Schauburg Theater Mûnchen
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Deus e o diabo estão em luta no romance 'A Aranha Negra'

Livro de pastor suíço pode ter influenciado Dostoievski em 'Os Irmãos Karamazov'

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estado

10 Junho 2017 | 16h00

Recém-publicada pela Editora 34, A Aranha Negra (1842), pequena obra-prima do escritor/pastor protestante Albert Bitzius (1797-1854), nos remete à atmosfera religiosamente mítica e encantada da Idade Média. Sob o pseudônimo literário de Jeremias Gotthelf, o autor suíço nos leva ao coração rural de sua região natal, o Emmental, onde forças antípodas da natureza (humana) são movimentadas tanto pela malignidade diabólica da aranha negra quanto pelo ímpeto de martírio próprio à imitação de Cristo. Leitor potencial de Jeremias Gotthelf, é como se o escritor russo Fiodor Dostoievski (1821-1881) extraísse um aforismo fundamental de seu romance Os Irmãos Karamazov (1879-1880) para exprimir o sentido profundo de A Aranha Negra: Deus e o diabo estão em luta, e o campo de batalha é o coração do homem.

No início da história, o narrador em terceira pessoa descreve os preparativos para uma festa de batizado (estamos, a princípio, no século 19). É assim que, “no interior da cozinha luzidia e ampla, crepitava a lenha de pinheiros num forte fogo, grãos de café espocavam na enorme frigideira que uma vistosa mulher revolvia com a colher de madeira, enquanto rangia ao lado o moedor de café entre os joelhos de uma criada que acabara de fazer a toalete. (...) Nesse dia acontece na casa um batizado, e a parteira desempenha a função de cozinheira com a mesma habilidade posta anteriormente em prática, ajudando mulheres a dar à luz; mas ela tem de se apressar se quiser que as coisas estejam prontas no momento certo e tem de cozinhar num simples fogão tudo o que a tradição exige.” Irmanado ao lirismo de Gotthelf, o historiador holandês Johan Huizinga (1872-1945), autor do clássico O Outono da Idade Média (1919), faz tal tradição imemorial remontar ao medievo, época em que o badalar dos sinos acompanhava a peregrinação do Sol pela abóbada celeste para ditar o ritmo do Pelo Sinal da Santa Cruz ao longo do dia. 

Quando a família se posta ao redor da mesa repleta de iguarias, o avô assume a palavra. Com o respeito devido ao patriarca, todos fazem silêncio e aprumam os ouvidos. Alado pela memória transmitida, oralmente, de geração em geração, o avô leva seus familiares a meados do século 13, quando os habitantes do Emmental, em total violação aos mandamentos bíblicos, selam um pacto com o diabo. Só com a intervenção de Lúcifer – pondera a consciência torta dos camponeses – seria possível concluir a tempo uma tarefa inexequível que lhes fora ordenada pelo tirânico mandatário da região. Satanás, no entanto, lhes impõe uma condição: em troca do poder, os camponeses deveriam entregar ao diabo um bebê tenro e ainda não batizado. 

E agora: que fazer? Seria justo condenar os camponeses à fúria do mandatário? Seria justo condenar o bem geral apenas para salvar um bebê ainda não batizado? O diabo, sinuoso como ele só, faz o Pelo Sinal e prega aos camponeses que todos são filhos de Deus. (Ocorre que os habitantes do Emmental, pupilos de Pôncio Pilatos, já haviam lavado as mãos.) Se o diabo mora nos detalhes, Satanás prega que a verdadeira sabedoria reside no mal menor. É assim que, com base no Evangelho segundo Judas Iscariotes, os descendentes de Adão e Eva transformam o bebê em bode expiatório. 

Quando Lúcifer conclui sua parte no trato, é hora de receber o bebê sem batismo. Ocorre que os camponeses, pupilos de Satanás, consideraram ser possível ludibriar o próprio diabo. (Tal padrasto, tais filhos.) Eis, então, que o horror da aranha negra irrompe das profundezas pecaminosas da terra – é quando a narrativa de Jeremias Gotthelf alcança o ápice de sua força e vertigem. Mesclando a fúria vingativa do Deus do dilúvio com o sadismo do diabo em meio ao Livro de Jó, a aranha negra se esgueira por cada fresta, rasga rostos e vísceras e assume proporções colossais. Como em Sodoma e Gomorra, a população de Emmental vai sendo ceifada e envenenada pela Hidra de sete peçonhas em que se transformou a aranha negra. 

Não à toa o tradutor Marcus Vinicius Mazzari, professor de Teoria Literária da Universidade de São Paulo (USP), nos revela que, após ler a narrativa de Gotthelf, o escritor de origem búlgara Elias Canetti (1905-1994), vencedor do Nobel de Literatura em 1981, “passou a sentir a aranha espreitá-lo por todos os caminhos e enterrar-se em seu próprio rosto”.

Ainda que, ao fim e ao cabo, o martírio de um bom samaritano evite o holocausto do bebê e logre aprisionar a aranha demoníaca com base na imitação do calvário de Jesus Cristo, as tensões (e afinidades) entre Deus e o diabo em A Aranha Negra conseguem iluminar as próprias tensões (e afinidades) entre pecado e redenção, crime e castigo em meio ao imaginário do escritor e pastor Jeremias Gotthelf. 

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em letras pela USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA)

A Aranha Negra

Autor: Jeremias Gotthelf

Tradução: Marcus Vinicius Mazzari

Editora: 34

168 páginas

R$ 45

Mais conteúdo sobre:
Literatura Feodor Dostoiévski

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