EVELSON DE FREITAS/ESTADAO
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Lee Siegel
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Devo, não nego. E não vou pagar

‘Escrevi um artigo contando que dar o calote nos empréstimos que me permitiram cursar a universidade era minha única chance de viver. Atingi o nervo exposto da oculta tensão de classe nos Estados Unidos’

Lee Siegel, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2015 | 16h00

Há três semanas, escrevi um artigo de opinião para o New York Times no qual descrevi ter chegado a um ponto, quando jovem, em que meus pagamentos do empréstimo estudantil tinham se tornado tão esmagadores, tão proibitivos, que eu decidi que a única maneira em que poderia viver era deixando de pagar esses empréstimos. O artigo se tornou viral. A coisa virou um loucura.

Fui chamado de caloteiro. Fui caracterizado como “um crítico premiado e sanguessuga impenitente”. Algumas pessoas ligaram para o governo vir tirar a casa de minha família. Outras imploraram para as autoridades me enfiarem na cadeia. Um homem telefonou para minha casa e, quando minha mulher atendeu, me ameaçou para ela.

Fui retratado como um libertino e um parasita egoísta na sociedade. Houve um lado positivo em tudo isso, também. Para me fazer parecer alguém que havia prosperado às custas do contribuinte americano, meu status foi inflado e distorcido. No auge do furor, eu estava sendo descrito em alguns quadrantes como uma mulher de 62 anos que havia sido indicada para o Prêmio Pulitzer e vivia numa mansão de US$ 2 milhões nos arredores de Nova York. (Aparentemente alguém havia consultado a página da Wikipédia de outro escritor chamado Lee Siegel, que, aliás nunca foi indicado ao Pulitzer, mas parece ter tido a previdência de dizer que fora em seu verbete).

Nenhuma parte dessa caracterização de mim era verdadeira. Tenho 57 anos e, depois de Bruce Jenner (o ex-atleta olímpico transexual que pediu para ser chamado de Caitlyin), posso perfeitamente vir a ser uma mulher daqui a cinco anos, quem sabe? Mas essas imprecisões não foram nada em comparação com a maneira como meu artigo foi deliberadamente mal interpretado.

Fui levado a escrever o artigo pelo simples fato de que, nos Estados Unidos, a universidade não é gratuita. Isso significa que jovens pobres com talento, inteligência e motivação não podem ir à universidade de sua escolha, mas que jovens ricos, com menos dotes, podem ir a qualquer lugar que lhes agrade. Meu artigo era sobre a trágica predestinação de classe nos Estados Unidos. Era também sobre a desigualdade de punição, sobre como a evasão fiscal permanece impune, mas dar o calote num empréstimo estudantil pode arruinar a vida de uma pessoa. Os empréstimos estudantis são os únicos que não podem ser quitados por falência. Por sua vez, Donald Trump, que afirma ter ganhado mais de US$ 2 bilhões, declarou falência corporativa quatro vezes. 

As taxas de suicídios de jovens americanos estão mais altas do que nunca. Os níveis de estresse, ansiedade e depressão são maiores entre os jovens do que têm sido desde a Guerra do Vietnã. Parte da razão para isso é o montante de dívida com que os jovens se diplomam - em média US$ 30 mil. Com os juros (minha taxa de juros é de 9%), eles acabam tendo de pagar sua dívida estudantil pelo resto de suas vidas. Isso toma quase impossível muitas pessoas começarem uma família, comprarem uma casa, e mesmo comparem um carro.

Dei uma olhada nesta situação e, num ano em que as campanhas presidenciais estão começando a esquentar, pensei que poderia tentar pôr a questão da dívida estudantil no primeiro plano da consciência das pessoas. Também queria tranquilizar os milhões de jovens que, ou estão inadimplentes, ou estão tremendo de pavor à beira do calote. Perto do fim de meu artigo, num breve parágrafo, ofereci algumas dicas sobre como sobreviver após o calote. As agências de cobrança contratadas pelo governo para ir atrás de estudantes devedores com frequência aterrorizam as pessoas mentindo sobre as consequências do calote. Elas deixam os jovens, em especial jovens deixados vulneráveis por suas origens modestas, humilhados, assustados e envergonhados demais para questionar a veracidade das ameaças. Eu quis dar esperança a essas pessoas.

Sabia que, dada a conexão absurda entre moralidade e dívida, ia enfrentar uma tempestade de ofensas. Mas não esperava um furacão. Pessoas me acusaram de ludibriar o sistema para meu benefício, quando eu pensava ter deixado claro que sofri durante anos após ter ficado inadimplente. Pessoas também usaram o fato de eu ter três diplomas de Columbia para implicar que eu era de certo modo frívolo e autoindulgente com o dinheiro emprestado que havia recebido. Tive de ir à televisão para explicar que eram três diplomas, não três Audis, e que três diplomas são necessários para se tornar um professor universitário, que era o que eu pretendia me tornar antes de me decidir a ser um escritor.

No artigo, expliquei que havia começado numa pequena faculdade privada e que havia saído depois que a falência de meu pai e o divórcio de meus pais tornaram impossível eles arcarem com o custo dessa escola, mesmo com meus empréstimos. Falei de querer uma educação melhor do que as que estava recebendo na universidade estadual - diferentemente do Brasil, onde a educação pública superior é soberba, muitas faculdades e universidades estaduais nos EUA são medíocres - e de largar o estudo para vender sapatos em tempo integral.

A reação me surpreendeu. Disseram-me que, na América democrática, eu devia ter ficado onde estava. Que não devia ter olhado além de minhas origens de baixa classe média. Que devia ter ficado vendendo sapatos e que estava sendo desrespeitoso com as pessoas que vendiam sapatos para viver. E todas essas críticas estavam vindo de jornalistas que vieram de origens privilegiadas e nunca haviam trabalhado em nada remotamente parecido com uma loja de sapatos em todas suas vidas! Eu lhes assegurei, em outra entrevista na televisão, que nenhum vendedor de sapatos deixaria passar uma oportunidade de melhorar sua ocupação.

A resposta mais virulenta foi me chamarem de “criminalmente negligente” por recomendar o calote para as pessoas. As consequências do calote, gritaram meus críticos, eram tétricas. Salários confiscados! Cheques da previdência social confiscados! Crédito arruinado para sempre! Ativos sequestrados! Ações judiciais! De novo, tive de explicar na televisão que não havia escrito uma coluna de consultoria financeira; havia apelado para um ato de desobediência civil para tentar mudar um sistema injusto que estava relegando ao esquecimento social incontáveis jovens talentosos e inteligentes.

O que eu não tive tempo de dizer foi que, de fato, as chamadas consequências tétricas que os críticos estavam descrevendo eram, em sua maioria, conversa para assustar. Eram as mesmíssimas ameaças usadas pelas agências de cobrança - quatro das quais foram recentemente descontratadas pelo Departamento de Educação por mentirem a alunos inadimplentes. A verdade é que, de 7 milhões de estudantes inadimplentes, somente 175 mil estavam tendo seus salários confiscados. Somente 33 mil estavam tendo seus cheques da previdência social confiscados. Os julgamentos de calotes acontecem sete anos após a produção de um relatório a respeito. O Departamento de Educação não tem o poder de sequestrar ativos. E eles quase nunca processam alguém. Uma ação judicial é muito cara. Mas não tive a oportunidade de dizer nada disso. O clamor estava alto demais.

O ponto central de meu artigo foi que o que é legal nem sempre é moral. No meu entender, a educação, como a assistência à saúde, deve ser um direito básico. A mobilidade social - escrevi - é a chave da liberdade americana, e a chave da mobilidade social é a educação.

No dia seguinte à publicação do meu artigo, o Departamento de Educação perdoou bilhões de dólares de empréstimos inadimplentes tomados por estudantes que haviam frequentado universidades com fins lucrativos que os haviam enganado. O caso estivera pendente durante meses. Vários dias depois do artigo, Hilary Clinton e os senadores democratas Elizabeth Warren e Bernie Sanders, que haviam colocado links para o meu artigo em seus sites, fizeram declarações enfáticas sobre a necessidade de a educação ser gratuita ou financeiramente acessível. 

Tudo isso poderia não ter acontecido se eu ainda estivesse vendendo sapatos.

Quanto a mim, preciso tentar capitalizar minha coluna e ver se consigo meu próprio programa na TV cabo intitulado “A Hora do Caloteiro com Lee Siegel”. Eu daria conselhos sobre como não pagar a babá, como se livrar da mesada dos filhos, coisas assim.

Enquanto isso não acontece, tenho de usar óculos escuros quando saio. Não estou brincando. Atingir o nervo exposto da tensão de classe oculta neste país não é brincadeira. E, no mais, estou ficando preocupado. O dinheiro do empréstimo estudantil está começando a acabar.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

LEE SIEGEL É ESCRITOR E CRÍTICO CULTURAL AMERICANO. ESCREVE PARA O JORNAL THE NEW YORK TIMES E PARA A REVISTA NEW YORKER

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