Montagem/Estadão
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Dez livros essenciais indicados pela equipe do 'Aliás' em abril

Lista contém obras inéditas e relançamentos que não podem passar em branco

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2021 | 10h00

Aliás seleciona mensalmente dez livros que não podem faltar na estante dos leitores, entre obras inéditas e reedições, livros nacionais e estrangeiros. Confira a seleção deste mês:

O Jardim dos Finzi-Contini - Giorgio Bassani (Todavia) 

Morto há 21 anos, o premiado escritor italiano Giorgio Bassani encontrou no diretor Vittorio de Sica o intérprete ideal para o cinema de seu mais popular romance, O Jardim dos Finzi-Contini, publicado em 1962 e transformado em filme em 1970, ganhando, inclusive, o Oscar de melhor filme estrangeiro (1972). Bassani deveria ter sido o co-roteirista ao lado de Vittorio Bonicelli e Ugo Pirro, mas terminou abandonando a produção por discordâncias artísticas – e não ideológicas, uma vez que tanto ele como De Sica lutaram contra o fascismo (Bassani chegou a ser preso em 1943). O Jardim dos Finzi-Contini se passa justamente nos últimos anos do regime, em Ferrara, abordando o cerco a uma família aristocrática de judeus que acaba deportada para a Alemanha. O livro abre com um prólogo em que o narrador, um judeu italiano, narra a vista ao cemitério de Ferrara onde está enterrado Alberto, o único filho dos Finzi-Contini que morreu antes da deportação. 

Entrevistas Brasileiras, vol. 2 - Hans Ulrich Obrist (Cobogó)

O curador suíço Hans Ulrich Obrist é um  apaixonado pelo Brasil. Tanto que, continuando seu projeto de fazer um mapeamento do que é importante na arte contemporânea brasileira, conversou com 30 artistas e pensadores brasileiros nascidos depois de 1959. Grande parte das entrevistas deste segundo volume foi feita depois de 2014 – as mais recentes, durante o isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus. A Editora Cobogó vem acompanhando este trabalho de Ulrich Obrist desde 2009, pretendendo chegar a oito volumes de entrevistas. No segundo volume desfilam artistas visuais como Adriana Varejão, Ernesto Neto e Rosana Paulino e cineastas como Erik Rocha e Karin Aïnouz, todos empenhados em analisar as mazelas de um Brasil cheio de contradições, entre elas o descompasso entre o avanço da arte contemporânea brasileira lá fora e o atraso nas questões sociais aqui dentro.

Debaixo do Vulcão - Malcolm Lowry (Alfaguara)

Um dos grandes clássicos do século 20, eleito entre os 100 melhores livros por jornais como The Guardian e Le Monde, Debaixo do Vulcão ganha agora nova tradução pelo competente José Rubens Siqueira. O diretor John Huston adaptou o livro para o cinema, mas, apesar da competência do cineasta e da grande interpretação de Albert Finney como o alcoólatra cônsul britânico Geoffrey Firmin, o filme falha ao tentar escalar o que Foster Hirsch classificou como o “Monte Everest" da literatura moderna. Publicado em 1947 por Malcolm Lowry (1909-1957), Debaixo do Vulcão acompanha a derrocada do cônsul numa pequena cidade mexicana, justamente no Dia dos Mortos, em 1938, a despeito dos esforços (inúteis) de sua ex-mulher e seu meio-irmão para ajudar o diplomata. O livro foi anteriormente traduzido por Leonardo Fróes com o título de À Sombra do Vulcão. As duas traduções buscam lapidar o simbolismo presente no romance do inglês Lowry, que morou no México. /A.G.F.

As Pipas - Romain Gary (Todavia)

Lituano de nascimento, o escritor, cineasta e herói de guerra Romain Gary (1914-1980) teve um fim trágico (suicídio) como o de sua mulher, a atriz Jean Seberg (de Acossado, de Godard), após denunciar que o FBI estava por trás da morte da esposa, encontrada morta (em 1979) no banco traseiro de seu carro ao lado de barbitúricos e álcool. Sua infância e juventude foi contada por Jules Dassin em Promessa ao Amanhecer, filme baseado em relato autobiográfico. Em As Pipas, o cenário também é a guerra (a Segunda), mas, desta vez, a escrita lírica de Gary ganha mais espaço ao contar a história de Ludo, sobrinho de um fabricante de pipas na Normandia apaixonado por uma jovem polonesa, Lila, que passa o verão numa rica propriedade próxima à pequena fazenda do tio do garoto. As Pipas foi o último livro lançado em vida por Gary, cuja obra-prima ainda é As Raízes do Céu (1958). 

Bichos Malvados - Roald Dahl (Editora 34)

O escritor britânico Roald Dahl (1916-1990), conhecido como autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate, publicou três livros de poesia para crianças, entre eles este divertido Bichos Malvados, repleto de imagens surrealistas como uma vaca voadora, um  monstro que habita a barriga de um  garoto e um porco esperto o suficiente para devorar seu dono. A tarefa de traduzir esses loucos poemas exigiu da dupla Angélica Freitas e Marília Garcia um esforço descomunal. Dahl, obviamente, jamais subestimou seu público e trata as crianças como seres inteligentes, capazes de entender os trocadilhos que faz. Grande parte da obra de Dahl já foi traduzida para o português. “Bichos Malvados’ traz nove historietas engraçadas com  ilustrações de sir Quentin Blake, que já ilustrou mais de 300 livros  e é um defensor apaixonado da causa indígena. Jamais casou nem teve filhos, mas entende do imaginário infantil como poucos.

 

Crônica da Casa Assassinada - Lúcio Cardoso (Companhia das Letras)

Amigo e confidente de Clarice Lispector, Lúcio Cardoso não apenas foi um dos autores que mais a inspiraram, mas também foi um dos grandes nomes da literatura brasileira no século 20. A reedição de sua obra-prima, Crônica da Casa Assassinada, vem em boa hora. O romance se passa através de gerações de uma família que vai se desintegrando, contado pela voz de narradores diferentes que retratam visões contrastantes e contraditórias sobre a saga do clã Meneses. Nesse cenário polifônico, a mansão onde se passam os dramas familiares acaba sendo praticamente a protagonista da obra.

Corpo a Corpo - Oduvaldo Vianna Filho (Temporal)

Escrito em 1970, Corpo a Corpo é um monólogo do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho que permanece atual mais de meio século após sua estreia nos palcos. O contexto da época, de endurecimento da ditadura militar, ressoa nos tempos contemporâneos graças ao recrudescimento do autoritarismo, mas é seu protagonista que dá vida à obra: o sociólogo e publicitário Luiz Vivacqua tem consciência do que se passa no país, mas sabe fazer parte de uma classe média que tem a ganhar com esse cenário. O monólogo vai externando seu dilema entre ética e política, entre o individual e o coletivo.

Cidades Sensíveis - Newton Moreno (Folhas de Relva)

Cidades Sensíveis, de Newton Moreno, desafia classificações. Parece como um livro de contos à primeira vista, mas os textos que reúne nem sempre assumem um tom narrativo, por vezes lembrando poemas, por vezes crônicas. A inspiração para a obra está explícita no título: Cidades Invisíveis, do escritor italiano Italo Calvino, também é um livro hostil a rótulos. Na obra de Moreno, cada texto foi inspirado por uma cidade, real ou imaginária. De São Paulo a Londres, passando por cidades inominadas nos Andes, no México, em Goiás ou na Paraíba. O fio condutor das narrativas, no entanto, é a espiritualidade — ou sua ausência.

Férias na Disney - Bruno Molinero (Patuá)

Os versos de Bruno Molinero se dividem entre o lirismo ("felizes são os cactos/intactos/que sem esperança/de a lágrima do calango/virar rio/não têm tempo de olhar/as estrelas") e a denúncia social ("essas famílias/quando voltam/da disney/querem vitelo/chandon/parmesão/mas aqui/no avião/só recebem o olhar/suíço da aeromoça/chicken or pasta/e suco de melão"). Mas sempre sob um olhar irônico que o poeta lança para a elite brasileira, desnudando a hipocrisia da classe abastada para quem uma viagem à Disney é o ápice do turismo. A crítica fica evidente em poemas como sabe com quem está falando?, que retrata o absurdo de uma mulher que não quer se submeter à nova regra de seu clube, que manda as empregadas e babás vestirem uniforme branco. "o clube quer mandar/mais do que eu nos/meus próprios funcionários?". 

 

Tempos de Violência - Edson Fernandes (Mireveja)

A expansão para o oeste que caracteriza o cerne do cinema de faroeste não foi um fenômeno isolado dos Estados Unidos. No Brasil, esse movimento também aconteceu, mas acabou sendo menos estudado e romantizado. Tempos de Violência, do historiador Edson Fernandes, mostra como se deu a ocupação de territórios que hoje são o interior paulista, relacionando os valores racistas e machistas que embasaram essa migração a fenômenos contemporâneos, e ainda investigando a chegada do progresso tecnológico com trens, telefone e luz elétrica nas primeiras décadas do século 20.

 

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