Twitter/@jamesrgaines
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Década de 1950 foi incubadora de movimentos sociais

Em novo livro, James R. Gaines, ex editor-chefe da revista 'Time', elenca fatores que tornaram a década um período precursor

Lizabeth Cohen, Washington Post

17 de fevereiro de 2022 | 10h00

Esqueça o estereótipo das comédias de televisão dos anos 1950 dominadas pela família patriarcal, suburbana e religiosa. Em seu lugar, James R. Gaines propõe uma década que lançou o ativismo social dos anos 1960 e 1970 em torno dos direitos dos homossexuais, da segunda onda do feminismo, dos direitos civis e do meio ambiente. Não é uma afirmação incomum entre os historiadores, que muitas vezes buscam histórias de origem em um passado mais profundo. Mas Gaines, jornalista que chegou a ser editor-chefe da revista Time e escreveu três livros sérios de história, traz mais uma reviravolta.

Em The Fifties: An Underground History, ele argumenta que os sucessos posteriores desses movimentos podem ser atribuídos diretamente a indivíduos corajosos que muitas vezes sofreram isolamento, ostracismo e até banimento da família por lutar para melhorar sua própria vida e a de muitas outras pessoas. O fato de terem travado lutas às vezes solitárias confirma que a década de 1950 realmente valorizava a conformidade e a complacência. Gaines não nega essa realidade e, de fato, documenta muita feiura da época: ataques gays, policiamento autoritário, opressão patriarcal, supremacia branca e lucro com a contaminação ambiental. Mas ele também oferece uma resposta – e potencialmente uma inspiração – para aqueles que hoje veem ao seu redor apenas racismo estrutural, sexismo, desigualdade econômica e catástrofe climática. Em vez disso, ele insiste, indivíduos comprometidos com a mudança podem fazer a diferença.

Ao defender o heroísmo individual, Gaines fornece estudos de personagem cativantes de pessoas conhecidas e outras mais obscuras. Algumas das figuras mais famosas são o ativista pelos direitos dos homossexuais Harry Hay, que fundou a Mattachine Society; a advogada negra Pauli Murray, que desenvolveu brilhantes argumentos jurídicos que levaram a vitórias na Suprema Corte por maior igualdade de gênero e raça; a pioneira feminista Betty Friedan, que escreveu The Feminine Mystique e ajudou a estabelecer a Organização Nacional para Mulheres (NOW, na sigla em inglês); Medgar Evers, secretário de campo da NAACP no Mississippi, que trabalhou incansavelmente para derrubar a segregação e foi assassinado por isto; e a bióloga Rachel Carson, cujo livro extremamente influente Primavera silenciosa é tido como o lançamento do movimento ambiental moderno, com sua condenação à indústria química produtora de pesticidas. Todas essas vidas estão bem documentadas em biografias, memórias e publicações acadêmicas, das quais Gaines extrai suas evidências habilmente. Em alguns casos, ele também consultou documentos pessoais.

Mais fascinantes para mim, no entanto, são os muitos indivíduos menos conhecidos que povoam o livro de Gaines como agentes de mudança. Conhecemos Frank Kameny, que lutou pelos direitos dos homossexuais desde a década de 1950 até o presidente Barack Obama estender os benefícios trabalhistas a parceiros do mesmo sexo, em 2010; a historiadora Gerda Lerner, pioneira no campo da história das mulheres, com atenção especial à história não contada da vida das mulheres negras; o sargento condecorado Isaac Woodard, que foi cegado por um chefe de polícia da Carolina do Sul voltando para casa da Segunda Guerra Mundial; e Norbert Wiener, o matemático do MIT que se tornou cético em relação à tecnologia.

Estes são apenas alguns dos personagens que cumprem a afirmação de Gaines de que os ativistas individuais são importantes. Mas é impressionante como tantos de seus sucessos dependeram do conjunto de colegas com ideias semelhantes que lutaram a seu lado. Gaines está certo ao dizer que os movimentos de massa que surgiram na década seguinte não vieram do nada. Mas ele perde a importância desse nível intermediário de ativistas, sem os quais os líderes teriam fracassado. Foi preciso uma aldeia – não uma cidade, mas também não uma alma solitária – para lançar um movimento com capacidade de derrubar um status quo arraigado.

O foco de Gaines está no que seus personagens fizeram na década de 1950 quando lançaram seus movimentos. Embora nos conte um pouco mais sobre suas experiências anteriores, Gaines não buscou nenhum padrão comum em suas histórias pessoais. Mas alguns paralelos me impressionaram. A Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel descomunal na inspiração desses indivíduos e na sustentação de seus movimentos. A grande maioria dos ativistas eram veteranos, uma experiência que motivou particularmente os negros americanos. Lerner era sobrevivente do Holocausto. Wiener projetou sistemas de orientação de mísseis, cujo legado cresceu a ponto de assustá-lo. A autodenominada força de segurança para a Marcha sobre Washington em 1963 foi composta por veteranos negros que aplicaram a estrutura e as estratégias que haviam aprendido nas forças armadas para garantir que uma manifestação de 250 mil pessoas fosse pacífica.

Outra fonte de inspiração, talvez mais inesperada, foi a participação no Partido Comunista ou movimentos radicais similares. Hay trouxe células comunistas para a Mattachine Society. O trabalho de Lerner na criação do Congresso Comunista das Mulheres Americanas lançou as bases do seu fortalecimento institucional feminista. Friedan aplicou as habilidades polemistas que havia desenvolvido escrevendo para sindicatos de esquerda na década de 1940 para criar um slogan de sucesso com “o problema que não tem nome”, a maneira como descreve a infelicidade feminina nos anos após a Segunda Guerra Mundial em The Feminine Mystique. Wiener nunca foi membro do Partido Comunista, mas não escondeu sua aversão ao capitalismo e simpatia pelos trabalhadores cujos meios de subsistência ele temia que fossem perdidos para a automação.

Que a participação prévia das pessoas em políticas radicais alimentasse sua disposição e capacidade de agir contra a injustiça acabou sendo um indicativo de uma realidade maior na vida desses ativistas. Apesar de nossa tendência de vincular líderes a um movimento em particular, a verdade é que ocorria uma grande quantidade de fertilização cruzada – tanto entre indivíduos quanto entre movimentos. Gaines transmite essa ideia quando apresenta Fannie Lou Hamer em seu capítulo sobre feminismo, e não no capítulo sobre direitos civis. Ou quando ficamos sabendo que a conscientização e a mensagem de que “o pessoal é político” apareceram na luta pelos direitos gays de Hay muito antes de surgirem no movimento de mulheres, ao qual geralmente são atribuídos. Murray lutou contra a discriminação de gênero e racial e teve um papel fundamental em ambos os movimentos, articulando a “interseccionalidade” anos antes de Kimberlé Crenshaw lhe dar nome e profundidade teórica.

Menos surpreendente, mas mesmo assim pungente, é a recorrência em todos esses movimentos de uma luta entre moderados e radicais. A batalha tomou uma forma diferente em cada movimento. Nos primórdios do movimento pelos direitos dos homossexuais, aqueles que esperavam uma ampla mudança cultural se depararam com oponentes que buscavam apenas a descriminalização da homossexualidade. As fundadoras reformistas do NOW, como Friedan, alienaram Murray com suas pautas estreitas, a ponto de ela retirar seu nome como candidata ao conselho. Em todos os lugares do Sul, a NAACP enfrentou desafios, seja dos ativistas mais orientados para a ação direta do Comitê de Coordenação Não-Violenta Estudantil ou do clube de armas militante liderado por Robert F. Williams. O capítulo sobre ecologia, que se concentra não em um movimento social emergente, mas em dois indivíduos – Carson e Wiener – mostra que a luta entre moderação e transformação radical ocorreu dentro de cada pessoa ao longo do tempo. Se no início de suas carreiras Carson e Wiener acreditavam inequivocamente no valor do progresso científico, no final de suas vidas “convergiram para a ideia herética, até mesmo subversiva, de que a afirmação do domínio sobre o mundo natural era baseada em uma fantasia arrogante que carregava o potencial para o desastre”.

Além do significado da ação individual, essa história da década de 1950 tem outra mensagem para hoje. Serve como um lembrete do trabalho árduo e do sacrifício pessoal na luta pelos direitos constitucionais dos gays, negros e mulheres, bem como pela proteção ambiental. Agora que enfrentamos ameaças contínuas em todas essas arenas, fica claro que, apesar da trajetória um tanto triunfalista da narrativa de Gaines, apontando para as vitórias legislativas e regulatórias, essas batalhas não foram vencidas de maneira definitiva. Ainda são necessários líderes dedicados, junto com pessoas igualmente comprometidas. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Lizabeth Cohen é a professora Howard Mumford Jones de estudos americanos na Universidade de Harvard. Ela é a autora, mais recentemente, de Saving America’s Cities: Ed Logue and the Struggle to Renew Urban America in the Suburban Age.

SERVIÇO 

The Fifties: An Underground History

James R. Gaines

Simon and Schuster - 288 páginas - US $28

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