De tigre a bem-te-vi

De tigre a bem-te-vi

O velho guerrilheiro se esquiva dos fantasmas e, aos 75 anos, diz estar pronto para lutar de novo

Christian Carvalho Cruz, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2009 | 01h52

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Aí Neguinho vai dizer que agora consegue sentir a beleza de despertar com um bem-te-vi cantando na janela. Que todas as noites põe pedaços de mamão, banana e laranja no parapeito, de modo que o amigo continue vindo, sem falta, junto com a aurora. "É uma delícia. Que pássaro lindo. Está feliz de me ver, de bem me ver", delicia-se. "Faz lembrar outra ave bonita que eu gostava de ouvir, menino, no Nordeste: o pitiguari, também chamado quem-partiu-já-vem."

Fazia 40 anos que ninguém bem-via Neguinho - esse Neguinho, o verdadeiro, poético, de gargalhada solta, batizado Antonio Geraldo Costa, nascido pobre em um engenho de Alagoas. Mal-viam só o outro, o Carlos Juarez de Melo, nome falso que adotou ao deixar o Brasil em 1969, perseguido pela ditadura militar. O Carlos Juarez era Neguinho estraçalhado pela tortura, casmurro, pão-duro na risada e atormentado por uma brutal mania de perseguição que o impediu de voltar ao País mesmo depois da Lei da Anistia, 30 anos feitos neste domingo. Era Neguinho vendo espião do regime em cada esquina, em qualquer parte do mundo, que só resolveu retornar agora "para poder passar seus últimos dias na terra querida", nas palavras do amigo Guilem Rodrigues da Silva, ex-marinheiro como ele e hoje juiz na Suécia.

Mas Neguinho vai dizer que o Carlos Juarez está morrendo lentamente. Um pouco a cada manhã de bem-te-vi na janela, desde que ele desembarcou no Rio de Janeiro, em 21 de julho último, como "o último exilado da ditadura a retornar ao País". Veio da Suécia, onde viveu desde 1971 como asilado político, onde trabalhou de faz-tudo num convento dominicano e de enfermeiro em casa de repouso, onde se casou com uma moça sueca 20 anos mais nova que lhe deu dois filhos (os rapazes hoje têm 19 e 21 anos), onde se tornou cidadão sueco e até se aposentou. Voltar para ficar, Neguinho vai dizer, era quitar uma dívida que ele contraiu consigo mesmo quando cruzou a fronteira do Uruguai, quatro décadas antes, com a repressão nos calcanhares: "Estão me forçando a sair, mas quem parte já vem. Eu vou voltar", relembra, passarinhando de novo.

E voltar, Neguinho vai dizer também, era se livrar da armadura dupla que o aprisionou por todo o período de exílio. De um lado, havia o medo de ser preso e extraditado por falsidade ideológica, já que toda a sua história na Suécia se apoiava em alicerces de gelatina: documentos que valiam tanto quanto uma nota de R$ 3. De outro, o pavor de ser descoberto, preso e torturado novamente por suas atividades subversivas no Brasil. Improvável, rirão muitos, mas só um torturado é capaz de ouvir o que sussurram os seus fantasmas. Assim, entre o ruim e o pior, Neguinho vai dizer que achou melhor se fechar e só agora está se abrindo, a conta-gotas, neste primeiro mês de "volta à pátria", como gosta de falar.

Na quinta-feira, 20, estive com ele no Rio de Janeiro. Vi os dois Neguinhos: o Antonio Geraldo Costa, brincalhão, vivaz, raciocínio ligeiro, elétrico, cheio de planos e energia aos 75 anos; e, num ou noutro relance, o antigo Carlos Juarez, carrancudo, desconfiado a ponto de pedir meu crachá para certificar-se de que falava mesmo com um repórter. De todo modo, ambos acondicionados num corpo mirrado de 1,60 m, mãos pequenas mas com gestos enormes e incansáveis enquanto conversa, e de uma doçura incompatível com a fama de "guerrilheiro barra-pesada" dos anos de chumbo.

Neguinho vai dizer que renasceu no Rio. Para celebrar, esfregando as mãos, ele pede "uma canjebrina" tão logo toma assento em uma mesa de fundo no Bar do Arnaudo, em Santa Teresa. "Agora sinto-me feliz (ele faz questão da ênclise, sempre). Até já ando por aí sem achar que há gente atrás de mim", respira. Baita avanço, pois o Neguinho sueco era um sujeito tenso em tempo integral. Falava o necessário, em volume baixo, quase nunca sobre o passado (embora a mulher, executiva de uma multinacional, e os filhos conhecessem a história toda, incluindo o nome falso). Se ia a uma festa, coisa rara, escafedia-se sem se despedir, sem deixar rastro. Mas não sem antes atormentar os mais chegados com a frase que se tornou um bordão: "Tem um cara estranho ali, sei não, vamos embora?".

Foi esse Neguinho que a professora e ex-colega de militância na ALN (Ação Libertadora Nacional) Eliete Ferrer conheceu em Estocolmo. "Convivemos por oito anos lá e nunca o vi solto desse jeito", ela surpreende-se, apontando o amigo com o queixo. Neguinho está às gargalhadas com um garçom que o reconheceu. "O senhor é o último exilado político, não é? Tenha um bom retorno", saúda o rapaz. Neguinho vai dizer que não sabia ser cabra tão importante e que desse jeito logo estará em Hollywood. Avisado por Eliete que a terra do cinema ianque é démodé, ele continua em alto astral, todo sotaque nordestino: "Mas você está diante de um démodé. E sou um rebelde com causa, quer coisa mais démodé que isso?"

Neguinho vai dizer que, de fato, jamais esmoreceu na disposição de lutar por um mundo livre e democrático. E é por isso que ele tem se movimentado no Rio. Sai todos os dias para encontrar ex-companheiros, visitar livrarias, ouvir gente na feira, no supermercado e assim "tomar pé" da situação política do País. Com letra grande e deitada à direita ele vai preenchendo uma inseparável caderneta com nomes, telefones, endereços, resumo de conversas e informações que lê nos jornais. O caderninho tem na capa um símbolo do Flamengo - "não sou muito de futebol, mas escolhi este porque é o time do povo". Para ele, muita coisa melhorou desde os tempos em que pegou em armas para combater a ditadura. Gosta do Bolsa-Família e da política de cotas do governo Lula - "esse se meteu numa camisa de força para poder governar", mas a "proliferação das favelas mostra a permanência da desigualdade social e da injustiça com os pobres e da presença da direita incrustada nas instituições".

Então Neguinho vai dizer que pensa em se filiar a um partido político - não sabe qual- "para tentar ajudar como puder, principalmente na luta pelos arquivos da ditadura". Eliete brinda com um copo de guaraná: "Abertura ampla, geral e irrestrita dos arquivos. Os responsáveis pelas atrocidades que fizeram conosco têm que aparecer". Neguinho vai dizer que, nos anos 60 ajudou, primeiro, como vice-presidente da ousada Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, pela qual a marujada reivindicava poder casar, vestir-se com roupas civis em dias de folga e "as reformas de base que libertarão da miséria os explorados do campo e da cidade, dos navios e dos quartéis", conforme slogan de época. Foi como marinheiro revolucionário e simpatizante do Partido Comunista Brasileiro que Neguinho acabou preso por seis meses depois do golpe, em 1964. "Eu era torturado três vezes por sessão", Neguinho vai dizer. "Uma por ser preto e pobre, outra por ser comunista e mais uma por ser militar, que eles consideravam traidor." Enjaulado no navio-patrulha Benevente, ancorado em Recife, aproveitou um hasteamento de bandeira para fugir e cair na clandestinidade e na luta armada.

O TIGRE

Só que Neguinho vai dizer que não gosta de falar muito desses tempos. "Ele era meu contato em São Paulo, sempre muito vivo, confiável, conhecia um monte de gente, Brizola, Marighella, todos os respeitavam", relembra o carioca Júlio César Senra Barros, ex-companheiro do MAR (Movimento Armado Revolucionário), que em 1969 resgatou nove ex-marinheiros da Penitenciária Lemos de Brito, no Rio, para a criação de um foco guerrilheiro na Serra do Mar. Neguinho ajudou a levantar fundos para ação, sempre de metralhadora em punho diante do caixa de agências bancárias. "Era o homem mais importante das expropriações bancárias", conta o jornalista Flávio Tavares, também do MAR na época. "Ele era da vigilância, tinha que cuidar dos funcionários do banco e, ao mesmo tempo, da rua, de olho na polícia. Estava sempre alerta, vendo tudo ao redor. Vem daí o outro codinome dele, Tigre."

Fazendo uma concessão ao silêncio sobre o tema, Neguinho vai dizer que às vezes cabia a ele o discurso político na invasão do banco. "Falava assim: 'Senhoras e senhores, isto não é um assalto, é cobrança de imposto revolucionário'". Uma vez saiu na televisão que o homem do discurso tinha sotaque nordestino. Mas não me identificaram, ficaram sem saber que se tratava do Carlos Juarez de Melo... ergh, ah, hum, como é mesmo?, sim, Antonio Geraldo da Costa", enrola-se com a dupla identidade de tantos anos.

No Bar do Arnaudo, o cismado Carlos Juarez ainda voltaria a assombrar o liberto Antonio Geraldo mais uma vez. Quando Neguinho e Eliete comentavam o modus operandi da luta armada. "Para ficar clandestino, você precisa contar no mínimo com cinco pessoas de confiança plena, gente que estará com você até o fim", ensinava ela. Neguinho vai dizer que o importante é identificar rapidamente os infiltrados, policiais que se fingem de militantes. "Quando eu marcava um ponto (encontro) minha senha era chegar dizendo 'Moro em Jaçanã'. Se o companheiro não respondesse 'Se eu perder esse trem'..." Mas parou por aí, de repente, porque Neguinho vai dizer que é melhor "não dar pista para a repressão, vai que dão o golpe de novo, aí já viu". Mas e se dessem, Neguinho, vai dizer que você pegaria em armas novamente? "Não tenha dúvida. Faria tudo de novo em nome da democracia, agora com muito mais experiência."

Eliete, que ajudou no longo e trabalhoso processo de trazer novamente à vida o Antonio Geraldo e por enquanto lhe empresta um quarto em seu apartamento em Laranjeiras, se diz boba de ver Neguinho tão confiante e falante. Comenta que um mês atrás, em Estocolmo, quando compraram a passagem dele para o Brasil, Neguinho começou a tossir "uma tosse de cachorro, seca, constante, mas sem febre ou qualquer outro sintoma". Continuava assim quando ele desembarcou no Rio e até poucos dias atrás. Como Neguinho não vai a médico, telefonaram para um. Tosse psicológica, diagnosticou o doutor, já que o paciente nunca fumou. Era o Antonio Juarez engasgado, arrisca Eliete, acrescentando que, "veja só você, agora não tem mais nada, a tosse desapareceu conforme a alegria dele foi aumentando, é incrível". Alegria da qual se pôde ver o estopim no dia 23 de junho, quando Neguinho finalmente botou as mãos no passaporte com seu nome verdadeiro, na embaixada brasileira em Estocolmo. O momento era tão solene que ele achou por bem registrar. Contratou um cinegrafista e dirigiu o curta-metragem de seis minutos. Mandou botar de fundo Para não Dizer que não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, e quis que a primeira tomada o mostrasse saindo de um túnel do metrô - "o túnel da clandestinidade", Neguinho vai dizer. Pois então ele vem vindo, todo encapotado no início de verão sueco. De repente lhe cruza o caminho, de bicicleta, uma deusa escandinava. Neguinho não olha nem um pouquinho, continua firme na caminhada, nariz para frente. (Assista à atuação procurando por "Antonio Geraldo Costa" no YouTube.)

Aí Neguinho vai dizer que a conversa está muito boa, mas agora chega. Já falou demais e precisa ir para casa passar uma água de cheiro. Tem um encontro logo mais. Já arrumou namorada no Brasil, Neguinho? "Estou de olho em uma aí. Sem mulher não se vive em parte nenhuma desse mundo". Mas para a loura do filme do passaporte você nem deu bola. "Ali eu ainda era o Carlos Juarez, agora sou o Antonio Geraldo", Neguinho ia dizer, mas apenas sorriu.

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