exclusivo das misérias humanas.

Diz que "não há segregação" na cidade, mas reconhece que "o garoto de classe média não mais joga pelada com o da favela e passa a ver o pobre como um estrangeiro". Defende um liberou geral para as drogas como meio de acabar com a guerra do tráfico, porque "se o cidadão quiser se destruir é uma opção pessoal e intransferível". Afirma preferir a classe média em passeata contra o "crescimento medíocre do emprego" a ela vestida de branco pedindo paz. Revolta-se com um governo, o federal, que gasta R$ 180 bilhões na dívida pública e aplica migalhas para tornar cidadão aquele carioca que hoje é só um perdido no meio do fogo cruzado. E faz entender que não vão conseguir destruir o Rio, pois não se dá cabo assim de algo tão sofisticado: a alma do carioca. Lessa é Rio e não abre - até o apagar da velha chama.

Um século atrás o cronista João Rio escreveu que o problema do Rio é que "as partes não se unem, vivem tão segregadas". Isso ainda vale?

Não há segregação no Rio. O melhor exemplo é a festa de ano-novo, que reúne 3 milhões de participantes nas praias. É 30% da população da região metropolitana do Rio de Janeiro, gente de todas as idades, gêneros, religiões (ateus incluídos), classes sociais (inclusive os desclassificados), que lá permanece das 9 da noite do dia 31 de dezembro até por volta das 3 da madrugada seguinte. É o maior espetáculo de integração social metropolitana do Brasil e, talvez, do planeta.

O Rio ainda tem papel importante na formação da autoestima do brasileiro, como teve no passado, quando o prefeito Pereira Passos (1902-1906) transformou a cidade no que chamou de "Paris dos Trópicos"?

A modernização do Rio foi um projeto de Rodrigues Alves, um paulista com a dimensão do Brasil. A neta do francês Vítor Hugo cunhou a expressão "Cidade Maravilhosa". Na década de 50, Copacabana se autodenominou "Princesinha do Mar". Depois o Rio foi deixando de ser objeto de desejo, sem que nenhuma outra cidade brasileira herdasse o título.

O que significou ter sido a capital do País e depois perder esse status?

Pertence ao óbvio ululante provinciano fazer do Rio um muro de lamentações. O carioca sempre debochou de sua cidade. Na década de 50, cantava: "Rio de Janeiro, cidade que me seduz; de dia falta água, de noite falta luz". Aliás, é a ironia um atributo de um povo naturalmente sofisticado. O Rio sintetiza a glória do Brasil dos anos 50 e a tristeza do Brasil nesta década inicial do milênio, que sucedeu à década perdida, a de 80, e à triste e vacilante estagnação brasileira da década de 90.

O saudosismo atrapalha o Rio? Ou seja, viver sonhando com um passado glorioso que o presente parece fazer de tudo para enterrar impede uma caminhada rumo a um futuro libertador, redentor?

Não há saudosismo prejudicando o Rio. O que existe é a autoestima nacional em declínio. O que existe é uma juventude migrando para o exterior. O que existe são meninas engravidando em busca do Bolsa-Família. A ideologia neoliberal e a exaltação da globalização colocaram em pauta para a juventude temas transnacionais e cancelaram a ideia do Brasil como um país do futuro e com futuro. Não se exalta mais a potencialidade da civilização brasileira e, sem resolver a questão social, não se convoca a juventude para discutir o futuro da civilização brasileira.

Em seu livro "O Rio de Todos os Brasis - Uma Reflexão em Busca de Auto-Estima", de 2000, o sr. fala da "desterritorialização" do Rio: a diáspora das elites para a Barra da Tijuca buscando "escapar do lado perdedor" e se estabelecer no lado pós-moderno, globalizado. A Barra faz mal para o Rio?

A Barra - como todos os Alphavilles ou o Plano Piloto de Brasília - instala a vida em condomínio fechado e tem no centro comercial (shoppings) o espaço de uma inquietante segregação social no futuro. Quero registrar um contramovimento: na Barra, a juventude de classe média frequenta os bailes funk e os forrós da favela de Rio das Pedras e reapareceu o botequim "pé-sujo" nos mercados de perecíveis da Barra.

O sr. também escreve que episódios como os arrastões de 1992 fizeram renascer o mito das classes sociais "perigosas" e "escorregou-se para satanizar a favela, especialmente a juventude pobre". Esse mito continua existindo?

Não há mito de classes perigosas. Há o garoto de classe média que não mais joga pelada com o garoto da favela e passa a ver no pobre um "estrangeiro".

O problema do Rio é só de desigualdade? Ou a cultura do "levar vantagem em tudo", disseminada por todos os cantos do País e por todas as classes sociais, piora as coisas?

A cultura do "levar vantagem em tudo", conhecida como "Lei de Gerson", foi criada para o Brasil como um todo. Parece ser um desdobramento humorístico do "Mateus, primeiro os teus", que o capitalismo exalta como competição pelo mercado que extravasa todas as leis, principalmente as fiscais. Não é o Rio o campeão da evasão e da elisão fiscal. Certamente outra região metropolitana lidera.

No mês passado, a revista "Forbes" elegeu o Rio a cidade mais feliz do mundo. O sr. concorda? Segundo o cantor Lobão, um prêmio desses só atrapalha, porque "aplaca nossa indignação, estupra nosso luto, mina a vontade de sermos melhores".

Não aceito a Forbes nem o Lobão. Posso afirmar que é muito boa a convivência dos cariocas nas calçadas e nas praças. Porém, a "felicidade" não pode ser desfrutada pelas populações metropolitanas brasileiras com os congestionamentos de trânsito e a dilatação do tempo de deslocamento residência-trabalho-residência. Ousaria afirmar que essa é uma das dimensões da infelicidade dos paulistanos, dos cariocas e das demais populações metropolitanas e urbanas brasileiras.

O mesmo Lobão diz que torce por um concurso em que o Rio seja "campeão de gentileza, honestidade, lanterninha de violência e malandragem". O sr. poderia comentar?

Sem comentários.

O sr. sente medo no Rio?

Quase nunca. Já tive medo. Porém fui roubado mais vezes na Itália do que no Rio, onde vivo. Fui assaltado em Madri por um ladrão armado com uma terrível navalha sevilhana. Uma vez tive muito medo dentro do Centro Pompidou, em Paris, assediado por um grupo de pitboys. Tenho medo de bala perdida, mas tenho mais medo de atravessar uma avenida com motoristas desesperados e deseducados. No Brasil, só em Porto Alegre fui assaltado por ladrões armados.

O helicóptero abatido ter caído num campinho de futebol resume a tragédia carioca-brasileira?

A queda do helicóptero mostra o estágio primário do conflito interno ao tráfico. É fácil derrubar um helicóptero, basta uma bala no rotor. A paralisação de São Paulo pelo PCC mostra as vantagens civilizadas de um crime organizado com hegemonia preestabelecida. A televisão disponibiliza imagens excessivas. Uma guerra de traficantes é realmente assustadora e pode, inclusive, derrubar helicópteros.

O que o senhor sentiu quando abriu o jornal de quarta-feira e viu a fotografia de um cadáver dentro de um carrinho de supermercado?

Os jornais do Rio têm sempre sua primeira página embebida em sangue. Alguns radialistas se especializaram no tema. Gostaria que prevalecesse a política editorial dos jornais europeus, que remetem para a quarta página a violência, além de não darem sequência. Estava em Milão quando operários italianos desempregados puseram fogo em um edifício onde trabalhavam filipinos clandestinos. Esse fato não foi manchete em nenhum jornal italiano.

O presidente Lula disse que "a cada dia a sensação é de causa perdida" e liberou R$ 100 milhões para a política de segurança da cidade. O senhor acha que é causa perdida? Dinheiro resolve?

Não acho que seja uma causa perdida. O crime organizado em São Paulo já se estabilizou, haja vista o imenso sucesso do PCC em paralisar por mais de um dia a Grande São Paulo, com 20 milhões de habitantes. Como o tráfico não está estabilizado no Rio existem conflitos inspirados nas guerras do jogo do bicho. Lula, em lugar de liberar R$ 100 milhões para a segurança, deveria investir nos metrôs de superfície do Rio e no metrô de São Paulo. Aliás, seria melhor do que propor o ridículo e caro "brinquedo" do trem-bala.

O filme "Tropa de Elite" responsabiliza a classe média pelos problemas do Rio. Há uma cena em que uma passeata "sou da paz" é posta em cheque. O senhor vê sentido no fato de as pessoas saírem de branco pela rua pedindo paz?

Preferia a classe média andando pelas ruas para protestar contra os juros hiperelevados e o crescimento medíocre do emprego e da renda. Aliás, o mercado interno dos ilícitos - drogas, motéis, bordéis, estacionamentos irregulares, produtos piratas, entre outros - tem seu sustentáculo na classe média que tem emprego e renda.

Legalizar a venda de entorpecentes ajudaria ou pioraria a situação?

Sou inteiramente favorável à legalização das drogas. Afinal, a Lei Seca fez de Chicago o berço simbólico da organização mafiosa solidamente implantada nos Estados Unidos. Se o cidadão quiser se destruir com drogas ou bebida alcoólica, ou ainda pôr em risco seu patrimônio e renda mensal num bingo, é uma opção pessoal e intransferível. Gostaria de conhecer uma Souza Cruz da maconha e uma enorme organização que emitisse certificado de qualidade para as drogas. Proibiria a publicidade e daria subsídio fiscal para ONGS, igrejas, etc. que condenassem essas opções individuais e instauraria a pena máxima para o traficante que desse suprimento aos jovens. Seria muito importante gerar emprego estável para o "soldado do tráfico", geralmente menor de idade e propenso a considerar a vida muito curta.

Descrevendo sua rotina, um morador da zona atualmente conflagrada contou que desistiu de tapar os buracos de bala na fachada da sua casa porque não adianta, sempre fazem buracos novos. Como o senhor analisa essa adaptação do carioca à barbárie cotidiana?

Há muito tempo, eu disse que as favelas do Rio, do Brasil e - até onde eu conheço - da América Latina tendem a ser micronações. Os episódios de violência intrafavelas são típicos de uma luta pelo micropoder local. Quem sofre é a população do lugar, que pede a presença do Estado em sua totalidade, inclusive delegacia de polícia, para se integrar à cidade. O Brasil, que gasta este ano R$ 180 bilhões em dívida pública, aplica migalhas em generalizar a cidadania real.

Para alguns especialistas em segurança, o governo estadual pelo menos está tomando a iniciativa de combater a violência. E isso é bom, porque tira a população da posição de eterna refém.

Creio que o enfrentamento armado da violência desencadeia uma dialética caricatural do armamento ofensivo, que supera o equipamento defensivo e inspira o desenvolvimento tecnológico para uma superação do ofensivo. O tráfico recruta ex-militares treinados pelas forças especiais, abre conta nos paraísos fiscais, faz "lavagem" do dinheiro e acordos multilaterais com traficantes de outros países. Desencadear uma campanha militar em algumas favelas faz o tráfico transferir seus "soldados" e equipamentos para outras favelas, eleva o preço das drogas, e o tráfico "inova" na logística para suprir os viciados. Alguns garotos de classe média, sem emprego e com o sonho da riqueza, optam por migrar para o exterior, e uns poucos por se converterem em traficantes de drogas com reduto no asfalto. Com violência, somente se "enxuga o gelo" da violência.

O secretário Beltrame declarou que os fatos dos últimos dias não são problema do Rio e sim de um ponto localizado da cidade. O que o sr. acha?

Concordo com o secretário. Ele omitiu que é um ponto móvel. É sempre uma matéria visível o primeiro helicóptero abatido, porque já foi banalizada a execução de policiais militares e civis. É notícia nova e ajuda a mídia a "cronificar" a imagem do Rio violento, neutralizando a escolha de sede de Olimpíada.

A Olimpíada será capaz de transformar décadas de omissão e descaso no Rio de Janeiro?

Um país que construiu Brasília para 500 mil habitantes - e que hoje tem 3 milhões - pode muito bem preparar o Rio para os Jogos Olímpicos. Gosto da ideia de, por um caminho torto, recolocar o Rio como objeto de desejo e de orgulho do povo brasileiro. Tenho segurança de que o povo carioca será todo voluntário para receber os visitantes e que farão da Olimpíada um espetáculo de convivência inesquecível - esta é, ainda, a alma carioca, que comemorou a seleção final da cidade para sediar a Olimpíada com uma festa improvisada de 50 mil pessoas. O Brasil necessita de um cardápio de atrações turísticas, e a contribuição paulistana e de todo o Brasil será bem-vinda. Da mesma forma que o Rio será o "prato principal", podemos oferecer Gramado, no Rio Grande do Sul, o encontro das águas no Amazonas, a surpresa arquitetônica de Brasília, as Cataratas do Iguaçu. O macroproblema é que também poderemos oferecer o triste espetáculo dos maiores congestionamentos automobilísticos do planeta. A grande oportunidade que a Olimpíada pode criar é colocar em primeiro lugar a questão viária e metroviária de nossas principais cidades, a começar pelo Rio.

O Rio de Janeiro continua lindo?

É óbvio que sim. Todos cantam a beleza natural do Rio. Eu prefiro cantar a beleza do povão carioca, que "apesar de você", continua acreditando que "amanhã será outro dia". Mostra quem é quando faz a maior festa de multidão do País (o carnaval) e, apesar do péssimo sistema de transporte coletivo e da anemia do sistema de segurança, a mídia não consegue registrar nenhuma violência. Em resumo, o povo do Rio não tem medo de praça cheia; tem, sim, horror a praça vazia. O carioca sempre marca encontro na rua; outros brasileiros convidam para a casa. Viva a convivência pacífica da diversidade comportamental!

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.