Despindo o figurino 'primeira-dama'

Por lei, ela não é. Por vontade, menos ainda: a vida de Lucía, a mulher que empossou o marido, no Uruguai

Carolina Rossetti, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2010 | 01h19

Em 1º de março, Lucía Topolansky foi protagonista de um ato inédito no Uruguai. Na condição de senadora mais votada em 2009 e, portanto, presidente do Parlamento uruguaio, coube a ela tomar o juramento de posse do novo presidente da República, José "Pepe" Mujica , seu marido há mais de 40 anos.

Na cerimônia no Palácio Legislativo, Pepe dispensou a gravata. Lucía não se incomodou com o desalinho do esposo, e tampouco usou sapatos de salto agulha. "Não sou como Carla Bruni ou Michelle Obama, jovens e elegantes", admite, realista. "Sou sóbria e seguramente muito mais simples".

No Uruguai, não existe institucionalmente a figura de primeira-dama. Para Lucía, o cargo é mesmo desnecessário para a democracia. "Isso não quer dizer que não acompanharei meu marido", ressalva. "A presidência de Mujica durará cinco anos, mas minha militância vem de mais tempo e seguirá adiante. Minha responsabilidade é com a gente, no Parlamento", explica.

O casal que chegou ao topo da hierarquia política do Uruguai vive em uma chácara, nos arredores de Montevidéu, no bairro de Rincón Del Cerro, que adquiriram após a anistia de 1985, graças a um empréstimo. Ali plantam flores, atividade que Pepe já cultivava antes mesmo de ingressar no Movimento de Libertação Nacional-Tupamaro (MLN). Mudança à vista?

"Continuaremos neste lugar porque viemos para cá há muito tempo e o presidente aqui é apenas mais um cidadão", conta Lucía, justificando sua recusa em habitar a morada oficial dos presidentes uruguaios. Confessa que seria um sacrifício muito grande apartar-se de sua plantação de crisântemos, que ela e Pepe estão ansiosos para ver florescer nos últimos dias de março. Aos dois, soma-se apenas a companhia de Manuela, a única "cachorra política da história do país", segundo Pepe. A vira-lata de 16 anos foi vista sobre palanques eleitorais no ano passado, roubando a atenção dos discursos de Mujica. A vida não permitiu a Lucía ter filhos.

Conheceu Pepe na condição de companheiro do movimento tupamaro, onde ela militava desde 1969. Tinha então 25 anos, era loira, bonita e dispensava maquiagem. Com sua irmã gêmea, Maria Elia, cursou arquitetura na Universidade da República, o centro nervoso das mobilizações de esquerda nos anos que antecederam o golpe militar de 1973.

Maria Elia caiu na clandestinidade antes da irmã, em 1967, para horror da mãe, Elia Saavedra ? herdeira de fazendeiros espanhóis que se instalaram nos arredores do Prata em 1777 ?, e de seu pai, Luiz Topolansky ? filho de engenheiro austro-húngaro que, em viagem a trabalho ao Uruguai em 1890, se apaixonou pelo país, ficou e fez vida.

"Nós não sabíamos de nada", lembra o irmão Enrique Topolansky, referindo-se ao envolvimento político que as meninas faziam questão de esconder da família. "Era um segredo só nosso", confidencia Maria Elia. Alguns anos depois das gêmeas, a caçula Inês também ingressaria em um grupo de apoio aos tupamaros. Dos três varões da família, Luiz, Carlos e Enrique, os tupamaros nunca receberam nenhuma assistência.

Em julho de 1970, Lucía foi presa e enviada para o cárcere de Cabildo, prisão feminina do século 19 erguida na Cidade Velha de Montevidéu, onde havia também uma enfermaria e uma capela guardada por freiras. Ali conviviam as presas políticas e presas comuns.

As gêmeas rebeldes só viriam a se encontrar naquele lugar em março de 1971, com a prisão de Maria Elia. Fugiram quatro meses depois. "Os companheiros fizeram um túnel até o nosso dormitório, passando pela rede de esgoto", descreve a psicóloga Sônia Mosquera, uma das 33 presas que rastejaram na podridão, ao lado das gêmeas Topolansky, rumo à liberdade, em 31 de julho de 1971.

Ao sair de Cabildo, lá estavam elas em altas conspirações no MLN. Lucía era encarregada de fazer a propaganda do movimento, coordenar a produção de boletins e distribuir panfletos. Em agosto de 1972, foi presa novamente e passou os 13 anos seguintes no Estabelecimento de Reclusão Militar de Punta Rieles, em Montevidéu. De lá saiu somente em 1985, com exceção do dia em que seu pai faleceu de câncer e os militares a levaram para a casa da mãe, no bairro classe média de Pocitos, onde era velado o corpo.

O único contato com a família ao longo desses anos acontecia nos breves momentos de visita. "Lembro de um dia em que fui com minha mãe para Punta Rieles, mas tinham suspendido a visitação por um mês", diz Enrique Topolansky. "Lucía mais tarde me explicou que ela se recusara a fazer a faxina, depois que uma soldado derrubou, de propósito, o balde de água sobre o piso que limpava", completa o irmão orgulhoso, explicando que a resistência passiva era a maneira que Lucía tinha de manter a dignidade na prisão.

"Nesses anos tratamos de fazer com que nenhuma companheira se desmobilizasse. Estudávamos, cantávamos, fazíamos teatro. Sobrevivíamos", recorda Lucía, em entrevista ao Aliás por email. Para romper com a rígida disciplina de Punta Rieles e contornar as circunstâncias da vida, ela organizou com outras amigas um motim lírico. Na hora do recreio saíram gritando os versos do poema À galopar, de Leon Felipe, aos quais se juntaram as vizinhas de setor, em um cântico que acabou virando uma tradição em Punta Rieles.

Sobre o tempo que esteve presa, Lucía se esforça para não colecionar amarguras. Das torturas que sofreu, nenhum detalhe. "Resgato da experiência o lado positivo, porque gosto de viver olhando adiante. Aprendi a andar leve e me dar conta de que a vida e sua felicidade não passam pelas coisas materiais".

Em 10 de março de 1985, Lucía Topolansky foi anistiada e passou a tocar sua rotina com Pepe. Aos 40 anos, trabalhava na cantina da faculdade de arquitetura, fazendo comida rápida para os estudantes. Em 1989, ajudou a fundar o partido do qual hoje é a principal liderança, o Movimento de Participação Popular, que integra, com outras legendas de esquerda, a coalizão Frente Ampla.

Em 2004, chegou ao Parlamento. Assumiu no mesmo ano o cargo de senadora como suplente de José "Pepe" Mujica, convidado a ser ministro no governo de Tabaré Vásquez. Em 2009, tornou-se a senadora mais votada a bordo de uma plataforma política voltada para a construção de casas populares. "Meu problema agora é que não me tomem como conexão direta com o Executivo, com quem tomo mate todos os dias", brinca Lucía. É um desafio e tanto.

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