Denise Andrade/Estadão
Denise Andrade/Estadão

Depois daquele beijo

O gesto maldito não é a ‘traição’, mas as fotos de um espreitador que vive da intimidade alheia

Debora Diniz, O Estado de S. Paulo

15 Novembro 2014 | 16h00

 

Não, o beijo não era uma piada. Marcelo Adnet acreditou disfarçar-se na escuridão. Era madrugada, divertia-se com os amigos em um bar, deu uma escapulida sem explicações, voltou em seguida. Não havia tormento no escondidinho, o comediante só não imaginou quanto o prazer viraria pesadelo. Em uma esquina perdida, aconchegou-se a uma outra que não Dani Calabresa. De perto-longe, um bisbilhoteiro vigiava o que deveria ter sido segredo. O feito recebeu o nome de traição, as fotos foram furo e manchete de portal de notícias. O tema viajou o espaço das redes sociais e ganhou a corrida pelos assuntos mais comentados. O casal é famoso, faz rir, é conhecido de todos. A proximidade é tanta que nos achamos íntimos para julgar vida alheia, discutimos como devem ser os casais ou o casamento. Teoriza-se até o amor.

Eu não sei o que é traição, esse tema que nem o dicionário ou a lei explicam para quem vive no duplicado. Ser um casal é ter lei própria e dicionário amoroso particular. Sei menos ainda por que um beijo é manchete de notícias, tema de redes sociais, argumento para teses sobre casamento e sentidos da vida. Talvez porque os dois sejam um casal famoso, daqueles que afugentam a tristeza e animam a felicidade pelo riso. Os dois são celebridades, diz o novo léxico. Preciso confessar: não sou assistente de televisão, nunca ri das piadas do casal atormentado, mas estou convencida de que a humanidade melhora quando há gente que trabalha pelo riso. Juntos ou separados, os dois merecem meu respeito. Por isso, ensaio entender o ocorrido, repito, não a traição, coisa desconhecida, mas o escândalo do beijo escondido.

Dani Calabresa olhou para todos nós e se exibiu. Fez texto e gesto na resposta. Saiu da bancada de seu programa de televisão, esticou a espinha, mexeu os cabelos louros e preparou-se para desdenhar a fofoca. A pele branca não corou, a voz não afinou para pronunciar o que esperávamos ser dor escondida. Sem lágrimas, mas com um pouco de raiva, não falou da outra. Rejeitou a vergonha como sua, comportou-se como atriz do próprio escândalo. Banalizou o feito do marido, e fazendo um simulacro do visto nas fotos da esquina, beijou um colega de bancada. O gesto é poderoso, só não sei se eficiente para acalmar os vigilantes da moral. Ao beijar sem a proteção da escuridão, ela escancarou o sem sentido - o que é um beijo em outro que não o marido? 

Essa é a pergunta inquietante. O caso é uma tolice, nada de “situação complicada”, como anunciou quem primeiro divulgou as fotos. Importante é entender a teimosia em comentar, fuxicar e atazanar a vida privada dos outros. Nem me arrisco a fazer histórias de origens sobre esse prazer de olhar pelo buraco da fechadura a cama dos outros, mas as mídias sociais explodiram essa pulsão. A intimidade dos vizinhos, sejam eles de porta ou de mensagem, é repleta de fendas para serem bisbilhotadas. O que se passa na escuridão do quarto ou da esquina passou a ser matéria pública. E, estranhamente, matéria publicada. Por isso, Marcelo Adnet pediu desculpas para todos nós, a mãe saiu em defesa de um marmanjo de 34 anos e Dani Calabresa fez-se atriz para encerrar o assunto.

Preciso confessar. Eu mesma entrei na página de Marcelo Adnet e tomei nota dos comentários abusados. Não fiz por curiosidade sobre o dia seguinte do casal, mas para ouvir a multidão que tanto mexericou o tema. Havia gente e texto de todo tipo, mas espanto mesmo me causaram os que declararam “apoio” a um dos lados ou ao casal. Apoio? Me atarantei pensando sobre como podemos declarar apoio à vida privada de alguém. Apoiamos uma causa política, se posso indicar um bom uso do verbo. Certamente pode ser uma pobreza vocabular o emprego do termo, até mesmo porque não posso negar que os comentários eram de gente com muita pressa ou sem intimidade com a gramática. 

Mas, vamos lá, “apoio” foi a palavra de ordem. Houve os que declaravam apoio à coragem de Dani Calabresa de caçoar da fofoca e desafiar a moral puritana na mesma moeda do marido. Algo como “se ele pode, eu também posso; se ele beija, eu também beijo”. Pode ser, mas como a mulher é comediante, todo texto é alegoria. Assim, fiz do beijo de Dani Calabresa outra mensagem: a da banalidade do beijo infiel para a moral que espreita. Outros deram apoio a Marcelo Adnet e aqui houve coro. O principal murmúrio foi de solidariedade de machos: “Jogue a pedra quem nunca escapuliu” era o mantra das vozes masculinas. Um apoio de torcida organizada, a torcida de homens fracos e poderosos quando o assunto é beijação em mulher bonita.

Talvez no mantra macho esteja a melhor pista sobre o escândalo dos beijoqueiros. A desordem foi o desvelamento da falsa moral puritana: casamento, heterossexualidade, filhos, família, amor, monogamia, fidelidade, uma salada de expectativas e dogmas que só servem para serem ultrajados. As certezas de como se deve viver o encontro afetivo e sexual são cotidianamente abandonadas, mas bom mesmo é quando celebridades cômicas fazem do real palco para os segredos mais íntimos. É a moral puritana que faz do beijo escondido manchete nacional, e ao se exibir com tamanha gritaria termina por se ridicularizar. É o ridículo da moral o exposto pelo beijo proibido. 

Fui audiência da performance de Dani Calabresa no beijo de desdém à falação. Ouvi e vi o efeito da desgraça das fotos em sua vida amorosa. Ela anunciou o perdão ao marido para multidão desconhecida, inclusive para mim, que ainda espero rir de seu humor. Aqui importa detalhar o que remexo - o gesto maldito não foi o beijo, mas as fotos de um espreitador que sobrevive da intimidade alheia. As fotos mostram a paciência de um malfeitor em ataque. São atos de um escândalo visual: Marcelo Adnet no bar, em seguida caminhando pela rua escura, e o ápice, quando se embrenha com a outra em uma esquina.

Dizem os economistas que se há oferta é porque há demanda. Tese fácil para explicar o ofício medonho do espreitador: vive como urubu em busca de carniça. Mas há multidão à espera da vida privada na forma de carniça. Não foi o caso, mas imaginem, para esquentar o roteiro do escândalo, se o marido famoso tivesse se apertado na esquina com outro sobrancelhudo? Não seria só traição o tema da manchete, mas a saída do armário de um representante da ordem masculina. Duvido que o coro dos machos se movesse solidário. Enquanto o tipo for um pegador de mulher bonita, haverá solidariedade; muito diferente se for um vira-casaca da ordem sexual.

Não é só das redes sociais que se alimenta o escândalo do beijo. É também do regime da imagem como prova. A notícia da esquina foi breve, o rebuliço foram as fotos. Elas mais parecem fotonovela do passado. Em uma história recente, o mexerico era contado ao pé do ouvido, depois de visto por alguém que se apresentava como testemunha. Era preciso acreditar na voz da comadre fofoqueira da janela ou do padre falador da paróquia. A ordem da fofoca se alterou: agora somos todos testemunhas das fotos da esquina, todos audiência da vida privada dos outros. O espreitador não nos permite duvidar, não descansa enquanto não oferece provas do escândalo. Por isso, o pedido de perdão é dever público. Todos devemos perdoar Marcelo Adnet e acalentar Dani Calabresa.

As imagens são prova e show: atestam a realidade do rumor e nos transformam em audiência da intimidade alheia. Felizmente, há usos mais nobres da imagem no universo noticioso. Sensibilizo-me com os fotojornalistas cuja arte e coragem tanto admiro. Embrenham-se em frentes de guerra para nos provar a miséria humana, percorrem o planeta-mundo para nos mostrar a beleza que jamais veremos. O espreitador da esquina não é um fotojornalista, mas um paparazzo. Adoro a palavra, ela me protege de reconhecer nesse sujeito alguém familiar. O espreitador vende uma mercadoria anterior às redes sociais: a prova da fofoca. Ele é a comadre da janela com uma máquina fotográfica, atualizou-se apenas com a tecnologia.

O estranho é ser um beijo ainda objeto de demanda nessa vasta oferta de bens fuxiqueiros. Abandono a ironia e retomo a polidez: como pode ser um beijo mercadoria visual e noticiosa? Qualquer beijo deveria ser ridículo como notícia, de Marcelo Adnet em Dani Calabresa, dele em uma loura anônima ou em um sobrancelhudo que fantasio. Até entendo que um beijo da realeza em público possa vender jornais, ainda mais se for um beijo gay do rei de um grande império. Um rei é figura criada para ser admirada, alguém diferente dessa miríade de celebridades, sempre no plural e transitória. Rei não foi feito para ter privacidade, celebridade reclama a sua.

Michel Foucault fez uma história própria da sexualidade no Ocidente. A melhor parte da fábula foi mostrar que o sexo é tema de muita falação, por isso mesmo, segredado. Se há razão na tese, a de que fuxicamos porque o palavrório sobre sexo é intenso, o beijo escapulido do marido começa a ser entendido. Marcelo Adnet representa outros homens e mulheres que vivem o amor, sustentam a monogamia, escapolem-se por aí, pedem perdão e vivem a vida no duplicado, como uma família feliz. A diferença é que os segredos da multidão não fazem notícia.

É assim que sinto compaixão pela exposição de uma dor que deveria ser acalmada na casa. E, para ser mais precisa: nem sei mesmo se há dor, pois desconheço como Marcelo Adnet e Dani Calabresa descrevem o beijo da esquina. Se escrevo sobre o escândalo, é para reafirmar que isso tudo é uma tolice, a tolice do tabu do sexo. A sexualidade é um grande enredo de verdades tolas que nos atormentam e fazem sofrer. O beijo é manchete porque o sexo é ainda um esconderijo - um monte de certezas não vividas nem no duplo nem na solidão.

O escândalo reafirma o tabu do sexo, não é forte para perturbá-lo. No escondido está a confusão entre traição, fidelidade, lealdade e outras teses sobre como duplicar-se no amor ou sexo. Todos termos ambíguos, mas há um deles que importa para a conversa sobre nós mesmos, nossos afetos e os dos outros: a integridade de viver como se acredita os amores e as desavenças. Por isso, o perdão público é mais do que um pedido de respeito à intimidade, é um retorno ao dicionário amoroso particular. O verdadeiro espanto seria se, após o abuso do espreitador, nosso texto não fosse sobre o beijo escondido na esquina, mas de crítica ao violador de intimidades.

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Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do ANIS - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero

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