Delírio homérico

Azeite de oliva e turismo não são suficientes para aguentar o peso da qualidade de vida a que os gregos aspiram, diz Moisés Naim

Carolina Rossetti, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2012 | 03h07

A Europa jogou outro bote salva-vidas aos gregos e eles o agarraram, ainda que a contragosto de alguns. Na quinta, o Parlamento selou o acordo do pacote de socorro econômico e se comprometeu a cortar gastos, encabeçar reformas substanciais, reduzir salários, enxugar a máquina pública e pagar as contas em dia. Em troca, recebeu o perdão de 107 bilhões da dívida e uma linha de crédito de 130 bilhões, que será liberada aos poucos, e "se" merecido. Por ora, evitou-se o calote de uma parcela de 14,5 bilhões prevista para vencer no fim do mês. A avaliação geral é que, por causa dos esforços da junta médica - FMI, União Europeia e Banco Central Europeu -, o paciente vive, mas respira por aparelhos e entra o quarto ano de crise bastante debilitado.

No dia em que o plano de resgate à Grécia se concretizou, o jornalista Moisés Naím falou ao Aliás sobre como e por que a zona do euro chegou a esse estágio. Colunista venezuelano do jornal espanhol El País, pesquisador do programa de Economia do Carnegie Endowment for International Peace e ex-editor da revista Foreign Policy, Naím não poupa ninguém. Para ele, os gregos "mentiram", os credores foram "irresponsáveis", os líderes europeus "lenientes" e Angela Merkel "obcecada demais com a austeridade". Assim, a Grécia, uma economia pequena, virou problema mastodôntico. "Permitiram que a unha encravada do dedo mindinho se transformasse numa infecção que agora ameaça o organismo inteiro", critica. Naím concorda com as rédeas impostas aos gregos - "é preciso assegurar que o dinheiro não vai evaporar" - e diz que o aperto é padrão. Foi assim para o Brasil, a Argentina e o México nos anos 90. Será assim para a Grécia e talvez para a Espanha, Portugal e Itália. "Nada novo. A diferença é que são europeus. E o mundo presta mais atenção."

Diz-se que a Grécia foi humilhada no pacote de socorro. O país rifou sua soberania ao aceitar as condições do FMI e da UE?

Interessante que a pergunta não surgiu quando condições idênticas foram vivenciadas pelo Brasil, México, Argentina, Coreia do Sul, Indonésia, Tailândia, Rússia... Esse é o padrão aplicado ao mundo todo, o tempo todo. Nada é novidade. As negociações na Grécia são as mesmas que outros países enfrentaram no passado. A diferença é que os gregos são europeus. Eles têm uma voz mais poderosa. E o mundo presta mais atenção agora.

Haveria outra saída do labirinto grego?

Todo país que vivencia uma crise percorre o mesmo processo. Primeiro vem a negação. As autoridades se recusam a aceitar o problema. Depois, reconhecem falhas, mas as tratam com band-aids. Então o problema cresce. A população se revolta, fica enfurecida com o remédio amargo empurrado goela abaixo. Depois, começam as negociações paliativas. Cada segmento da sociedade, cada grupo social tenta evitar carregar o ônus do ajuste. Os sindicatos, o Exército, o grande capital, os bancos, o governo, os políticos, todos começam a jogar para os outros a culpa da crise. O que ocorre na Grécia vimos na Indonésia, na Tailândia, na Argentina e no México. A diferença é que o país integra a UE e o número de atores diretamente envolvidos é maior. Ninguém, sozinho, tem o controle total da situação.

Os gregos são criticados pelos gastos excessivos. Até que ponto a crítica é válida? Que outros fatores explicam a bancarrota?

Quando o problema é dessa magnitude, não há só um culpado. As pessoas que estão protestando são as que pressionavam o governo, exigindo benefícios que o país simplesmente não podia pagar. Os sindicatos, o setor privado e os banqueiros extraíram condições incompatíveis com o porte econômico do Estado. Os gregos cometeram excessos. Por exemplo, não tinham o hábito de pagar impostos e o mercado negro é grande. Declarava-se quase nada, ao mesmo tempo que os gregos exibiam carros de luxo e casas enormes. Por isso a Grécia tem um imposto para taxar sinais de riqueza. Até as piscinas de Atenas começaram a ser alvo da Receita. As autoridades e alguns jornalistas usaram imagens do Google Earth e contaram as piscinas de Atenas. O número real foi dezenas de milhares de vezes maior que as piscinas declaradas no imposto de renda. Atitudes como essa arrastaram o país para onde ele está hoje. Mas a culpa é também de bancos e credores internacionais que emprestaram para a Grécia de forma imprudente, irresponsável, criminosa até. E da União Europeia, que não ajudou em nada. Não agiu de forma eficiente no início da crise. A Grécia é parte pequena da economia europeia, mas líderes europeus lenientes permitiram que uma unha encravada do dedo mindinho do pé se transformasse numa infecção que agora ameaça o organismo inteiro.

Uma eleição se aproxima. Pode uma surpresa no campo político desfazer a barganha econômica feita até agora?

Ninguém sabe. Qualquer um que diz saber está adivinhando. Não sabemos como a população vai reagir ao novo aperto. Não sabemos como o sistema político vai reagir. Não sabemos como os mercados financeiros vão reagir. Não sabemos como os líderes europeus vão reagir. No momento, são muitas as variáveis, muitos os atores, muitos os caminhos possíveis...

Do que temos certeza?

De que a Grécia precisa diminuir o tamanho da dívida, o setor público terá de cortar despesas, o setor privado precisa assumir uma perda - e já assumiu um calote de 107 bilhões - e os impostos vão aumentar. E que o problema central não é o superendividamento, e sim a falta de competitividade. A Grécia precisa de mais produtos para vender. Azeite e turismo não são suficientes para aguentar o peso da qualidade de vida a que os gregos aspiram. Para isso, eles precisam permitir mais oportunidades de investimento, criar menos obstáculos para novos empreendimentos, inventar novos serviços e produtos que apeteçam os estrangeiros, seja para atrair turistas a suas praias e ilhas, seja para a exportação.

Durante anos os gregos têm expressado sua insatisfação. Ainda assim, medidas de austeridade se acumulam. A opinião pública grega é crucial para o cumprimento do acordo ou terá ela se tornado irrelevante?

A opinião pública é mais relevante que nunca. Os dois grandes atores desse drama são: o povo grego e os donos do dinheiro estrangeiro. Se o povo tomar as ruas e parar a reforma, o cenário é um. Se investidores decidirem que o país é arriscado demais e não estão a fim de comprar títulos gregos, o governo não vai ter caixa para operar o sistema. Escolas, hospitais, delegacias, corpo de bombeiros, ou seja, tudo o que é necessário para um Estado moderno padecerá.

A Grécia deve sair temporariamente do euro?

Não tem bala de prata. Não é uma crise possível de resolver com uma só medida. Se a Grécia volta para o dracma, não faz mais nada, será um desastre. O país precisa fazer várias coisas ao mesmo tempo. O regime cambial do euro é problemático para a Grécia, como também o é para a Itália, Espanha e Portugal. Mas não é o único problema. O crucial é a baixa competitividade.

Espanhóis comemoraram o carnaval desfilando uma alegoria de Angela Merkel com uma marionete de Mariano Rajoy. Como vê esse ressentimento contra a Alemanha?

Angela Merkel e a Alemanha são coisas distintas. Merkel é um líder político e precisa refletir o ânimo de seu país. Os alemães são conscientes de que trabalham muito, geram bastante riqueza para o bloco e poupam acima da média. São espartanos. Já os gregos se aposentavam aos 50 anos. Merkel poderia ter feito e deve fazer mais para estimular o crescimento da Europa como um todo. A Alemanha precisa ser mais expansiva e ter uma política fiscal e monetária que permita que outros se beneficiem do crescimento alemão. Precisa ainda criar um euro mais competitivo para tornar os produtos do bloco mais baratos. As políticas de Merkel têm sido demasiadamente cautelosas e obcecadas por medidas de austeridade. Ela deu um tiro que saiu pela culatra.

O novo plano de socorro se afasta da linha dura alemã e se preocupa com o desenvolvimento da Grécia, defendida pela Itália. Seria um choque de posições?

O debate entre crescimento e austeridade não pode pender para um lado ou outro. É preciso os dois. Um plano eficaz pode traçar medidas de austeridade de curto prazo para eliminar o gasto excessivo e corrigir a falha na arrecadação de impostos e, ao mesmo tempo, apontar para o futuro, estabelecendo um ritmo de crescimento e geração de empregos capaz de reconquistar a prosperidade da Grécia e da Europa.

Um artigo seu diz que "desigualdade será o protagonista de 2012". Por quê?

As pessoas que vemos na TV na Grécia, Espanha e Itália sentem que o peso do ajuste está caindo, desproporcionalmente, sobre os ombros da classe média e dos pobres. E que os ricos estão tendo oportunidades para evitar os custos de arcar com a crise. Os protestos não são uma luta contra a austeridade, e sim contra a desigualdade - a temática central de nossa era.

O ministro de Economia espanhol diz que o país "é mais capaz" que a Grécia de contornar a crise. Até quando? E Portugal e Itália?

A incerteza é o denominador comum, ainda que os países estejam em categorias distintas. O caminho será diferente para cada um de eles. Os sistemas bancário e político são diferentes. A Espanha foi mais agressiva nas reformas e fez maiores avanços. Está numa situação melhor que a Itália, que só agora começou a fazer suas reformas. Ainda não sabemos qual será a distância percorrida pelos italianos. Quando falamos de "crise europeia", jogamos países com realidades distintas no mesmo balaio. O que eles têm em comum, exceto a Alemanha, é o declínio da competitividade econômica. E precisam se mexer.

Quão eficaz é o FMI de Christine Lagarde?

Sou otimista quanto ao papel desempenhado por essa gestão do FMI na crise europeia. O papel do Fundo Monetário Internacional na crise cresceu, ele tem dado muito dinheiro para apagar esse incêndio. É um ator central, enfim. O FMI tem longa experiência com situações assim. O drama grego foi encenado inúmeras vezes ao redor do mundo. Toda vez, o FMI estava lá. Algumas vezes, estava lá cometendo erros, como na Ásia. Mas ele aprendeu e é hoje a organização mais preparada do mundo para monitorar a performance macroeconômica dos países. O FMI tem mais experiência, uma equipe mais bem treinada e mais técnica que a União Europeia.

De que forma o FMI é mais experiente?

O fundo é bem mais sensível à noção de que não se pode cortar gastos públicos em programas sociais importantes, de que o ajuste nas despesas governamentais tem de ser feito cuidadosamente, para não machucar a educação e a saúde, nem piorar a vida dos pobres ou das classes médias. Nos anos 90, o FMI era menos perspicaz nesse sentido e simplesmente vinha impor um número. "Corte 3% dos gastos. Ponto final." Não importava como a nação em crise faria o corte. O discurso mudou. Agora, o FMI senta para conversar. Diz que libera o dinheiro, mas o país não pode cortar gastos com hospitais antes de cortar gastos militares ou com contratos públicos que tenham históricos de corrupção.

O pacote prevê uma conta bancária exclusiva para o pagamento de credores externos. O dinheiro nem passa pela Grécia. Nada novo. Essa foi uma ferramenta comum para resgatar países africanos em crise econômica. No caso da Grécia, estamos falando de um Estado que, por anos, mentiu sobre suas contas. Maquiaram índices para entrar na União Europeia. O governo e os políticos gregos não têm muita credibilidade agora. Suspeita-se que não vão cumprir os termos do acordo. A conta independente é uma forma de assegurar que o dinheiro dado pela Europa não vai evaporar.

E quanto à performance do Banco Central Europeu, sob o comando de Mario Draghi?

Extraordinária. Mario Draghi é um herói silencioso dessa crise. O Banco Central Europeu tem limites para seu poder de ação e Mario Draghi tem sido criativo e inteligente ao propor ferramentas que ajudam a consertar parte da situação. O BCE não tem estofo para ser o único salvador, pois os mandatos dos bancos centrais são limitados.

O senhor diz que os Brics arriscam a maldição do "hubris", mito grego sobre como arrogantes, depois de rápida ascensão, enlouquecem e caem aos pés dos deuses. O que o Brasil deve fazer para evitar esse destino?

A maior ameaça é a complacência. Essa é uma mensagem para o governo, o setor privado, os sindicalistas, a mídia e os políticos. O sucesso recente é importante, para o Brasil e a América Latina, mas muito trabalho precisa ser feito. Por exemplo: a reforma política e a tributária. A previdência inchada me preocupa. E o Brasil precisa continuar desenvolvendo sua habilidade de competir internacionalmente, mesmo com a China no pescoço. Se o País começar a explorar o pré-sal, poderá se tornar um poder energético global. Isso precisa ser gerenciado com cuidado para evitar a corrupção e o mau uso do dinheiro do bem natural, pois, como algumas nações já descobriram, ter muito óleo não é necessariamente uma bênção. Pode ser uma maldição.

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