André Dusek/AE
André Dusek/AE

Desfile de guayaberas

José Flávio Sombra Saraiva, coordenador do programa de pós-graduação em relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), comenta a cúpula da América Latina e Caribe

Ivan Marsiglia, de O Estado de S. Paulo,

27 de fevereiro de 2010 | 14h06

Latinidade não faltou à Cúpula de Países da América Latina e do Caribe (Calc), encerrada terça-feira em Cancún, no México. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um murro na mesa em protesto contra a omissão da ONU na questão das Malvinas. O venezuelano Hugo Chávez ameaçou retirar-se do recinto ao dizer que 300 paramilitares da Colômbia entraram em Caracas para assassiná-lo. O colombiano Álvaro Uribe retrucou, furibundo: “Seja homem e fique aqui para falar na minha cara!” Só o anfitrião, o mexicano Felipe Calderón, assistia a tudo sem perder a fleuma, perfeitamente penteado. Até aquiesceu: “Lula é o líder indiscutível de nossa região, que dá equilíbrio e força à América Latina”. Haja equilíbrio.

 

Foi Calderón, no entanto, o grande vitorioso do encontro de 32 chefes de Estado latino-americanos sob o sol do Caribe. Esse é o diagnóstico de um observador do passional relacionamento entre os países da região. Para José Flávio Sombra Saraiva, coordenador do programa de pós-graduação em relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), os mexicanos lograram aproximar-se dos vizinhos de baixo sem perder prerrogativas comerciais conquistadas com os Estados Unidos na Alca (Aliança de Livre Comércio da Américas) e no Nafta (North American Free Trade Agreement).

 

“O México não está querendo ser apenas o sul do norte: também deseja ser o norte do sul”, resume Sombra Saraiva, um cearense de Limoeiro do Norte que passou três anos no conhecido El Colegio de México, antes de partir para doutorado e pós-doutorado em história e relações internacionais nas universidades britânicas Birmingham e Oxford. Na entrevista a seguir, ele sustenta que a Celac, aliança fundada em Cancún sem a participação dos EUA e do Canadá, não ameaça a OEA (Organização dos Estados Americanos), explica o que levou a diplomacia brasileira a expandir seu foco para além do Mercosul e diz que Lula errou ao não falar de direitos humanos em Havana na quarta-feira.

 

Cancún sinalizou alguma mudança efetiva nas relações entre os países da América Latina?

 

A política externa, tanto quanto a interna, é produtora de fatos fugazes. É o tempo que delimita sua permanência. Cancún tem algo de fugaz, que é o aproveitamento tático de um redesenho no mapa regional. Creio que o Brasil seja um animador desse projeto. A pergunta é: que razões levam o País, que é o mais interessado na integração da América do Sul, a mover energias na direção de Cancún? Creio que o Brasil anda preocupado com os rumos dessa integração e precisou respirar um pouco fora da região.

 

Ficou no meio da equação entre a visão bolivariana e a dos países mais liberais. E faz agora um movimento do sul para o norte para diluir a dificuldade e ampliar seu raio de ação.

 

Em Cancún foi criada a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), que já vem sendo chamada de 'OEA do B'. Ela é pra valer ou mais um dos 'fatos fugazes' que o sr. menciona?

 

Creio que é mais uma instituição criada por sobre as existentes, que terá poder retórico, mas pouco poder de barganha. De um lado, atende à preocupação mexicana de diversificação dos seus contatos, após o país ter ficado muito prisioneiro da dependência americana e sofrido com a crise de 2008. Por outro, permite ao Brasil respirar questões políticas da América Latina. Com todas as diferenças, a região tem em comum um acervo de convivência pacífica e plural. Essa é a cultura internacional da América Latina, que deveria ter estado no centro dos discursos em Cancún.

 

Como entender a decisão de deixar EUA e Canadá fora da Celac?

 

Porque esse é o espaço de negociação necessário com os líderes mais radicais da região, como Chávez. O Brasil precisava adocicar as pretensões da criação mítica de uma América Latina separada dos ianques. Esse é um debate do século 19 entre Martí e Sarmiento, está no imaginário latino-americano de um mundo novo, não anglo-saxônico. É uma ideia que povoa tanto a formação das elites da região como de muitos processos revolucionários que se espalharam pela América Latina.

 

Com os EUA enfrentando uma das maiores crises econômicas de sua história e vendo declinar seu poder no mundo, ainda há eco para o discurso antiamericano na região?

 

Essa aliança vem da brecha aberta pela redução da capacidade dos EUA de interferir na América Latina. Aproveita-se dela para se construir um novo tabuleiro de negociação, que irá conviver com os demais. A OEA não perde força com o nascimento da Celac. Os dois fóruns serão utilizados em momentos diferentes ou até de forma concomitante. O que garantirá ou não a eficácia da Celac será sua capacidade de agir. A OEA, dos anos 1980 para os 2000, teve atuações importantes. Em outras, foi posta à margem. Mas foi até feliz no caso de Honduras, quando manteve um laboratório de crise no qual as diplomacias americana, brasileira, venezuelana e mexicana atuaram. Foi um biombo sobre o qual se depositaram visões, evitando deflagrações diretas e o agravamento da situação.

 

Até que ponto a adesão do México à Celac é uma surpresa?

 

Morei três anos no México na década de 80 e estudei as velhas escolas nacionalistas mexicanas. O país mantém a tensão histórica que se vê na obra de Octavio Paz e na literatura mexicana, a de um labirinto, uma fronteira entre dois mundos. Há um nacionalismo congênito que se expressou na revolução mexicana e foi, em alguma medida, diluído com a ação pragmática de inserção ao grande mercado do norte - a qual é positiva e compreensível dentro da história e da geografia mexicanas. A passagem dos anos 1990 para os 2000 foi terrível para o México, com o fim de um modelo autocrático de governo, baseado em partido único. E o que o país faz agora é uma correção de rumos. Com o apoio da sociedade civil e dos partidos - mesmo os mais liberais, amigos dos EUA. Os mexicanos têm, em sua identidade intrínseca, mais latino-americanidade do que o Brasil.

 

Quem foi o grande protagonista em Cancún: Brasil, México ou Cuba?

 

Eu diria que quem mais ganha com essa comunidade não é o Brasil, Cuba, nem Chávez. Ganha o México. É o reencontro do país com a sua dimensão latino-americana que vinha sendo obliterada pela necessidade de reordenar o seu espaço econômico e político com os EUA. Por isso Calderón assumiu o poder e mal parou no gabinete: para dentro, combatia o narcotráfico; para fora, diversificava parceiros comerciais e políticos. O México não está querendo ser apenas o sul do norte: também deseja ser o norte do sul.

 

Calderón está em condição de vestir um figurino de independência em relação aos EUA, já que, além do tratado comercial, precisa de sua ajuda no combate ao narcotráfico?

 

O México possui capacidade limitada para agir no campo comercial, dada a dependência vertical em relação aos EUA, da ordem de quase 90% do comércio daquele país. Mas pode e busca novas parcerias. E o capítulo do combate ao tráfico e às máfias mexicanas, uma obsessão de Calderón, realmente não pode ser vencido sem a cooperação dos EUA.

 

Como o sr. avalia a manifestação do presidente Lula sobre as Malvinas?

 

Eu diria que o Brasil atualizou, nas palavras do presidente, a versão e a interpretação histórica conferida pelo Brasil ao tema das Malvinas. O mais famoso trabalho sobre o tema nos anos 80, ainda no regime militar, foi do professor Hélio Jaguaribe, que defendeu em um documento de mais de 300 páginas a reivindicação argentina. Durante a guerra, em 1982, chegamos a mandar pilotos brasileiros para operar voos preparatórios na Argentina. O Brasil falou duro na OEA sobre e impediu a passagem e a reposição de combustível em território nacional para aeronaves inglesas.

 

Entretanto, o Brasil deve manter tom moderado, para ter condições de exercer o papel que reivindica, de mediador. Nesse sentido, o discurso do presidente poderia ter sido mais diplomático.

 

Em outro momento, Lula chegou a socar a mesa ao criticar a ONU.

 

É preciso manter algum espaço de reserva para negociar e moderar as dificuldades. Agir sem falar muito. O Brasil não será jamais um hard power, uma nação que se impõe no mundo pelas armas atômicas ou pelo PIB exuberante - embora o nosso esteja crescendo, em 50 anos ainda estará distante do das superpotências. Nossos meios de poder são os de um país sincrético, que acomoda gente de todos os cantos, mantém diálogo aberto com os vizinhos. Um país que não provoca guerras e sabe conversar baixinho no ouvido.

 

No Chile, o direitista Sebastián Piñera derrotou os socialistas e toda a Concertação. Na Colômbia, Uribe tentou um referendo para concorrer ao terceiro mandato. Está havendo uma retomada de governos conservadores na região?

 

Depois da onda liberal dos anos 1990 e da onda esquerdizante dos anos 2000 é possível que esteja em curso certa tendência de governos mais conservadores e rígidos na agenda fiscal. Mas nenhum deles poderá se afastar da agenda social, do emprego e da inserção do maior número de pessoas no mercado de bens de massa. Mesmo Piñera manteve essa proposta. Entretanto, ainda é cedo para afirmá-lo categoricamente.

 

Ele vai dar a saída para o mar que os bolivianos reivindicam, mas dependem de acordo com o Chile?

 

As relações entre o Chile e a Bolívia viveram fase altamente positiva com a presença da presidente Michelle Bachelet no poder. Não antevejo mudança desses avanços realizados. Piñera não será imprudente de tocar nesse ponto de forma assertiva. E Evo Morales tem se mostrado, desde a última eleição, mais maduro, saindo do universo de introspecção inicial para preocupações maiores com a inserção boliviana nos programa econômicos da América do Sul. A ele também não interessa cutucar a direita chilena.

 

O bate-boca entre os presidentes Uribe e Chávez faz parte do teatro previsível da cúpula?

 

Acho que há ali algo específico das relações entre Colômbia e Venezuela, que é a dimensão visceral com que o presidente Chávez observa o comportamento do presidente Uribe, tratando-o como descendente dos traidores de Bolívar e da América Latina. Há um desequilíbrio retórico e uma leitura tosca das opções da sociedade colombiana. O presidente Chávez, com essas manifestações, só empurra a sociedade colombiana a um apoio crescente a Uribe. Chávez é o grande eleitor do presidente colombiano nas eleições que se aproximam. Pois a opinião pública colombiana está com Uribe, que logrou devolver à normalidade, ainda que de forma difícil e complicada, o seu Estado nacional. Um Estado que, diga-se, tinha sido abandonado por todos os vizinhos - só agora, mais recentemente, recebeu uma sinalização do Brasil e do Chile.

 

Além da teatralidade do encontro, até o figurino dos chefes de Estado parecia seguir um protocolo, por assim dizer, regional, com o uso generalizado das guayaberas.

 

Primeiro, o estilo flamboyant de fala latina, o do discurso sem fim, é conhecido, nos identifica no mundo. Quando fiz meu doutorado na Inglaterra, cada duas páginas que escrevia em língua inglesa meu orientador reduzia a um parágrafo (risos). Isso está entre nós: somos ibéricos, barrocos, para chegar de um ponto a outro preferimos as curvas de Niemeyer às linhas retas da Bauhaus. Já as guayaberas são tradicionais em toda a região. Nisso, não vejo populismo: é um traje confortável e elegante para a ocasião. E externa o sentimento de identidade cultural entre esses países.

 

As guayaberas são também o traje nacional cubano. Havana teve papel de destaque na cúpula?

 

Se você olhar atentamente, não vai ver Cuba. O país esteve discreto e distante em Cancún. Os protagonistas foram Calderón e Lula, depois Chávez e Uribe. Mesmo a Argentina, sendo tema central do encontro, não foi protagonista. Eu até diria que Cuba é percebida no grupo como um mal necessário.

A visita de Lula a Havana ao deixar Cancún coincidiu com a morte de um preso político, Orlando Zapata. Foi constrangedor para o País?

 

Visitar Cuba ou o Irã não é problema. Mas Lula deveria ter feito uma exposição sobre a relevância da liberdade, da vida e do diálogo nas relações internacionais. Ele não precisava falar de dissidentes nem citar o caso específico, ofendendo o anfitrião. Mas o presidente tinha uma assessoria preparada para produzir três ou quatro frases essenciais, educadas e elegantes para a ocasião.

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