Desastres do pôquer polonês

Há 70 anos, franceses e ingleses curvavam-se diante de Hitler, que com um simples par na mão, blefou e levou

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2009 | 15h00

Na próxima quinta-feira, antigos aliados contra a Alemanha nazista recordarão os 70 anos do maior conflito armado do século passado. Os poloneses farão a mesma coisa na terça. Os poloneses é que estão certos: a guerra não começou em 3 de setembro de 1939, ao contrário do que ainda se lê em livros didáticos britânicos. Naquele dia, franceses, ingleses, australianos e neozelandeses apenas chamaram o 3º Reich para a briga, pela invasão da Polônia, ocorrida dois dias antes.

 

INCÔMODAS LEMBRANÇAS – Não há mais dúvidas de que Hitler e Stalin uniram-se no ataque à Polônia, em setembro de 1939, e dividiram o butim

 

Mas, por qualquer balizamento, esta é a semana dos 70 anos da 2ª Guerra Mundial, aquela que, a rigor, teve início em 23 de agosto, com a assinatura do Pacto Ribbentrop-Molotov, e só terminaria depois de 1989, já com outro nome (Guerra Fria) - mas isso é outra história, outra controvérsia, a ser ressuscitada em 2015.

 

Para os lituanos, por exemplo, os 70 anos caíram em março, pois foi em março de 1939 que Hitler tomou Klaipeda, no Mar Báltico; e, para albaneses e italianos, em abril, por conta da invasão da Albânia pelas tropas de Mussolini. Para japoneses e chineses, a guerra, a contar desde a invasão da Mandchúria pelos japoneses, já teria, no mínimo, 78 anos. Os americanos só entraram nela em dezembro de 1941, depois do ataque japonês a Pearl Harbor. Os russos também fecham com 1941, como se a União Soviética tivesse se mantido neutra antes de ser atacada pela Wehrmacht (o Exército nazista) e nenhum pacto de não-agressão tivesse sido assinado entre Stalin e Hitler.

 

O conflito armado, propriamente dito, começou às 4h45 de 1º de setembro de 1939, quando o cruzador alemão Schleswig-Holstein, em visita de cortesia ao porto de Danzig (atual Gdansk), sem mais nem menos abriu fogo contra o forte polonês de Westerplatte. Já com o sol nascendo, a Wehrmacht cruzou as fronteiras da Polônia. Um ato de guerra inquestionável. Estava aberto o Corredor Polonês.

 

No dia 3, França e Reino Unido declararam guerra ao 3º Reich, mas ficaram nisso. Os franceses, com um efetivo militar maior que o nazista, poderiam ter invadido o oeste da Alemanha, mas não o fizeram. Os ingleses, cujo Exército era bem menor que o polonês, tampouco se mexeram. Um encontro anglo-francês, em 12 de setembro, decidiu que a Polônia não receberia apoio.

 

Franceses e ingleses cometeram pelo menos dois desatinos vis-à-vis Hitler. Cederam-lhe, em Munique, a anexação dos Sudetos (na Checoslováquia), crentes que sua ganância territorial se daria por satisfeita. A invasão da Polônia pegou-os no contrapé: além de recearem que uma luta no continente europeu pudesse comprometer a segurança de seus impérios, pressões de outra sorte, sobretudo econômicas, os levaram a curvar-se duas vezes diante dos alemães. Tudo como previra Hitler no Memorando Hossbach, em novembro de 1937. Não fazia parte de seu projeto expansionista lutar contra França e Inglaterra já em 1939, somente a partir de 1941. Tinha só um par de valetes na mão, blefou, e levou.

 

Os poloneses resistiram durante quatro semanas. Poderiam ter brecado a invasão, se franceses e britânicos não lhes tivessem pedido para atrasar a mobilização de tropas na fronteira com a Alemanha, "para não provocar Hitler". Se quem cala consente, quem se encolhe é conivente.

 

Hitler não foi o único culpado pela 2ª Guerra Mundial. Essa tese, levantada há quase meio século por A.J.P. Taylor, para espanto de muita gente que o acusou, injustamente, de livrar a cara da Alemanha nazista, teve o condão de estimular uma série, aparentemente infindável, de estudos originais e reveladores sobre a guerra, sem as limitações do que Taylor chamava de "Consenso de Nuremberg". Ainda que discordando dele aqui e ali, Norman Davies, Richard Overy, Antony Beevor, Constantine Pleshakov, Mark Mazower e Adam Tooze continuaram sua obra.

 

Beneficiados pelo acesso a arquivos antes inacessíveis, esses e outros historiadores ampliaram amplamente nosso entendimento da 2ª Guerra, colocando-a sob novas perspectivas. Tooze, por exemplo, constatou insuspeitadas razões econômicas (problemas na balança comercial e no balanço de pagamentos) por trás do Lebensraum (a busca por espaço vital) nazista. Hitler teve de correr contra o tempo - e rever o previsto no Memorando Hossbach - para evitar que a crise econômica e os protestos sociais tornassem seus esforços inúteis.

 

Sem aliviar a cumplicidade dos Aliados no conflito, Beevor, Overy, Davies, Pleshakov, mas não apenas estes, centraram suas análises no maior parceiro de Hitler em 1939: a União Soviética. Desde os primeiros anos da Revolução, ainda com Lenin no poder, os soviéticos sonhavam com internacionalizar o movimento comunista através da Alemanha. No verão de 1920, o Exército Vermelho rumou para Berlim, mas não pôde ir além de Varsóvia: os poloneses lhe aplicaram uma sova. E Lenin viu-se obrigado a congelar suas ambições internacionalistas. A observação é de Davies: "Mesmo nos anos 1920 ou 1930, um analista presciente poderia muito bem ter determinado onde o próximo grande choque de armas europeu se concentraria".

 

Não há mais dúvidas de que Hitler e Stalin juntaram suas forças no ataque à Polônia, em setembro de 1939, e dividiram o butim. Tudo combinado no Pacto Ribbentrop-Molotov. Os russos só demoraram um pouco a chegar porque precisavam de acertar uma trégua com os japoneses, na Mongólia. No fim de setembro, o Exército Vermelho atingiu o centro da Polônia. Em Llow, encontrou-se com a Wehrmacht. Em várias cidades polonesas, soviéticos e nazistas desfilaram juntos, como aliados, o que de fato foram até 1941, quando a Operação Barbarossa levou até a Rússia a belicosidade nazista.

 

Os russos não gostam de ser lembrados desse interlúdio, daí porque só comemoram o fim da guerra. Nem assim, contudo, conseguiram livrar-se de outros fantasmas: as deportações, pilhagens, estupros e massacres em massa comandados pelos soldados soviéticos nas zonas invadidas, por ordem expressa de Stalin, tenebrosas revelações que só vieram à baila na década passada. Por ordem expressa de Gorbachev.

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