David Drew Zingg
David Drew Zingg

Descomplicação

J. R. Duran , O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2015 | 16h00

Conheci o David Drew Zingg no começo dos anos 1970, no Rio. Foi num jantar no Antonio’s e ele, na época um dos grandes nomes da fotografia carioca, estava precisando de um assistente para um ensaio de moda que faria no dia seguinte. Quase me joguei a seus pés para conseguir a vaga. Era nos tempos da novela Dancing Days e as fotos, com um casal de modelos, seriam feitas no interior de uma discoteca, à noite e aberta ao público. O Zingg resolveu a situação, que para mim se apresentava como megacomplicada, em pouquíssimo tempo. E quando terminou, sem piscar, foi dançar com a modelo, enquanto eu guardava e carregava o equipamento de luz de volta para o carro - é para isso que servem os assistentes, para deixar o fotógrafo de mãos livres.

O americano Zingg era uma figura que fazia parte do folclore do Rio, o que por si só implicava um status de ser ícone nacional. Diz a lenda que ele apareceu em terra brasilis acompanhando uma regata, se encantou pelo País e foi ficando. Até ficar de vez, em 1965. Foi um caso raro de jornalista que decidiu se tornar fotógrafo. Ele tinha trabalhado por sete anos como repórter da revista Look antes de trocar o bloco de papel e a caneta pelo filme e a revelação. 

Aliás, o que não faltam são lendas sobre o Zingg. Outra delas conta que teria velejado com o presidente John Kennedy em um verão americano. Como vi, com estes olhos que a terra há de comer, uma foto do Kennedy em um veleiro, feita pelo Zingg, aviso que acredito em todas, absolutamente todas, as lendas que o cercam.

No fundo, o que o Zingg queria era viver e ver a vida de perto. E o Rio, mesmo naqueles tempos de ditadura oprimindo corações e mentes, se encaixou perfeitamente no que ele procurava. Por causa de sua curiosidade, seu talento em ouvir e falar na hora certa a frase perfeita, o Zingg era o querido das personalidades. Só ele sabia conseguir com que elas fizessem o que pedia: Elke Maravilha envolta em lençóis de cetim como Marilyn Monroe, Juscelino Kubitschek com os pés sobre a mesa, Tostão com chapéu de mexicano, Leila Diniz grávida e nua (ou o contrário). 

Mas as belas imagens não ficavam presas ao universo de celebridades. A foto de Zingg chamada Casal Misto (Coleção Pirelli/Masp, 1980), em que enquadra os torsos de uma moça branca e um negro com o dobro do tamanho dela, é o símbolo daqueles dias, daquela praia, e desse fotógrafo. Armado com um sorriso maroto e um bom humor à prova de tempestades, o Zingg se encaixava em qualquer situação e deixava todo mundo à vontade. E todo mundo queria ouvir seu comentário certo na hora certa. Fosse ele fotográfico, verbal ou até escrito. Por vários anos ele teve uma coluna na Folha de S. Paulo em que exibia sua doce ironia sobre temas nacionais da mínima importância. O Zingg sabia que é nos detalhes que mora o essencial. 

Na coleção de imagens que o IMS publica nesta esplêndida edição Foto-gráfica (20 imagens feitas nas décadas de 1960 e 1970, em São Paulo, Rio, Brasília e Mato Grosso) está o olhar que o Zingg dirigia para as coisas simples da vida. O fotógrafo-viajante de olhar incisivo e atento a qualquer detalhe. Nada lhe escapa. Os cartazes com intervenção manual, placas e qualquer tipo de letreiro são o ponto condutor da série. Como se fosse um Walker Evans tropical. Porém, ao contrario de Evans, que enquadrava com uma precisão cerebral, o Zingg vai recolhendo as imagens que aparecem no seu caminho com extrema qualidade também, mas sem deixar de piscar um olho de cumplicidade em nossa direção.

Existem, de acordo com o Ruy Castro, dois tipos de pessoas no mundo: as que se levam a sério e as que fingem que não se levam a sério. David Zingg, morto em 2000 aos 76 anos, fazia questão de pertencer ao segundo grupo, o que, pode parecer paradoxal, melhorava ainda mais a qualidade de sua produção. O que transparece em todas essas imagens é a maneira descomplicada com que ele via o mundo. A vida. E como ele resolvia os problemas fotográficos. Confesso que até hoje, em fotos noturnas, ainda tiro da manga a maneira de iluminar que aprendi com o Zingg em uma distante noite de verão carioca.

J. R. DURAN É FOTÓGRAFO, ESCRITOR E EDITOR DA REVISTA NACIONAL 

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