Descentralizar ainda é a melhor resposta

Um ataque eficaz à ameaça dinâmica e aleatória que é a gripe exige centros de reação ágeis e adaptados a cada país

David Brooks, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h45

Nestes dias pós-Guerra Fria, não nos deparamos com uma ameaça concentrada, única, mas com uma série de ameaças descentralizadas, transnacionais: o terrorismo jihadista, uma crise financeira global, aquecimento global, escassez de energia, proliferação nuclear e, como acabam de nos lembrar, uma possível pandemia de gripe suína.

As ameaças descentralizadas são uma decorrência da ampla difusão e do ritmo acelerado da globalização e são por ela amplificadas. Comunicações globais instantâneas e rápidas viagens internacionais às vezes podem levar a choques sistêmicos, universais. O derretimento de um banco ou a ação de um vírus não são fenômenos isolados. Eles têm potencial para atingir praticamente todo lugar e de forma imediata, podendo abalar as estruturas de complexos sistemas internacionais.

Então, como devemos tratar essas situações? Deveremos criar instituições centralizadas globais suficientemente sólidas para responder a ameaças transnacionais? Ou confiaremos em comunidades e Estados-Nações diversificados e descentralizados?

Há alguns anos, G. John Ikenberry, de Princeton, escreveu um ensaio soberbo em que defendia a resposta centralizada. Ele argumentava que, para solucionar os problemas globais, os Estados Unidos deveriam contribuir para criar uma série de instituições multinacionais. As grandes potências deveriam montar uma "infraestrutura de cooperação internacional ... criando técnicas que seriam compartilhadas e permitiriam reagir a uma ampla variedade de contingências".

Se aplicarmos essa lógica à gripe suína, poderemos dizer que o mundo deveria ampliar as atribuições da Organização Mundial da Saúde, conferindo-lhe poderes para analisar a propagação da doença, decidir quando e onde as quarentenas são necessárias e organizar uma resposta global unificada.

É verdade que, se dispuséssemos de um organismo desse tipo, não testemunharíamos os atritos que começam a surgir em razão da atual estratégia descentralizada. A Europa ofendeu os EUA alertando seus cidadãos a não cruzarem o Atlântico; a Ucrânia decidiu restringir as importações de suínos; a Europa poderá armazenar as vacinas contra a gripe, deixando os EUA, que têm uma única indústria do gênero, em má situação. O temor de uma pandemia poderá provocar uma série de medidas restritivas, porque as nações entrarão em competição para reduzir a movimentação das pessoas e construir muros.

Esses perigos são reais. Entretanto, até o momento, não é essa a lição que devemos tirar da crise. A resposta à gripe suína sugere que, neste caso, a melhor estratégia é a da descentralização. Esta crise eclodiu há apenas alguns dias e, no entanto, já houve uma resposta agressiva, que atacou o problema em seus fundamentos.

Em primeiro lugar, a estratégia descentralizada permite atuar muito mais rapidamente. O México respondeu de maneira unilateral e agressiva, fechando escolas e cancelando eventos. Os EUA também agiram com espantosa rapidez, considerando que havia poucos casos confirmados da doença e, até sexta, só uma hospitalização.

The New York Times publicou a foto (reproduzida abaixo) do inspetor da saúde da cidade de Nova York, dr. Thomas R. Frieden, chefiando uma reunião para decidir como enfrentar a crise. A foto é a verdadeira imagem de uma resposta local, orientada. Os participantes, apesar das roupas informais do dia-a-dia, estão profundamente concentrados nos fatos que ocorrem no próprio quintal.

Se a resposta fosse coordenada por uma agência global, essas autoridades locais não teriam tanto poder de decisão. Esse poder seria exercido por autoridades de países muito distantes, geográfica e emocionalmente, do marco zero. A agência teria que selecionar seus membros, resolver as divergências internas e avançar, como ocorre com as multinacionais, seguindo o ritmo dos discordantes e dos recalcitrantes.

Em segundo lugar, o enfoque descentralizado é mais confiável. É da natureza humana o fato de, em tempos de crise, as pessoas gostarem de se sentir protegidas por um dos seus. Elas só confiam nos que compartilham sua experiência histórica, compreendem seus pressupostos culturais sobre doença e ameaça de estranhos, e têm legitimidade para tomar decisões duras. Se uma autoridade tiver que restringir a liberdade, essa autoridade deve ser alguém eleito pelo povo, não um estranho.

Finalmente, o enfoque descentralizado tem trabalhado bem com a incerteza. Ficou claro com a resposta, até agora, que uma rede informal de cientistas vem se reunindo através dos anos e chegou a conclusões conjuntas sobre quarentena e níveis de infecção. Mas está claro também que há muitos pontos que esses cientistas não compreendem.

Uma resposta global única resultaria num enfoque uniforme. Já uma resposta descentralizada estimula a experimentação.

O fato conclusivo é que há na crise da gripe suína dois problemas emergentes e sobrepostos. Embaixo temos a rede dinâmica do surto. É abastecida por circuitos de retroalimentação complexos, que são o próprio vírus, a mobilidade humana que o espalha e os fatores ambientais que o fortalecem. Em cima, temos a psicologia do medo causado pela doença. Ela vem dos boatos, noticiário, palpites, alertas de especialistas.

A resposta correta a esses problemas emergentes, dinâmicos, descentralizados, é criar autoridades emergentes, dinâmicas, descentralizadas - redes locais de funcionários, agências estatais, governos nacionais e órgãos internacionais tão flexíveis quanto o próprio problema.

A gripe suína não é só uma emergência no campo da saúde. É um teste de como vamos organizar o século 21. A complementaridade é o que melhor funciona.

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