Depois de tanto tempo

Quando beleza não se fabricava, ela se impôs; agora reassume o topo depois de quase 30 anos

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2008 | 15h21

Luiza caminha pela casa. De salto, ela é alta. Sorri. O vestido branco e solto bate pelos joelhos. Os cabelos estão molhados do banho. Não usa maquiagem. A pele é de um moreno tostado por décadas de praia, interrompido apenas pelos pontos brancos do vitiligo nas mãos. Há um certo viço da juventude que foi perdido, a pele opaca quase acusa rugas. Luíza tem 45 anos. Senta na ponta do sofá branco e não se recosta. Cruza as pernas e apóia as mãos nos joelhos. Uma mulher linda. Exuberante. Aí fala.Na primeira vez em que entrou no prédio da antiga revista Manchete tinha 17 anos. Queria conhecer a manequim Rose di Primo. É assim que chamavam as modelos: manequim. Luiza Brunet era uma menina de quatro calças jeans no armário e umas poucas camisetas. Roberto Barreira, um dos jornalistas dali, pôs os olhos nela. "O que você está fazendo amanhã?", ele perguntou. Era para fazer um ensaio. Ela queria. Ele arranjou umas calcinhas, uns sutiãs. A menina linda virou modelo. E suas primeiras fotos foram em roupas íntimas.Luiza Botelho da Silva nasceu no Mato Grosso em 24 de maio de 1962. O pai era cearense, a mãe do interior do Rio - os dois muito pobres, aquela terra sem gente talvez desse futuro. A mãe, de lenço na cabeça, varria, cozinhava, passava. Moravam numa casinha em sítio de outros. O pai batia café o dia todo. Tiveram oito filhos, um por ano, Luiza foi a segunda. Um dos meninos morreu com ano e meio. Coqueluche. "Minha mãe enlouqueceu", ela lembra. "Eu era muito pequena. Ela fazia chazinho, chazinho, ele não melhorava de jeito nenhum." Outro bebê morreu cinco dias após nascer.Luiza tinha 7 anos quando a família se mudou para o Rio de Janeiro. Inhaúma, zona norte, subúrbio longínquo. Aos 12 foi trabalhar em casa de família. À noite, estudava. Mudaram-se para Pilares - menos longe do centro, um apartamentozinho próximo da linha férrea que tremia todo quando o trem passava. Tinha 15 quando virou vendedora. Pulou de lojinha em lojinha, a cada vez que o novo patrão tentava algo. Um dia, acabou o gás na casa. A mãe mandou-a pedir dinheiro ao pai, que trabalhava no bar de um posto de gasolina - e tinha um rapaz bonito, ali no balcão, bebendo Coca-Cola. A menina só olhou. Quando voltou para casa à noite, o rapaz estava sentado no sofá, junto de seus pais. Chamava-se Gumercindo Brunet. Era filho do patrão do pai. Seria seu primeiro marido.Ela dá uma pausa. O telefone não pára de tocar. Luiza o ignora. "Essa época de carnaval fica tudo mais agitado." Sairá de madrinha da bateria da Imperatriz Leopoldinense. "Desde os tempos em que eu era modelo da Dijon, mantenho um clipping de tudo que sai sobre mim na imprensa. Neste último ano, não sei o que houve. Voltou a sair muito mais coisa."Há quatro meses, Luiza se separou de Armando Fernandez, empresário, vendedor de artes e antigüidades, argentino, seu marido por 24 anos, pai de Yasmin, de 19, e Antonio, de 8. "Gosto de estar sozinha", ela diz. "Quero curtir a solidão um pouco." Poucos meses antes, voltara a posar nua, para um livro do excêntrico fotógrafo americano Terry Richardson. Em janeiro de 2007, desfilou na São Paulo Fashion Week, chamando a atenção. Estava em forma. Era a mesma. Quase: emagreceu sete quilos para reaparecer. As revistas de beleza a queriam de volta: qual a dieta? Quais os segredos? Os exercícios? A Playboy quer Luiza. "Já fiz isso, nudez. Já fiz muito. Não me atrai. Mas faço. Se me oferecerem um bom dinheiro."Após o casamento, Gumercindo a levou para atravessar o Túnel Rebouças que separa o Rio da zona norte daquele da zona sul. Uma menina deslumbrante, jovem que só, vivendo aquele turbilhão de mudanças. Quis ser cabeleireira, tinha já emprego acertado. Mas veio Manchete, um ensaio após o outro nas revistas da editora Bloch, e seu Adolfo pediu que ela subisse ao último andar.Naquele 1979, Adolfo Bloch tinha 71 anos, era um barão da imprensa. "Quando ele precisava que eu posasse nua, sempre me chamava para pedir pessoalmente." Só de Manchete, foram 50 capas. "Se capa não tem papa, se não tem Luiza Brunet", ele costumava dizer, o sotaque iídiche carregado, "Manchete não vende." Revistas com nudez feminina eram novidade no Brasil de 1979. Luiza tinha ainda 17 quando apareceu pela primeira vez na EleEla da Bloch. "Uma vez", ela vai dizendo e o sorriso vai abrindo, "ele me chamou lá pra cima, ?Luiza, preciso que você faça uma matéria na EleEla? e eu disse tudo bem, seu Adolfo, ?mas eu estar sem dinheiro?, e ?sem você não vende?, e aí posei nua de graça." Ela se ri. "Senti pena." Sente ternura pelo barão "sem dinheiro".Luiza Brunet foi a primeira top model brasileira. Humberto Saad, o empresário que trouxe para o País os jeans colantes para sua Dijon, ficou fascinado com a idéia americana de que uma marca pudesse ser representada em toda propaganda por um só rosto. Luiza virou top model Dijon, exclusiva, sempre abraçada a Saad nas propagandas, nua da cintura para cima, escondendo os seios. E assim nunca mais se falou a palavra manequim no Brasil.O casamento com Gumercindo durou cinco anos. Estava recém-separada quando foi parar por acaso no aniversário de Armando Fernandez. Ele fazia 35 anos. Em quatro meses moravam juntos. Madrinha da seleção de 1982, capas várias - ela atravessou a década de 80 como uma das mulheres mais desejadas do País. Teve Yasmin trabalhando e, sem babá, alternou-se entre estúdios e fraldas. Lentamente, apenas muito lentamente, em finais do último século ela foi desaparecendo das páginas. "Não é tanto que eu tenha saído", ela diz, e há em sua voz uma mistura de humor e melancolia, "é que vão te saindo."O cenário foi o Copacabana Palace. Luiza soube de Terry Richardson, de seu trabalho, por Yasmin. "Quero fotografar com ele, mãe." A mãe passou os olhos pelo site: "Mas ele é um pouco ousado, filha".Luiza acende um cigarro. Não calcula as palavras mas, conforme conta sua história, cultiva pausas. Quase duas horas de conversa e se mantém ao sofá, pernas cruzadas - ainda dispensa o encosto. As mãos flutuam em gestos que pontuam a fala, o rosto vai do sério ao sorriso. Aí volta. "Essa é a profissão da Yasmin. É modelo. Tem que ousar."Chegaram as duas juntas à suíte do Copa. Richardson estava fazendo um livro sobre o Rio, quis Luiza - e a mãe, que sabia da vontade de posar para ele da filha, levou-a junto. Luiza Brunet se despiu, ficou só de calcinha. "Abaixa", disse o fotógrafo. Ela abaixou. Sem maquiagem ou Photoshop. "Ele mostra essa coisa grotesca do corpo humano." Yasmin também se despiu, a mesma pose da mãe. Luiza conta séria. Não deixa transparecer emoção. "Foi a coisa mais ousada que fiz na carreira. Mãe e filha. Mesma pose."Quando chegou em casa, Armando disse: "Você é maluca".A janela de seu apartamento em Ipanema atravessa a sala de uma ponta a outra e encara o Oceano Atlântico. A sala é ampla, sem paredes, dividida em três ambientes pelos móveis - sofá e poltronas, sofá e televisão, a mesa de escritório. É um dia bonito de verão carioca. "Às vezes, falo pra Yasmin: aproveita mais. Nunca fiz um diário de viagem. Não sabia que era importante. Hoje, tem lugares nos quais estive e não lembro mais. Não tive pai rico. Não pude estudar fora, ter essa vida que ela tem. Yasmin vai pra Londres, trabalha, volta pra casa. Dorme e trabalha. A primeira viagem que fiz com o Armando, a gente comprou um Peugeot caindo aos pedaços e atravessou a Europa. Lembro tão pouco. Yasmin não aproveita."Luiza suspira."A coisa que mudou mais é que a gente não planejava. Eu não quis ser modelo. Hoje, as meninas querem ser famosas, vão pra academia, fazem cirurgia. A gente era mais amador, sabe?"Luiza aos 45 periga ser a maior estrela do carnaval 2008. IRMÃO"Minha mãe enlouqueceu. Ela dava chazinho, ele não melhorava. Aí, morreu"MEMÓRIA"Nunca fiz um diário de viagem. Era importante. Hoje, não lembro o que vivi"ENTRESSAFRA"Não é que eu tenha saído de moda. Com o tempo, fui sendo saída, mesmo"

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