'Descontrole na área da Saúde gerou a segunda e a terceira geração de vítimas da talidomida'

Claudia Marques Maximino e Flávio Augusto Werner Scavasin, PRESIDENTE E VICE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DOS PORTADORES DA SÍNDROME DA TALIDOMIDA

O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2007 | 22h22

Em nome das vítimas brasileiras da talidomida, e com o apoio de diversas entidades internacionais, é nosso dever informá-lo, uma vez mais, que ao contrário do que até muitos médicos pensam, o Brasil continua a gerar crianças com graves deficiências físicas provocadas por essa droga. Isso acontece devido a reiterada omissão governamental e deliberada intenção de expandir ainda mais o seu uso. É uma tragédia anunciada exclusivamente brasileira - tal qual a do setor aéreo -, já que nenhum outro país caminha nessa vergonhosa direção, com tantos erros, prevaricação, falta de controle, impunidade e acobertamento de interesses escusos. Não queremos que o senhor diga que não sabia dos seguintes pontos: o descontrole na área da Saúde gerou a segunda e a terceira geração de vítimas da talidomida; em seu governo, esse remédio vitimou pelo menos mais cinco brasileirinhos, em apenas 2 anos (eles portam graves problemas físicos externos e em órgãos internos); mais vítimas estão nascendo porque nada tem sido feito, mesmo diante do desaparecimento de 5.760 comprimidos de talidomida; médicos insensatos chegam a sugerir em eventos oficiais que a droga seja utilizada até preventivamente contra a malária e o governo federal continua lavando as mãos, descumprindo a legislação, inclusive educativa; todas as conquistas das vítimas, quando estas logram êxito, têm sido obtidas em morosos processos judiciais; projetos de lei de nosso interesse ficam parados no Legislativo (PL 1156/2006, PLS 08e 19 /2006); ninguém presta ajuda ou sequer tenta consolar as famílias das crianças que não sobrevivem. Senhor presidente, ainda nos resta a esperança de que seu governo possa dar uma exemplar reviravolta na trajetória macabra da talidomida no Brasil. Queremos basicamente respeito e rígido cumprimento da legislação pertinente - sempre no sentido de restringir o uso da talidomida e buscar um sucedâneo -, assim como uma ampla campanha de esclarecimento sobre os riscos da droga e da automedicação, prática amplamente difundida na população.

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