Montagem/Estadão
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Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em agosto

Obras de ficção e não ficção, entre lançamentos e reedições, selecionados para ler na quarentena

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 16h00

A equipe do Aliás seleciona, no último domingo de cada mês, dez obras publicadas recentemente para incluir em sua Estante. Confira as indicações de obras para ler na quarentena este mês:

A Marca do Editor - Roberto Calasso (Âyiné)

O editor Roberto Calasso trabalhou vários anos para a conceituada Adelphi, editora italiana fundada em 1962. Como autor, teve entre seus admiradores Italo Calvino. Seus livros foram traduzidos em diversos países, inclusive o Brasil, e tratam de temas os mais diversos, do rosa usado por Tiepolo à literatura de Kafka. Em A Marca do Editor ele conta um pouco sua experiência e muito sobre a de outros editores que fizeram história, de Aldo Manúcio, ativo no século 15 , até Kurt Wolf, alemão empenhado em publicar autores contemporâneos que as editoras ignoravam na época, como Kafka, Trakl e Robert Walser, para citar apenas três gigantes literários do século 20.

O Avesso da Pele - Jeferson Tenório (Companhia das Letras)

O escritor carioca Jeferson Tenório, radicado em Porto Alegre, publicou seu primeiro livro em 2013, O Beijo na Parede, sobre um garoto negro, órfão de pai e mãe, que, além de enfrentar a pobreza e o abandono, ainda é vítima do racismo. Em O Avesso da Pele, também a questão da orfandade e do preconceito racial estão presentes, para discutir as “vidas desperdiçadas” que circulam pelo Brasil, cujo futuro é incerto e o presente, uma tragédia. Em seu livro, Tenório narra a história de Pedro, cujo pai foi morto durante uma abordagem policial. O narrador investiga a trajetória paterna, refletindo sobre sua condição de negro num país escravocrata e hostil ao diálogo interclassista. 

Sarrasine - Honoré de Balzac (Iluminuras)

Bataille considerava Sarrasine o ponto alto da carreira de Balzac. Com justa razão. A pequena narrativa, além da ousadia temática, é um primor de síntese sobre o significado oculto da criação artística. O Sarrasine do título é um escultor que parte para a Itália em 1758 e lá se apaixona por uma cantora de ópera – na verdade, um cantor, um castrato. O estranho é que essa história se repetiria dois séculos depois na vida real entre um diplomata francês e um cantor de ópera chinês, ambos condenados por espionagem pelo governo francês. No livro de Balzac, Sarrasine, um homem feio, apaixona-se pela cantora Zambinella sem saber que sua anatomia escondia um segredo.

Um Apartamento em Urano - Paul B. Preciado (Zahar)

Num país onde a questão de gênero é tabu, um livro como o do filósofo transgênero espanhol Preciado, aluno de Derrida, cai como uma bomba. O livro foi escrito no ano passado e conserva parentesco com outras obras de Preciado, como Manifesto Contrassexual e Testo Junkie, em que o filósofo (antes Beatriz Preciado) descreve como administrava testosterona em um corpo que, segundo ele, não é de um homossexual, de um heterossexual e nem bissexual. Preciado se diz “dissidente do sistema sexo-gênero”. Um Apartamento em Urano reúne crônicas escritas para o jornal francês Libération entre 2010 e 2018. Por esses textos Preciado já foi ameaçado de morte. 

A Razão Africana - Muryatan S. Barbosa (Todavia)

Nascido na Suécia há 43 anos, o professor Muryutan S. Barbosa estuda há tempos a história intelectual da África. Em A Razão Africana ele se atém aos intelectuais africanos modernos, dando sua contribuição aos estudos acadêmicos brasileiros notadamente marcados pelo caráter eurocêntrico dessas investigações. O autor analisa o pensamento africano no entreguerras (1917-1939) e o papel da diáspora na disseminação da cultura negra – desde a retórica antiintegracionista de Marcus Garvey até o pensamento antropológico do sul-africano Archie Mafeje e do nigeriano Bassey Andash, ambos falecidos. As mulheres africanas ganham destaque no último capítulo. 

Regresso a Casa - José Luís Peixoto (Dublinense)

Um dos principais escritores da literatura lusófona no século 21, o português José Luís Peixoto marca sua volta à poesia com um outro retorno mais concreto. O livro Regresso a Casa é o resultado de seu período de isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus. Os poemas presentes na obra, publicada quase simultaneamente em Portugal e no Brasil, tratam sempre do ambiente para o qual todos voltamos: o lar. Preso à própria residência, o poeta se viu obrigado a refletir e escrever sobre suas paredes, seus móveis, sua solidão, suas recordações. Um reflexo lírico da situação contemporânea.

Hackeando Darwin - Jamie Metzl (Faro)

Desde que a estrutura de dupla hélice do DNA foi descoberta, em 1953, a genética evoluiu tão rapidamente que hoje é difícil acompanhar suas novidades. Uma das tecnologias viabilizadas por esse campo é a edição de genes para a supressão de características indesejadas, como doenças. No entanto, essa possibilidade ainda é objeto de um intenso debate ético sobre eugenia e darwinismo social. No livro Hackeando Darwin, o futurista americano Jamie Metzl traça um panorama do estado da arte da genética e provoca uma discussão interessante a respeito de como a evolução humana será provavelmente ditada pela engenharia de nosso DNA.

A Profecia - David Seltzer (Pipoca & Nanquim)

A chegada do Anticristo é um dos temas mais comuns da literatura: O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, imagina o Diabo na União Soviética dos anos 1920; Terry Pratchett e Neil Gaiman lançam mão do recurso em Belas Maldições pela via do humor; já A Profecia, de David Seltzer, leva a ideia para uma vereda muito mais perturbadora. Levado para o cinema em 1976 por Richard Donner com Gregory Peck no elenco, o livro narra a história de uma criança trocada no nascimento, que acaba sendo criada por um diplomata cético, mas que na verdade é o Anticristo. A obra explora essa figura no mundo moderno, marcado pelas instabilidades sociais. 

A Única Mulher - Marie Benedict (Planeta)

A Única Mulher é uma biografia romanceada de Hedy Lamarr, uma das figuras mais interessantes do século 20, que desconstruiu estereótipos ao unir beleza e intelecto, tendo sido tanto uma atriz de sucesso quanto uma cientista brilhante. Nascida Hedwig Eva Maria Kiesler, a austríaca se casou com um comerciante de armas e escapou das garras nazistas, apesar de sua ascendência judaica. No entanto, fugiu para os EUA e estrelou filmes como Sansão e Dalila, Flor do Mal e Argélia. Paralelamente à carreira artística, Lamarr inventou e patenteou com o pianista George Antheil uma tecnologia que está na base dos atuais dispositivos Wi-Fi e Bluetooth.

Ingleses no Brasil: Relatos de Viagem, 1526-1608 - organizado por Sheila Hue e Vivien K. Lessa de Sá (Chão)

A Chão Editora vem, nos últimos meses, publicando documentos históricos inéditos em livro que ajudam a compreender a formação do Brasil, sendo o mais recente Ingleses no Brasil: Relatos de Viagem, 1526-1608. Organizado por Sheila Hue e Vivien K. Lessa de Sá, o livro parte alguns registros textuais inusitados para oferecer novos olhares sobre o início da colonização do Brasil. Por meio de cartas, notícias, diários de viagem, depoimentos à Justiça, entre outros textos, todos escritos por viajantes ingleses no País, a obra resgata fragmentos da vida cotidiana dos séculos 16 e 17 e descrições da paisagem natural do Brasil colonial.

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