Devolvam meu rosto

Uma foto de Neda Soltani ganhou a web como sendo de Neda Agha-Soltan, morta nos protestos de 2009 no Irã; a repressão aproveitou o erro para intimar Soltani a dizer que forjara a própria morte

EL PAÍS, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h10

ÁNGELES ESPINOSA

Neda se transformou no símbolo da repressão contra os anseios democráticos dos iranianos. Era junho de 2009, e sua morte, captada por celular, deu a volta ao mundo. Só que, com a precipitação dos poucos jornalistas no local, alguns meios de comunicação internacionais publicaram uma foto tirada do Facebook, a de Neda Soltani, em lugar da falecida Neda Agha-Soltan. Foi o início de um pesadelo para Soltani, que três anos mais tarde ela tenta exorcizar no livro My Stolen Face.

"O equívoco da imprensa arruinou minha vida", declarou ela ao programa Outlook, da BBC. Professora de inglês de 35 anos, Soltani hoje trabalha numa universidade dos EUA, mas não voltou a ver a família. Por causa do ocorrido, foi obrigada a fugir do Irã. Era fugir ou colaborar com o regime, que pretendia se aproveitar da confusão das fotos para que ela declarasse ser Neda Agha-Soltan e confessasse haver simulado a própria morte.

"No dia 21 de junho de 2009, fui para meu escritório de manhã e, ao abrir o correio eletrônico, encontrei 67 solicitações de amizade no Facebook. Nas horas seguintes, recebi mais 300. Naquele momento, não sabia que minha foto e meu nome haviam sido divulgados na internet e nas TVs do mundo todo", lembra.

Ela só se daria conta do que estava acontecendo no fim do dia. Embora os protestos dos estudantes contra a reeleição de Ahmadinejad tivessem provocado a suspensão das aulas na Universidade de Azad, onde ensinava inglês, Neda teve reuniões até tarde. Já de noite, antes de voltar para casa, olhou mais uma vez o correio e encontrou o e-mail de um desconhecido.

"Dizia que uma moça chamada Neda Soltani tinha sido assassinada nas ruas de Teerã no dia anterior. Como não havia informações sobre sua identidade, essa pessoa procurava dados no Facebook por eliminação, descartando uma por uma as outras Nedas Soltani que apareciam no portal", relata.

Ao chegar em casa, passou a receber telefonemas de estudantes, amigos e familiares que a haviam visto na CNN, na Fox News ou nos canais por satélite em persa que transmitem de fora do Irã. Embora as parabólicas sejam proibidas, muitos iranianos as escondem nos telhados ou jardins das casas para se inteirar do que o governo censura.

Nos dias posteriores às eleições, que a oposição e grande parte dos iranianos consideraram fraudulentas, os governantes se esforçaram para isolar o país do exterior. Não conseguiram. Enquanto o bloqueio às informações se frustrava graças aos celulares e às redes sociais, a foto de Neda tornou-se símbolo dos protestos. "A imprensa internacional estava usando uma foto minha tirada da minha conta do Facebook para acompanhar as imagens da morte de Neda Agha-Soltan", explicou Soltani na entrevista à BBC.

A jovem morta, de 27 anos e sem afiliação política conhecida, foi vitimada pelo disparo de um miliciano basij durante manifestação no centro de Teerã. A gravação por celular colocada na internet deu ao mundo a medida da repressão enfrentada pelos manifestantes iranianos. Em meio à dor, sua família, que foi proibida de realizar um funeral público, demorou 48 horas para divulgar fotos da jovem. Foram 48 horas fatídicas para Neda Soltani. "Minha foto tornara-se o rosto de uma mártir e de todo o movimento da oposição. A mídia a publicou com as imagens da morte da verdadeira mártir."

Embora a professora quisesse esclarecer a confusão, já era tarde. "Alguns blogueiros atualizaram a notícia e informaram o equívoco, mas muitos jornalistas que receberam minha mensagem não reagiram e minha foto continuou sendo usada", lamenta. "Recebi inclusive mensagens cheias de ódio, acusando-me de ser uma agente do regime que havia entrado na conta de Facebook de Neda para insultar o rosto de sua heroína."

"Foi um impacto muito forte", continua. "Pessoas do mundo todo manifestavam-se com minha foto em altares, rodeada de velas. Era como se eu estivesse vendo meu próprio funeral."

Mas esse impacto emocional empalidece perto do que veio depois. O erro causado pela pressa da imprensa abriu uma brecha que os responsáveis pela repressão iraniana não podiam deixar passar. "Três dias mais tarde, agentes do Ministério de Inteligência vieram a minha casa e me convocaram para uma reunião. Queriam convencer o mundo de que a morte de Neda Agha-Soltan não havia ocorrido, que se tratava de uma campanha de propaganda contra o Irã. Quando viram que eu não estava disposta a fazer o jogo deles, voltaram-se contra mim. Um dos agentes me disse: 'A senhora como indivíduo não conta para nós. O que está em questão é a segurança nacional de nossa pátria islâmica'".

Pior: pessoas que a conheciam, inclusive seu noivo, lhe deram as costas. Temendo o pior, Neda seguiu o conselho de amigos, subornou com uma cifra considerável um funcionário da emigração e viajou para a Turquia. Começava então a segunda parte do seu calvário, agora como refugiada em busca de asilo político, de que trata no livro que acaba de publicar. No entanto, alguns funcionários iranianos continuam afirmando que ela é Neda Agha-Soltan e simulou a própria morte. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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