Deus tá vendo

Voyeurismo, denúncia, recortes de ordem no meio caos. Você escolhe a melhor maneira de olhar para as fotografias aéreas do paulistano Cássio Vasconcellos. Pode até, se acreditar que existe alguém lá em cima guardando por nós, achar que elas traduzem o ponto de vista dos deuses, coisa assim.

CHRISTIAN CARVALHO CRUZ, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2014 | 02h10

O próprio fotógrafo diz que tem um pouco disso tudo, mas gosta de pensar que as imagens feitas de dentro de um helicóptero a 300 metros de altitude evidenciam o rastro do homem pelo planeta. "Me interessa documentar os padrões que a humanidade vai criando para viver. As estradas, as plantações, as áreas onde descartamos o que consumimos. Do alto é como se eu visse as nossas grandes pegadas", diz.

Só que as grandes pegadas também esmagam. O fotógrafo continua: "É assustadora a quantidade de pátios para descarte de veículos que existe no mundo. Pátios enormes, tão grandes quanto o de uma montadora para carros novos. Em São Paulo há pátios só de ambulâncias velhas, só de carros de bombeiro, só de Kombis, só de carros-fortes. Dezenas e dezenas. No Arizona (EUA) há uma área monstruosa para desmanche de aviões". E no Iraque, uma para tanques de guerra.

O fato é que, mesmo ao registrar essa feiura, Vasconcellos o faz com uma delicadeza de irritar niilista. E quando as fotografias são de natureza, aí beiram a esperança de que nem tudo vai pro buraco. "É que eu tenho uma enorme dificuldade com a confusão, a desordem, a poluição visual. Então, na hora de fotografar, automaticamente meu olhar dá uma limpada na área e cria imagens com linhas harmoniosas, mais bonitas." O resultado, se condensa uma parte do todo, também sugere o todo que o autor gostaria que existisse.

Filho de um antiquário e galerista, aos 15 Vasconcellos já estava fotografando. Aos 17, fazendo sua primeira exposição. Só que a fotografia sozinha não o completava. Faltava voar. "O desejo de sair do chão era até mais forte que o de fotografar, sempre foi. Quando me contrataram pela primeira vez para sobrevoar e fotografar uns terrenos no interior de São Paulo, me encontrei. Não queria deixar de fazer aquilo nunca mais. Até brevê tirei. Também sou piloto de helicóptero."

Obviamente, não faz as duas coisas ao mesmo tempo. Quando fotografa lá de cima, ele não está no manche. Está ao lado da porta do helicóptero (sempre aberta), olho no visor da câmera (que tem um sistema estabilizador para anular a vibração da aeronave), procurando seus pedaços geométricos de chão.

Aos 48 anos e 700 horas de voo, Vasconcellos mantém um parrudo banco de imagens aéreas (fotografiasaereas.com.br), de onde já saíram capa de livro, cartaz de filme e anúncios de banco e fabricante de celular. Mas é na produção artística, também salpicada de experimentalismo com recortes, montagens e processos químicos alternativos, que sua magia acontece. Como escreveu o fotógrafo e curador Eder Chiodetto na apresentação do livro Cássio Vasconcellos - Aéreas (Coleção Fotógrafos Viajantes, Editora Terra Virgem): "O espanto, a vertigem e o maravilhoso que Cássio encontra, reconfigura e nos apresenta a partir de suas viagens nos convidam a ver o mundo com olhos renovados, surreais. E, assim, arte e artista cumprem a função de causar uma rebelião nos nossos sentidos adormecidos".

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