Democracia imatura?

Um estrangeiro que chegasse ao Brasil na noite de quinta-feira, com São Paulo e Rio, as duas maiores e mais prósperas cidades do País, em pé de guerra contra manifestantes que pediam transportes públicos melhores e mais baratos, talvez ficasse com a impressão de estar num país em que as pessoas lutavam contra uma ditadura. No entanto, hoje o Brasil é uma das democracias mais consolidadas não só no continente como entre os Brics, com instituições funcionando livremente e uma imprensa sem censura.

Juan Arias, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h11

Então, que está acontecendo com esse país até outro dia visto como uma nação economicamente sólida, quase de Primeiro Mundo, em que as forças da ordem, por determinação dos governos locais e nacional, enfrentam manifestações como se estivessem lutando contra fascistas e não contra cidadãos que exigem melhores serviços públicos, melhor educação e melhor sistema de saúde? Talvez a democracia, que se acreditava consolidada, ainda precise se fortalecer e compreender que, para ser completa, deve aceitar uma oposição leal e ouvir os gritos das ruas sem perder a cabeça.

Na quinta-feira, em São Paulo e no Rio, quem perdeu as estribeiras, estimuladas por orientações duras de seus superiores, foram as forças da ordem. De nada adianta alegar que lutavam contra "vândalos" e "infiltrados". As cenas que presenciamos demonstraram claramente que a polícia estava ali não para proteger uma manifestação legítima, e sim para que ela não se realizasse. Em vez de separar os manifestantes democráticos dos infiltrados e aproveitadores, que dão as caras em todas as manifestações do mundo, os policiais se dispuseram a impedir que eles cumprissem seu dever democrático. E houve tantos repórteres feridos como em uma guerra, ou mais. De fato, antes mesmo que tivesse início uma manifestação que começou pacífica, já haviam sido detidas 40 pessoas, muitas delas jornalistas. E, em vez de conter os infiltrados violentos, a polícia se lançou com força bruta contra os manifestantes.

Que a transformação da manifestação em batalha campal foi consequência da imperícia das forças da ordem até o prefeito Fernando Haddad reconheceu, afirmando, ainda na quinta-feira à noite, que a violência tinha sido resultado da ação da polícia contra os manifestantes. Tudo isso mostra que o Brasil, que passou dez anos sem protestos de rua, dando a seus governantes até 80% de aprovação popular, terá agora de se habituar a conviver com o contraditório da cidadania que parece ter despertado. Os governantes precisam entender que a maior exigência que os cidadãos fazem a governos que tenham gerado riquezas e diminuído a pobreza não é fascismo, mas vontade de melhorar o país.

A nova geração de jovens brasileiros que começa a despertar de sua letargia não conheceu os horrores da ditadura e goza das vantagens de uma democracia e de um bem-estar que seus pais não conheceram. Talvez por isso, por terem nascido num regime democrático, queiram um país com menos corrupção e serviços públicos que correspondam à alta carga tributária suportada pela sociedade.

Em suma, os jovens exigem dos governantes um país como o anunciado para os estrangeiros: rico em recursos naturais, com uma democracia plena, capaz de oferecer a seus cidadãos uma qualidade de vida, educação e saúde que faça jus à imagem que o país construiu de si. Uma imagem que fez do Brasil o sonho de vida de muitos estrangeiros que gostariam de trabalhar e viver aqui.

As autoridades de São Paulo e Rio tentaram passar a impressão de que as manifestações de um punhado de "vândalos" não tinham aprovação da maioria da população. No entanto, uma pesquisa realizada essa semana mostra que, em São Paulo, a maioria apoia as críticas dos manifestantes aos serviços públicos. Repórteres colheram opiniões positivas sobre as manifestações e reivindicações ouvindo passageiros que viajavam esmagados em ônibus e metrô, encharcados de suor, sem o menor conforto, ou esperando em filas asfixiantes, não para ir divertir-se, mas trabalhar.

Alguém disse que o Brasil não será o mesmo depois das noites de guerra, sobretudo em São Paulo, centro econômico e financeiro do país e seu motor industrial. Agora os governantes terão de aprender a conviver com esse contraditório que tende a consolidar-se e espalhar-se por todo o país. Terão que entender que os movimentos de protesto não podem ser reprimidos com violência, como nos tempos da ditadura.

Não é preciso doutorado em sociologia ou psicologia para saber que, quanto mais violência for usada contra os jovens, maior será a violência de sua reação. Sempre se disse que os jovens têm vocação para incendiário, até que completam 40 anos e passam a agir como bombeiro para apagar o fogo da contestação. Se movimentos de pessoas indignadas em todo o mundo fizeram amanhecer novas primaveras de esperança de mais democracia, é de se esperar que também o Brasil saia dessas manifestações de rua e protestos por causas justas mais fortalecido em sua democracia, conquistada com tanta dor, tortura e morte. Um país que encurrala seus jovens por medo de suas reivindicações é um país perdedor.

Quanto aos responsáveis por atos violentos e depredações - que são, sim, inimigos da democracia -, basta isolá-los. Tarefa que a polícia brasileira é capaz de executar com uma mão nas costas. O que o mundo não entende é que as forças da ordem enfrentem uma manifestação que se pretende democrática como se estivessem ocupando uma favela para libertá-la de bandidos. Essa é a pior imagem que o Brasil pode apresentar ao mundo hoje. O movimento dos indignados está começando. Espera-se que as autoridades aproveitem o tempo para saber separar o joio do trigo. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER  

 

* Juan Arias é correspondente do jornal espanhol El País no Brasil

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