REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO
Imagem Lee Siegel
Colunista
Lee Siegel
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Despedida em tempo real

Narrar a própria partida é um novo modo de lidar com o fim - em que morrer aparece mais como injustiça social do que como parte da vida

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

11 Julho 2015 | 16h00

“Um velho é coisa imprestável”, escreveu Yeats, “Um casaco andrajoso escorado num bordão, a não ser que / A alma aplauda e cante, e cante mais alto / Cada farrapo do seu traje mortal...” Yeats estava refletindo sobre como um poeta pode transfigurar a morte em arte. Hoje, porém, todo o mundo em toda parte parece estar “cantando mais alto” sobre os fatos banais que são envelhecer e morrer.

Escrever sobre mortalidade está se tornando cada vez mais uma forma proeminente de expressão cultural. Em anos recentes, escritores conhecidos como John Updike e Christopher Hitchens publicaram livros descrevendo seus meses finais. Agora, o neurocientista Oliver Sacks e o crítico Clive James vêm escrevendo sobre suas doenças terminais e morte iminente.

Ao mesmo tempo, pessoas de todos os quadrantes sociais vêm documentando a morte de seus próprios entes queridos, ou anatomizando a morte em geral, em livros e artigos de revistas, na coluna The End (O fim) do New York Times, e no Wall Street Journal, em blogs, Twitter e YouTube, em reality shows como Time of Death (Tempo de morte) sobre doentes terminais em suas últimas semanas de vida, e Prison Terminal, sobre presidiários agonizantes num hospital. Vários filmes recentes também se ocuparam do tema. Amor lida com demência e prolongada decadência física. Até o Fim é uma parábola da luta de um homem envelhecido contra a morte, e Gravidade é tanto sobre perda como sobre maneiras de morrer - você se conforma (Clooney) ou luta (Bullock) - com um leve subtexto sobre a possibilidade de reencarnação. Os escritos sobre mortalidade se estendem de um grito selvagem de dor a passagens de texto que tocam profundezas artísticas sem perder sua modesta vulgaridade - são como A Morte de Ivan Ilyich escrito por uma pessoa comum. Nessa última categoria eu colocaria o artigo da jornalista Kate Butler no Wall Street Journal - um trecho de seu livro, Knocking on Heaven`s Door (Batendo à porta do céu) - sobre a recusa da tecnologia de prolongamento da vida por sua mãe:

“Nessa noite (de sua morte) ela não conseguia parar de vomitar. Foi levada para internação no hospital para pacientes terminais com um de meus irmãos seguindo a ambulância. Uma vez acomodada em seu leito, ela tirou seus brincos de prata batida e disse à enfermeira. ‘Quero me livrar de todo o lixo’. Nua, ela havia chegado ao mundo, e nua ela retornaria.”

Depois, há os puros gritos de dor. Há cerca de um ano, na coluna “Private Lives” (Vidas privadas) do New York Times, uma mulher chamada Charlotte Brozek descreveu sua tristeza e depressão depois de perder o marido. Ela concluiu com estas palavras: “Por falar de perda, não perdi somente meu marido e minha vida, perdi também meus cabelos... Recentemente, um policial me mandou encostar o carro por ficar parada. O tráfego estava sendo redirecionado, mas eu havia congelado e retinha uma longa fila. Levantei as mãos, esperando ser algemada, dizendo que não há nada que você possa fazer comigo que seja pior do que já foi feito. Ele disse, ‘Que história é essa, madame?’ Eu disse, ‘Não tenho marido, não tenho amigos, não tenho cabelo’”. Lê-se uma confissão assim patética num transe de horror, constrangido por estar lendo, mas fascinado pela maneira como uma pessoa comum se defronta com o inevitável. É chocante, talvez, para a sensibilidade. Mas lava a alma. 

Subjacente à ascensão dos escritos sobre mortalidade está a convergência de três fatos: as pessoas estão vivendo mais, a autorrevelação é admirada e recompensada, e há mais canais públicos para a expressão pessoal.

Os grandes romancistas realistas que poderiam ter nos dado relatos vívidos de agonia e morte morreram relativamente jovens e, com frequência, abruptamente: Jane Austen aos 41 anos, Dickens aos 58, Balzac aos 51, George Eliot aos 61. E viveram numa época antes de a falta geral de inibição e a mídia social acelerarem o mútuo desenvolvimento. 

Mas é duvidoso, mesmo que tivessem vivido mais tempo, que eles teriam escrito sobre envelhecer e morrer. Nossa atitude perante a morte sofreu uma mudança radical. No mundo desenvolvido, há avanços tão acelerados na medicina - para não falar numa proliferação de tecnologia que isola praticamente cada aspecto de nossa existência - que a morte parece menos uma condição da vida humana que uma forma de injustiça social. Henry James viveu 70 e poucos anos, e Thomas Mann, 80, e nenhum dos dois pensou em escrever sobre sua própria experiência de aproximação de seu fim mortal. Apesar de o próprio Yeats, aos 69 anos, ter se submetido à chamada operação Steinach - uma versão primitiva de vasectomia que, esta era a crença, retardava o processo de envelhecimento e aumentava o vigor sexual -, ele nunca escreveu literal ou diretamente sobre sua própria desintegração.

Não o fizeram tampouco Saul Bellow ou Norman Mailer, ambos criaturas de uma era anterior. Talvez por terem sido agraciados com dotes tão poderosos, nenhum deles poderia acreditar o suficiente em sua própria extinção para escrever convincentemente sobre ela (aliás, os dois escritores acreditavam em reencarnação, como se convictos de que a natureza não desperdiçaria o poder criativo que lhes prodigalizara). O único romancista americano dessa geração que escreveu sobre envelhecer e morrer em sua ficção é Philip Roth. Sua novela Homem Comum é uma excêntrica personificação da escrita sobre mortalidade de pessoas que não são, por vocação, escritoras.

O romantismo do século 19 estava preocupado com o desperdício e ruína de jovens agônicos. O romantismo de nosso tempo protesta contra a morte em geral. Para cada médico descrevendo fria e clinicamente a doença e morte de seus pacientes nas páginas de opinião do New York Times, há pessoas que vociferam contra a extinção com volúvel e admirável fúria. Para citar um exemplo, há o caso de Lisa Bonchek Adams, que expressou pelo Twitter e por blogs sua experiência na batalha contra o câncer sem poupar os leitores de detalhes de sua luta - “A dor excruciante que vem dos tumores em meus quadris e espinha pede”, ela escreveu num blog, “um sério tratamento da dor até darmos tempo para os efeitos de radiação e químio se manifestarem.”

Adams foi prontamente criticada por algumas pessoas que escreveram que, a seu ver, havia maneiras diferentes e mais dignas de morrer, rendendo-se privadamente em vez de fazer estardalhaço em plena vista do público. Esse choque entre uma cultura antiga que preza a reticência e a privacidade e uma cultura digital que celebra, sobretudo, uma franqueza direta se aguçará até ser resolvido numa harmonia, um novo estilo cultural, quando a escrita sobre mortalidade aprofundar suas raízes.

E ela o fará. O aumento da longevidade, os avanços na tecnologia médica, as incursões científicas em seres robotizados e computadorizados (o cosmólogo Stephen Hawkins falou recentemente de fazer o download da consciência de uma pessoa para ela viver eternamente) são todos, apenas perceptíveis, reformulando nossa arte e até mesmo nossas percepções sociais. Algum tempo atrás, a Bloomberg News reportou sobre “jantares da morte” em que pessoas se reúnem para discutir o fim da vida durante uma refeição. O crítico de arte Clement Greenberg escreveu certa vez que o expressionismo abstrato era a fase final inevitável da pintura, na qual a pintura dispensaria conteúdo e se concentraria em sua própria natureza física como pigmento, tela e pincel. Estamos atingindo o ponto em que a cultura é cada vez menos sobre as várias dimensões da existência humana, e cada vez mais sobre o fato físico de ser humano.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Mais conteúdo sobre:
morte

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.