Democracia Sexual

Na Suécia, homossexuais se casam no religioso, são militares, policiais e adotam filhos. E isso não ameaça a ordem ou a tradição

Roldão Arruda, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2010 | 15h20

 Grupos religiosos e políticos conservadores podem e vão continuar fazendo oposição às reivindicações dos homossexuais, que desejam ter seus direitos civis igualados aos dos heterossexuais. É assim mesmo, com grupos de pressão atuando em diferentes direções, que as sociedades funcionam, avançam, recuam. Chama a atenção no atual cenário, porém, a contradição aguda entre a resistência conservadora e a expansão e consolidação das modernas democracias. Inelutavelmente, quanto mais profunda a cultura democrática, maior a exigência de que o Estado trate os cidadãos de maneira igual.

 

 

 

Firmado esse ponto de vista, vale a pena observar o que vem ocorrendo na Suécia. Afinal, trata-se do país mais democrático do mundo, segundo ranking construído pela respeitada revista britânica The Economist a partir de cinco critérios básicos: o processo eleitoral e o pluralismo, as liberdades civis, o funcionamento do governo e a participação e a cultura política.

 

No ano passado, após prolongados debates e apesar da resistência da bancada dos democrata-cristãos no Parlamento, os suecos decidiram estender aos gays o direito de casamento legal e todos os benefícios sociais decorrentes desse ato. Em maio, a Igreja Luterana da Suécia, a de maior abrangência no país, agregando 77% do total de pessoas filiadas a alguma religião, também começou a realizar casamentos religiosos entre pessoas do mesmo sexo.

 

Em Estocolmo, capital desse país de 9,4 milhões de habitantes, foram realizados 40 casamentos em três meses. Um deles foi o da bispa da cidade, Eva Brunne, que já vivia com sua companheira havia dez anos. "Não se pode ler a Bíblia hoje com os mesmos olhos e os mesmos conceitos de 2 mil anos atrás", disse ela ao Estado, ao apresentar as razões que levaram o conselho de bispos de sua igreja a aceitar o casamento gay. A igreja tem uma influência cada vez menor na Suécia. Eva Brunne estima que a cada ano o número de fiéis diminui 1%.

 

O que se destaca é o fato de os suecos discutirem e tratarem a questão dos gays e de outros grupos sociais sob o foco dos direitos civis. É isso o que explica o fato de o primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt, do Partido Moderado, ter ido à Parada do Orgulho Gay, que reuniu milhares de pessoas em Estocolmo no domingo passado. Seu partido mandou um bloco de militantes ao evento, assim como fizeram o Partido Liberal, o Verde e outros grupos políticos.

 

Eles desfilam na abertura da parada, ao lado de outros grupos representando os diversos setores da sociedade. Entre os mais aplaudidos no domingo estavam os blocos das Forças Armadas suecas e o da polícia.

 

De acordo com o sargento Christer Wemerhalm, dirigente da associação dos policiais gays de Estocolmo, as autoridades de seu país compreenderam que os policiais e militares assumidos podem prestar melhores serviços que os enrustidos. E por isso não dificultam sua permanência no serviço. "Se você está certo sobre você mesmo, se não precisa esconder o que é, nem se envergonhar, é mais fácil realizar seu trabalho, seja dele qual for", disse Wemerhalm, que é casado com um enfermeiro.

 

O grupo mais festejado da parada foi o dos pais que manifestam orgulho dos filhos gays. O mais surpreendente, o dos gays com carrinhos de nenê, dezenas deles - adotados ou gestados em barrigas de aluguel, com suporte dos benefícios sociais do Estado.

 

Nada indica que essas mudanças estejam ameaçando a ordem, o parlamentarismo ou as tradições. A família real continua firme e sem nenhum poder em seu palácio residencial nos arredores da capital. A Fundação Nobel escolhe e premia anualmente as melhores cabeças do planeta. Os casais heterossexuais procriam normalmente, até num ritmo maior que de seus vizinhos: a taxa de fertilidade sueca é das mais altas da Europa.

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