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Despertar grego

Para economista americano, a Grécia sob Syriza sobreviveria fora da zona do euro e se recuperaria mais rapidamente que outros países

Entrevista com

Mark Weisbrot

Juliana Sayuri, O Estado de S. Paulo

03 Fevereiro 2015 | 15h06

Após o tremor político provocado pela vitória da Coalização Radical de Esquerda (Syriza) na Grécia, o que resta? Para o economista americano Mark Weisbrot, "é o começo do fim do longo pesadelo europeu". Recusando os princípios da austeridade fiscal, a aliança grega deve agora mostrar se é possível despertar da crise econômica que se arrasta desde 2008. "Se o Syriza for bem-sucedido mostrará aos espanhóis que é possível eleger uma esquerda fora dos partidos políticos tradicionais - e que pode fazer um trabalho melhor na administração econômica", analisa Weisbrot, Ph.D. pela Universidade Michigan, co-diretor do Center for Economic and Policy Research (CEPR) e presidente da Just Foreign Policy, organização independente americana especializada em política internacional. De Washington, Weisbrot concedeu esta entrevista ao Aliás.

O começo do fim

Diria que é o começo do fim do longo pesadelo europeu desde a crise financeira de 2008-2009 e a recessão mundial. Mas estamos muito distantes de sonhos novos... Primeiro o pesadelo deve terminar. (A dívida grega) é possivelmente pagável, mas a um preço muito alto. As autoridades europeias esperam que a Grécia tenha superávit primário de mais de 4% do PIB nos "muitos próximos anos", segundo o FMI. Isso significa que será difícil, se não impossível, para a Grécia escapar do desemprego em massa. Por exemplo, o FMI projeta que, mesmo se as coisas caminharem relativamente bem no programa com o qual o governo grego anterior tinha concordado, o desemprego continuará na casa dos 16% em 2018. Isso não será aceitável pelo povo grego, como mostraram as últimas eleições. E quase todas as projeções do FMI foram super-otimistas desde 2010. Além disso, a recuperação atual é muito frágil - e poderia colapsar diante de choques externos negativos.

Fora do eixo do euro

"A zona do euro é um caso especial. Os problemas ali são piores que os problemas comuns do capitalismo moderno, mesmo do capitalismo neoliberal. Lembre-se que a grande recessão americana começou em dezembro de 2007, a pior desde a grande depressão. Isso foi causado pelo estouro de uma gigante bolha imobiliária, de mais de oito trilhões de dólares. Os EUA eram o epicentro da crise financeira mundial, mas a recessão americana durou um ano e meio. A zona do euro teve uma recessão com duração similar, mas depois caiu novamente em 2011 e ainda não se levantou. Por quê? Por políticas econômicas muito ruins. O BCE não se comportou como um banco central, como o Federal Reserve ou mesmo como o Banco da Inglaterra. Eles permitiram que as taxas de juros dos títulos soberanos de Espanha, Grécia, Irlanda, Itália e Portugal alcançassem taxas insustentáveis, provocando uma crise financeira que durou por dois anos, arrastando a região de volta à recessão. Finalmente, em julho de 2012, Mario Draghi, chefe do BCE, disse que faria "tudo o que fosse preciso" para preservar o euro. Isso pôs fim à crise financeira na zona do euro. O BCE poderia ter feito isso muito antes, mas não fez porque as autoridades europeias queriam usar a crise financeira para forçar governos das economias europeias mais frágeis para adotar reformas impopulares, incluindo cortes nos salários mínimos, pensões e outros programas sociais, reduzindo o tamanho e o alcance do Estado de bem-estar. Eles também impuseram um aperto fiscal nas economias mais fracas, incluindo a Grécia. Isso teve consequências desastrosas e, na verdade, tornou o fardo da dívida ainda pior, pois encolheu essas economias. A dívida pública grega era de 115% do PIB em maio de 2010, quando foi feito o primeiro acordo com o FMI. Agora, é mais de 170%. Assim, eu queria distinguir a zona do euro como um exemplo não só das falhas do capitalismo neoliberal, mas um caso especial em que integrantes desistiram de sua soberania nacional sobre as mais importantes políticas econômicas. Como não havia mais qualquer responsabilidade democrática, mais de 20 governos caíram, e ainda assim as políticas destrutivas continuaram. Isso explica a diferença entre o desempenho da Europa e dos EUA desde a recessão mundial. Quanto à Grécia, acredito que o país não só sobreviveria fora da zona do euro, mas se recuperaria, após uma crise inicial, mais rapidamente que outros países. E, nesse caso, outros iriam querer sair. Portanto, é por isso que acredito que as autoridades europeias vão fazer concessões ao Syriza. Olhe o que aconteceu com a Argentina no fim de 2001. Todos disseram que a economia argentina seria um desastre nos anos seguintes, mas a crise durou apenas três meses após o calote e a desvalorização. Na sequência, a economia cresceu 63% nos seis anos seguintes. Acredito que a Grécia teria uma experiência semelhante, e teria muito mais fontes potenciais de empréstimo que a Argentina - que à época não tinha nenhuma.

Podemos e suas possibilidades

"Os problemas da Espanha são similares aos da Grécia. Lá a taxa de desemprego é similar, mas eles não perderam um quarto do rendimento nacional como os gregos. Ainda assim, a situação é muito ruim. Eles também precisam de estímulo fiscal para reduzir drasticamente o desemprego em massa. Mas as autoridades europeias são contrárias a isso. Podemos também pretenderá reverter algumas das reformas regressivas que foram implementadas, como as mudanças na legislação trabalhista, os cortes na saúde e outros focos sociais. Podemos veio do nada e se tornou o mais popular partido político na Espanha no último ano. Se o Syriza for bem-sucedido mostrará aos espanhóis que é possível eleger uma esquerda fora dos partidos políticos tradicionais - e que pode fazer um trabalho melhor na administração econômica. 

Contra a desigualdade

"Há muitas formas de combater a desigualdade - e, claro, elas variam de país para país. Um imposto sobre transações financeiras poderia redistribuir a renda e, ao mesmo tempo, diminuir o setor financeiro inchado, que é uma fonte de desigualdade. O imposto proposto por Thomas Pikkety é uma luta mais difícil, mas uma boa ideia. Reduzir as rendas econômicas de monopólios criados pelo Estado - como patentes e direitos autorais - também reduziria a desigualdade. Reformas do direito do trabalho que aumentem o poder de negociação dos trabalhadores são extremamente importantes. Aumento do salário mínimo e programas de combate à pobreza também ajudariam, como são feitos no Brasil. Por fim, o crescimento econômico também é extremamente importante. Na América Latina, o índice de pobreza era constante ou crescente por cerca de duas décadas, época das reformas neoliberais. Depois caiu de 44% para 28% entre 2002 e 2013, quando a região se tornou mais independente e cresceu muito mais rápido".

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