Degelo em Mianmar

Conforme se torna cada vez mais claro que as sanções ocidentais contra Mianmar serão revogadas, a antes sonolenta Rangum começa a se parecer com um vilarejo da época da corrida pelo ouro. Os poucos hotéis de bom nível no centro da cidade, antes tão vazios que era possível percorrer seus andares sem encontrar nenhum hóspede, estão agora aceitando reservas só com meses de antecedência. Todos os dias delegações de executivos passeiam por Rangum e Naypyidaw, a capital.

Joshua Kurlantzick, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2012 | 03h10

As conferências, um fenômeno relativamente novo no país, estão por toda parte: conferências da indústria do petróleo, de ajuda humanitária, do setor financeiro. O povo está começando a aprender os jargões "capacidade de construção" e "engajamento sustentável". Exilados que retornam ao país abrem negócios voltados para estrangeiros, enquanto agentes de viagem de alto nível são inundados por pedidos.

O degelo em Mianmar teve início quando o regime militar se desfez após eleições fraudadas em novembro de 2010. Um novo governo, liderado por Thein Sein, oficial reformado do Exército, permitiu que a Liga Nacional pela Democracia, oposição liderada por Aung San Suu Kyi, participasse das novas eleições após anos de repressão. Essas eleições complementares dominadas pelo partido de Suu Kyi, no início de abril, foram as primeiras eleições livres desde 90, e conduziram a oposição ao Parlamento. Suu Kyi aceitou de bom grado a parceria com Thein Sein, dizendo acreditar que as motivações do presidente são genuínas. Em abril, o premiê britânico David Cameron visitou o país, o primeiro líder ocidental de importância a fazê-lo em décadas.

Tudo isso levou os investidores a enxergar Mianmar como um mercado emergente em potencial. Nos primeiros meses do ano, delegações de empresas europeias, americanas, japonesas e cingapurianas viajaram a Mianmar, e poderosos investidores têm planos de injetar dinheiro no país. Bancos como o Standard Chartered estão interessados em se instalar ali, bem como fabricantes como a Suzuki. Como disse Mark Mobius, do Templeton Emerging Markets: "Mianmar se encontra hoje provavelmente no ponto em que a Tailândia estava em 1970. Eles têm muitos ingredientes que poderiam levar a um crescimento altíssimo".

Até recentemente, a ideia de bancos e gestores de fundos disputando a oportunidade de entrar no país teria parecido chocante. Uma litania de abusos contra os direitos humanos cometidos pelo governo levou o Ocidente a impor sanções nos anos 90. Isto só piorou o já péssimo clima enfrentado pelos investidores, que se viam muitas vezes lidando com um governo imprevisível, dado às nacionalizações e ao súbito cancelamento de projetos.

Embora o Ocidente tenha recorrido às sanções, outros países - Coreia do Sul, Cingapura, Tailândia, Índia e China - não o fizeram. Assim, uma empresa americana ou japonesa de telecomunicações com planos de expansão terá de concorrer com a coreana Samsung, que nunca deixou o país. Empresas ocidentais de petróleo terão de concorrer com a China National Petroleum Corp. Apesar do sentimento contrário à China manifestado por alguns em Mianmar, empresas chinesas têm presença tão forte que seria difícil abalar sua posição ali.

Agora o governo tornou mais liberais as leis de investimento, libertou a moeda do confuso modelo de câmbio duplo, lançou planos para pôr fim às guerras civis, convidou o FMI e outras instituições financeiras internacionais a voltar, promoveu a abertura da mídia e incentivou o investimento estrangeiro direto. O governo ainda anunciou que admitirá bancos estrangeiros.

Tudo isso é positivo. Mas por mais tentadora que seja a comparação com as reformas na China e no Vietnã, no curto prazo, Mianmar não deve ser como eles. China e Vietnã sempre tiveram uma sólida infraestrutura civil e política. Mianmar foi isolado do mundo por um golpe em 1962. Cinco décadas de regime militar tiveram como resultado um país em ruínas, sem infraestrutura. Nas últimas décadas, o governo dizimou a força de trabalho do país, fechando a maioria das universidades para evitar manifestações contra o regime. Agora, Mianmar tem apenas um punhado de pessoas instruídas. O crescimento virá - mas lentamente.

Nem Suu Kyi nem Thein Sein têm o controle total da situação. Dentro da oposição democrática, alguns ativistas temem que Suu Kyi já foi longe demais ao negociar com o governo, o que pode tornar mais difícil a tarefa de criticar o regime; há rumores de que ela logo deve assumir um cargo no gabinete, embora negue tal fato. Enquanto isso, por mais que Than Shwe, ex-governante militar, tenha aparentemente se aposentado, ele encheu o governo de linhas-duras, e alguns deles estão obstruindo o progresso para conservar o poder do exército. Mianmar já teve períodos de abertura, em meados dos anos 90 e no início dos 2000, embora nenhum deles tenha sido tão significativo quanto o atual. Em ambas as ocasiões, os linhas-duras decidiram acabar com as reformas, devolvendo o país às trevas.

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