Depois da orgia do consumo

Os americanos terão de poupar. E essa deve ser uma das tônicas da administração Obama

Stephen S. Roach*, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 21h27

Para o consumidor americano o jogo acabou. Os gastos com o consumo pessoal corrigidos pela inflação poderão apresentar - coisa muito rara - declínios trimestrais consecutivos no segundo semestre de 2008, a uma taxa média anual de 3,5%. Houve apenas quatro outros casos semelhantes, desde 1950, em que a demanda real de consumo caiu por dois trimestres seguidos. Esta é a primeira vez em que os declínios em ambos os trimestres ultrapassaram 3%. Essa brusca queda dos gastos não tem precedentes na era moderna.A boa notícia foram as filas bem mais curtas no "primeiro dia de compras" da temporada de fim de ano. As más notícias são menos agradáveis: aumento do desemprego, redução da renda, queda do valor dos imóveis residenciais, bolsas em declínio, endividamento recorde das famílias e um terrível aperto do crédito. Entretanto, em tudo isto há um sentido mais profundo, possivelmente positivo: agora os consumidores estão deixando de gastar com recursos baseados em ativos, abandonando as estratégias de poupança adotadas durante as bolhas dos últimos dez anos e voltando a um estilo de vida mais prudente, contando apenas com sua renda efetiva.Trata-se de uma correção dolorosa, porém necessária. Desde meados da década de 90, o vigoroso crescimento do consumo americano ultrapassou consideravelmente os ganhos abaixo da média da renda familiar. Isso levou a um persistente declínio da poupança pessoal. Em termos de parcela da renda disponível, a taxa da poupança pessoal caiu de 5,7% no início de 1995, para quase zero de 2005 a 2007.Na época em que os mercados de ativos operavam sem qualquer controle, os consumidores americanos não tinham escrúpulos em dilapidar suas poupanças e gastar além de suas possibilidades. Imaginava-se que a valorização dos ativos - carteiras de ações e, principalmente, imóveis residenciais - seria mais do que suficiente para cobrir a diferença. Mas à medida que a maioria das bolhas de ativos foi estourando, os 77 milhões de americanos da geração dos anos 50 subitamente se defrontaram com a perspectiva de uma aposentadoria sem economias.O que é pior, milhões de proprietários de habitações usaram suas casas como garantia para fazer empréstimos para a compra de novas casas. Segundo cálculos do Federal Reserve (Fed, banco central americano), o refinanciamento das hipotecas proporcionou ganhos na diferença, de maneira que a renda disponível subiu de 3%, em 2000, para quase 9% em 2006. Esta nova fonte de recursos foi fundamental para o seu poder aquisitivo e lhes permitiu sustentar um festival descontrolado de consumo.Conseqüentemente, até o final de 2007, a dívida das famílias havia alcançado um recorde de 133% da renda pessoal disponível - um salto enorme em relação à média de endividamento de 90% de dez anos antes.Ao cruzar um tempo de alta sem limite no preço das habitações e de crédito extremamente barato, poucos achavam que não seria prudente fazer empréstimos dando a própria casa como garantia. Mas, agora, na conjuntura atual de queda dos preços dos imóveis residenciais, de mercados de crédito congelados, de aumento do desemprego e de renda cada vez menor, é possível ver como aquela estratégia fracassou por completo. Não surpreende que o consumo tenha caído de maneira tão acentuada.Dez anos de gastança excessiva puxaram os gastos com consumo nos EUA para 72% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2007, um recorde para qualquer economia poderosa da história moderna. Com uma parcela tão expressiva da economia agora em declínio, não há como descartar uma depressão profunda e prolongada. A expansão consumista, que chegou a perto de 4% ao ano nos últimos 14 anos, poderá baixar para 1 a 2% nos próximos três a cinco anos.Depois das bolhas, os EUA precisam de um conjunto de medidas muito diferente para a sua economia. Seria um grave erro adotar cortes de impostos para aumentar um consumo já excessivo. Os americanos precisam economizar. Eles não precisam de mais uma TV de tela plana fabricada na China.O governo Obama deveria logo estimular algum tipo de poupança que permita aos consumidores alcançar uma situação financeira mais saudável. Além de liberar recursos para investimentos que deveriam ter sido feitos há muito, muito tempo na infra-estrutura dos transportes, em energia alternativa, educação, formação de trabalhadores e coisas do gênero. Esta estratégia não só criaria empregos, mas também reduziria a dependência dos EUA da poupança externa e das importações. Ajudaria a diminuir o déficit de conta corrente e os pesados empréstimos externos acarretados pelos desequilíbrios fiscais.Não é preciso reinventar a roda para formular políticas eficientes de estímulo à poupança: os recursos devem sair dos salários dos americanos. Isso pode ser feito mediante incentivos - ampliação dos programas de redução dos salários e das contas de aposentadoria - ou pode vir como imposto do governo, por exemplo, através do aumento das contribuições à Seguridade Social. Importante diferenciar dois momentos: enquanto a economia permanecer na recessão deveria ser excluído todo aumento de impostos associado a iniciativas de poupança obrigatória. No entanto, quando a situação melhorar , valerá a pena reconsiderar a questão. A política fiscal deve ter também como objetivo reforçar a renda dos trabalhadores da classe média recém-desempregados - particularmente a ampliação do seguro desemprego e dos programas de reciclagem da mão-de-obra. Será necessária uma distinção crucial entre a assistência às vítimas inocentes da recessão e políticas mal elaboradas visando a perpetuar uma orgia de consumo insustentável.As crises são fundamentais para que se aprendam as lições tiradas de experiências dolorosas. Agora os Estados Unidos não podem pôr a perder esta oportunidade. O consumo desenfreado deve dar lugar a uma nova visão da poupança e dos investimentos. Esta é a maior esperança para a recuperação econômica e para a prosperidade americana num prazo mais longo. *Stephen S. Roach é presidente do conselho do grupo Morgan Stanley para a Ásia. Publicou originalmente este artigo no The New York Times

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