The Economist
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Dez anos da crise que mudou o mundo

Em 2008 as fraturas do sistema bancário já eram graves com a quebra do Lehman Brothers; nada indica que o trauma esteja superado

The Economist, O Estado de S. Paulo

11 Agosto 2018 | 16h00

Quando lhe perguntaram como havia falido, um personagem de Ernest Hemingway respondeu: “De dois modos – gradualmente e subitamente”. Foi bem assim que o crash pegou o mundo. Primeiro, foram pipocando fraturas no sistema ao longo de 2007. Depois, veio o choque súbito e violento, quando o Lehman Brothers quebrou, em setembro de 2008. O sistema bancário global foi às cordas. O décimo aniversário desse momento assustador está se aproximando. 

Logo após o turbilhão surgiram livros como Too Big to Fail, de Andrew Ross Sorkin (que originou o filme Grande Demais para Quebrar, dirigido por Curtis Hanson) e The Big Short, de Michael Lewis (originou o filme ganhador do Oscar A Grande Aposta, dirigido por Adam McKay). O documentário Trabalho Interno, dirigido por Charles Ferguson, é um contundente ataque à indústria financeira, culpando-a pela crise. Uma nova adaptação de uma peça em três atos sobre a história do Lehman acaba de estrear em Londres.

Adam Tooze, historiador conhecido por seus trabalhos sobre o período entreguerras, visa a entreter menos e informar mais. Num monumental livro de mais de 700 páginas, ele aborda a história financeira e econômica da última década. Ao tratar de eventos tão recentes e tão dramáticos, o livro é, ao mesmo tempo, reportagem e análise histórica.

Quatro grandes temas emergem do relato de Tooze sobre a era pós-2008. O primeiro é a imediata resposta pós-crise, na qual os bancos foram socorridos e tanto as torneiras monetárias quanto as fiscais foram abertas. O segundo é a crise da zona do euro, que atingiu mais duramente Grécia e Irlanda, mas afetou também Portugal, Itália e Espanha. O terceiro é a adoção pelo mundo desenvolvido de uma política fiscal mais austera. O quarto é o crescimento de políticas populistas na Europa e nos Estados Unidos.

Tooze se alinha à maioria dos economistas ao assumir a visão de que a imediata resposta pós-crise era necessária, mas falhou ao permitir que executivos do setor bancário pagassem muito pouco por sua loucura; de que a Europa foi lenta e de pouca imaginação ao lidar com os países periféricos; e de que a mudança para a austeridade foi um erro. Tomados em conjunto, a reação contra os banqueiros, a frustração com governos da União Europeia e o impacto da austeridade levaram ao crescimento do populismo, à eleição de Donald Trump e ao voto pelo Brexit. 

Uma grande parte do problema, segundo o autor, foi a falta de liderança política. Políticos europeus inicialmente consideraram a crise um problema dos EUA, gerado em Wall Street, mesmo com bancos europeus também apresentando balanços cheios de empréstimos suspeitos. Enquanto isso, nos EUA, o governo Bush tomava medidas anticrise por meio do Congresso, com o apoio dos democratas. A ação bipartidária, porém, cessou quando Barack Obama assumiu o poder. 

Mas a falha mais perigosa pode ter sido a falta de vontade de lidar com problemas existentes no cerne do sistema – problemas que persistem até hoje. O setor financeiro, causador do turbilhão, permanece inacreditavelmente inalterado. Os bancos podem, hoje, manter mais capital, e os bônus que pagam estão ligados a desempenhos de longo termo. Esses bônus, porém, ainda estão muito altos. A média paga em Wall Street no ano passado foi de US$ 184.220, quase o recorde de 2006. Escândalos bancários como formação de cartel, lavagem de dinheiro e venda enganosa continuam a ocorrer. 

Ninguém que dormisse em 2006 e despertasse para observar os mercados financeiros hoje teria ideia de que houve uma crise. Os preços das ações nos EUA tiveram repetidamente novas altas e as valorizações foram superadas apenas pelas épocas de bolha de 1929 e 2000. As taxas de juros pagas por governos e corporações para tomar dinheiro emprestado são muito baixas, tomando-se por base padrões históricos. Em termos globais, o volume da dívida em relação ao PIB é quase tão alto quanto era antes da crise. Como o autor assinala, não está claro se governos estarão dispostos a empreender ações decisivas quando a próxima crise bater. 

O debate sobre políticas macroeconômicas segue em parte como sempre foi. Os que acreditam que governos podem continuar tomando emprestado, e gastando, seguem discutindo com os que acham que a dívida já está muito alta. Aqueles que querem as políticas de bancos centrais de volta ao normal (altas taxas, fim de compras de títulos do governo) ainda discutem com aqueles que acreditam que um arrocho monetário prematuro prejudicará uma economia ainda frágil.

A grande mudança está no ânimo do público. A ideia de que os mercados, deixados para decidir sozinhos vão, de modo eficiente e claro, alocar recursos, ganhou adesões nos anos 1990 e início dos anos 2000. Governos de centro-esquerda, como o de Tony Blair, satisfaziam-se em deixar que os mercados financeiros seguissem seu curso. Agora, esses políticos de soluções intermediárias estão fora do poder e os eleitores fogem para a extrema esquerda e a direita nacionalista. 

Mesmo o Partido Republicano dos EUA vem engolindo seu instinto pró-mercado e tolerando as medidas protecionistas e as ameaças do presidente Trump. Muitos conservadores britânicos são abertamente hostis a líderes empresariais que manifestem receio sobre o Brexit. A ideia de que, no longo prazo, o comércio deixa todo mundo feliz não é mais universal. Na verdade, Trump a considera um jogo de soma zero. Essas visões se refletem nos números: o comércio global parou de crescer mais depressa que o PIB, como crescia antes da crise.

Essa mudança de ânimo provoca temores sobre o que pode acontecer quando outra tempestade atingir a economia mundial. O nível de cooperação de 2008 e 2009 – o banco central americano chegou a fornecer dólares para seus pares europeus que estavam com caixa baixa – pode não ocorrer tão facilmente numa próxima vez. 

Os cronistas de amanhã devem agradecer a Tooze por suas constantes pesquisas. Em seu esforço para produzir o mais abrangente relato sobre um tema complexo e excitante, ele não deixa sem exame títulos lastreados em hipotecas ou obrigações de dívida colateralizada (CDB). O leitor comum poderá achar a obra um pouco trabalhosa. Não é que o autor não esteja vendo a árvore sem enxergar a floresta – é que a floresta é tão grande e sombria que é fácil se perder nela. Às vezes, temas mais amplos são simplesmente obscurecidos por uma nova rodada reuniões cheias de suspense. 

Tooze encerra comparando os eventos atuais àqueles de 1914, quando o mundo, como um sonâmbulo, caminhava para o conflito. Mas o paralelo mais pertinente seria com o período entreguerras. O armistício pôs fim à Primeira Guerra, mas as tensões nela geradas permaneceram latentes e voltam a explodir. 

Para os legisladores, uma outra metáfora envolvendo morte talvez seja mais apropriada. Os bancos centrais interromperam um ataque cardíaco econômico global com uma cirurgia de emergência, mas o paciente voltou aos velhos hábitos de fumar, beber demais e se encher de comida gordurosa. Ele pode até parecer saudável, mas o próximo ataque poderá ser mais violento, e as técnicas de ressurreição que funcionaram uma década atrás podem não dar certo uma segunda vez. /TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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