Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

Desde os tempos de Platão, os Jogos Olímpicos servem aos interesses da política e do comércio

Festim para as elites cosmopolitas, os Jogos sacrificam primeiro as comunidades mais carentes

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2021 | 15h00

Japão não dá sorte com a Olimpíada. Os Jogos de 1964 tiveram de ser empurrados para o outono por causa da canícula que escaldou a ilha naquele verão. Desta vez foi a pandemia. Estamos assistindo com um ano de atraso à Tóquio 2020. Com os mesmos problemas que justificaram seus adiamentos anteriores. Não só a pandemia persiste, com indomáveis variantes, como o calor deste verão na terra do sol nascente promete ser o mais inclemente dos últimos tempos.

Vários casos de covid-19 foram registrados antes mesmo do início da competição e não será surpresa se superarem os de doping. Nessa especialidade, aliás, o Brasil foi um dos primeiros destaques, com o levantador de peso Fernando Reis, pego há dias no exame antidoping. O atleta é um admirador do clã Bolsonaro, mas, infelizmente para ele, Augusto Aras não faz parte do COI (Comitê Olímpico Internacional). 

A imensa maioria dos japoneses (83%) não queria a Olimpíada em casa. Sentem-se inseguros, receiam que a afluência em massa de atletas e torcedores do mundo inteiro descontrole e revitalize a circulação do vírus. Sem contar os problemas inerentes ao certame, com ou sem pandemia e maçarico no céu. 

Jules Boykoff, que escreveu extensamente sobre a política da Olimpíada, reiterou faz pouco tempo, no Washington Post, que os Jogos são um desastre financeiro para as cidades que os hospedam. Todos os jogos olímpicos desde 1960 estouraram seus orçamentos, com perdas raramente recuperadas pelo influxo de turismo, publicidade e consumo. 

Recente estudo revelou que, desde 2007, os Jogos custam em média US$ 12 bilhões, incluindo a construção de estádios e vilas olímpicas, que, invariável sina, ficam entregues às baratas depois do megaevento, melancólicas ruínas sem valor arqueológico. Estima-se que Tóquio 2020 irá custar quatro vezes mais que a estimativa original de US$ 7,5 bi.

Festim para as elites cosmopolitas, os Jogos sacrificam primeiro as comunidades mais carentes. Para abrir espaço para suas arenas, os de Atlanta, em 1996, derrubaram habitações que abrigavam 4 mil pessoas. Os de Los Angeles, em 1984, investiram uma fortuna em segurança militarizada cuja consequência mais visível foi o recrudescimento da violência contra pretos e pobres da periferia. 

E nem tocamos nos escândalos de corrupção – antes, durante e depois dos Jogos. É tanta grana rolando que aquelas cinco argolas do logo olímpico já podiam ter sido substituídos por cifrões entrelaçados. 

Carlos Arthur Nuzman, nosso mais perene cartola olímpico, comprou votos para que o Rio sediasse os Jogos de 2016, perdeu o trono, mofou alguns dias no xadrez e voltou à sua banca advocatícia. O novo presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, o ex-judoca Paulo Wanderley Teixeira, já foi denunciado por fraudes numa licitação. Se maracutaias fossem reconhecidas como modalidade olímpica, nosso estoque de medalhas não caberia numa arca de bom tamanho.

De quatro em quatro anos, eu me lembro de duas frases lapidares sobre esporte e jogos olímpicos. Nenhuma delas é aquela chorumela do positivista Barão de Coubertin – “O importante não é vencer, é competir” – mas esta, de George Orwell: “O esporte é uma fonte inesgotável de rancor”, e esta, do historiador e sociólogo Lewis Mumford: “O esporte dos deuses dos estádios é um fator de estabilização do status quo e domesticação das massas.” 

Orwell considerava as competições esportivas internacionais “uma orgia de ódio”. Alguns antropólogos discordam, consideram a visão de Orwell e Mumford rígida, reducionista, mas a História está cheia de tiranos que se serviram do circo esportivo para aliviar as tensões da patuleia pela falta de pão.

Como todo fenômeno social, o esporte tem bases materiais, econômicas e políticas bastante claras. Não é uma ideia, nem um valor, uma abstração qualquer, boa ou má, e sim uma prática que, para se viabilizar, requer administradores, regras, tempo, educação, dinheiro e publicidade – cada vez mais dinheiro e publicidade, diga-se. 

Os países que integram o COI não levam muito a sério o ideal olímpico. Alemães e austríacos foram banidos da Olimpíada de 1920, na Antuérpia (Bélgica), porque haviam sido derrotados na 1ª. Guerra Mundial. 

Às vésperas dos Jogos de 1976, em Montreal, o Canadá proibiu Formosa de comparecer com o nome de República da China. Para o Canadá, que então negociava um milhão de sacas de cereais com a China continental, mais importante do que competir era negociar com a China comunista.

Muito já se escreveu sobre a manipulação política nos Jogos de 1936, na Alemanha nazista, mas quase nada a respeito do presidente do Comitê Olímpico nos EUA naquela época, Avery Brundage, diretor de um clube de Chicago cuja porta ostentava uma placa proibindo a entrada de negros e judeus. Admirador confesso de Hitler, Brundage partiu feliz para Berlim – de onde certamente voltou arrasado com a supremacia do negro americano, representado pelo legendário Jesse Owens, que deixou um monte de arianos comendo poeira nas pistas. 

Não se iludam: desde os tempos em que Aquiles media forças perto das muralhas de Troia que os jogos olímpicos têm servido aos interesses da política e do comércio. Nos idos de Píndaro e Platão, uma diligente malta de camelôs e relações-públicas de atletas dominava o sopé do monte Olimpo. Os comerciantes de azeite disputavam a tapa a preferência dos melhores participantes, pois era com azeite que os atletas daquele tempo lubrificavam seus corpos. Ontem, azeite; hoje, Coca-Cola, Asics, Nike, Toyota, Samsung e brands que tais.

 

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