Montagem/Estadão
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Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em agosto

Obras de ficção e não ficção, brasileiras e estrangeiras compõem lista de lançamentos literários

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

28 de agosto de 2021 | 15h00

Todos os meses a equipe do Aliás seleciona dez livros para indicar aos leitores, de ficção e não ficção, nacionais e estrangeiros, que estejam chegando às livrarias. Confira a seleção de agosto:

Aisthesis - Jacques Rancière (Editora 34)

Publicado lá fora há nove anos, sai agora a tradução brasileira de Aisthesis (Cenas do Regime Estético da Arte), do filósofo francês Jacques Rancière, lançamento que é a síntese de seu pensamento estético sobre o conceito de modernidade e o papel que os artistas modernos tiveram. Aisthesis quer dizer “estética”, mas também a capacidade de perceber o mundo por meio dos sentidos. Rancière analisa particularmente o papel da vanguardas no cruzamento arte/vida, não apenas nas artes visuais, mas na escrita. Nos 14 “episódios” do livro desfilam telas de Murillo, romances de Stendhal, esculturas de Rodin e filmes de Chaplin. 

Uma Tristeza Infinita - Antônio Xerxenesky (Companhia das Letras)

É incomum que um autor brasileiro situe seus romances em outro país, mas Antono Xerxenesky morou um tempo na Suíça, em 2017, a convite da Fondation Jan Michalski, em Montricher. Seu delicado Uma Infinita Tristeza fala de um jovem psiquiatra francês convidado a trabalhar na Suíça, num hospital isolado, pouco depois da 2ª. Guerra. Nicolas é casado com Anna, que não se adapta à vida nas montanhas e viaja com frequência a Genebra. O psiquiatra se insurge contra os tratamentos de choque da época e lida com os traumas provocados pela guerra. O começo do romance é magistral: o encontro do médico com animais da floresta encobertos pela neblina.

Dicionário de Música - Jean-Jacques Rousseau (Unesp)

Antes de ser filósofo, Rousseau dedicou muito do seu tempo à música, a ponto de atrair a atenção da corte de Luís 15. E, naturalmente, convites de gente como Diderot para escrever sobre o tema na famosa Enciclopédia (1749), que concebeu com D’Alembert. Dicionário de Música deve muito a essa experiência. Antagonista de Rameau, Rousseau não perde a oportunidade de contestar sua teoria sobre a harmonia. No verbete dedicado ao tema, Rousseau investe contra o sistema harmônico de Rameau, preferindo o de Tartini, desconsiderando a defesa do colega francês de que harmonia é derivada da ressonância do corpo sonoro.

Discurso Sobre a Metástase - André Sant'Anna (Todavia)

Em Discurso sobre a Metástase, André Sant’Anna promove um exercício estilítico dividido em três partes: na primeira delas, o escritor de Belo Horizonte fala de um Brasil dividido entre elites irresponsáveis e a massa de manobra. Na segunda parte, André fala dele mesmo, de como é complicado ser malabarista num circo que pega fogo. Na terceira e última parte, ele se dedica à dramaturgia numa peça que começa com três protagonistas anunciando o fim do teatro. Entre personagens beckettianos e reais surgem pessoas como Regina Casé e uma profusão de críticas que vão de uma menção ao Teatro do Oprimido a uma nada elogiosa evocação do teatro de Brecht. 

Tungstênio - César Vallejo (Iluminuras)

Poeta peruano, César Vallejo (1892-1938) era mestiço, de origem humilde. Isso fica claro quando se lê seu romance Tungstêntio, de 1931, que narra a truculência com que uma empresa americana explora a força de trabalho de indígenas peruana mina de tungstênio que mantém em Quivilca. O romance se passa no período imediatamente anterior à eclosão da 1ª. Guerra. O tungstênio é um metal tão duro e resistente que logo foi usado em armas de guerra. E Vallejo usa bem essa metáfora para descrever a resistência de indígenas que vivem num estado de escravidão e são vítimas de estupros, como a mestiça Graciela (não é familiar?). Um clássico redescoberto. 

Duas Formações, Uma História - Luís Augusto Fischer (Arquipélago)

Em Duas Formações, Uma História, o crítico literário e professor da UFRGS Luís Augusto Fischer propõe uma nova maneira de pensar a história da literatura brasileira – e isso, de modo algum é uma empreitada trivial. Para tanto, Fischer perpassa a forma como Roberto Schwartz, Alfredo Bosi e Antonio Candido pensaram a história da literatura para trazer uma nova interpretação da disciplina. Ao se livrar de uma cronologia fixa e de categorias estanques, Fischer leva em consideração os avanços historiográficos, sociológicos e antropológicos dos últimos anos para traçar uma história mais representativa do que seria o cânone literário brasileiro.

Lênin: A Biografia Definitiva - Robert Service (Record)

Poucos indivíduos influenciaram tanto o rumo da História com H maiúsculo como o líder da Revolução Russa. Lenin, pseudônimo pelo qual ficou conhecido Vladimir Ilyich Ulianov, morreu há quase cem anos, em 1924, mas sua vida ainda produz eco no mundo contemporâneo. Para não apenas relatar, mas analisar a vida de uma figura de tal porte, foi necessário que um historiador como Robert Service, professor de história russa em Oxford, se debruçasse sobre sua biografia. Service, que é autor de livros sobre Stalin, Trotski, Nicolau II e Vladimir Putin, retrata a vida de Lenin desde sua infância até o auge do líder soviético. 

Expiração - Ted Chiang (Intrínseca)

Ted Chiang talvez seja o herdeiro literário de Jorge Luis Borges, e isso fica claro em O Que se Espera de Nós, o mais curto dos nove contos de Expiração. Imagine um dispositivo com um botão e uma lâmpada. Sempre que se aperta o botão, a lâmpada se acende – um segundo antes do botão ser pressionado. Impossível de burlar, o brinquedo acaba por comprovar aquilo que a física moderna por vezes suspeita: o livre-arbítrio é uma ilusão – o que leva a uma onda de depressão. Por trás de conceitos científicos simples como esse, Chiang debate temas complexos e necessários em uma era na qual a ciência parece cada vez mais integradas à vida cotidiana. 

Terra Alta - Javier Cercas (Tusquets)

Após dois livros cujo cenário era a Guerra Civil Espanhola – Os Soldados de Salamina, sobre como o escritor fascista Rafael Sánchez Mazas foi salvo por um soldado inimigo, e O Rei das Sombras, sobre seu tio-avô que morreu lutando pelo ditador Franco –, o escritor espanhol Javier Cercas, que foi lido por figuras como Mario Vargas Llosa e Susan Sontag, retorna à literatura agora pela veia policial. Em Terra Alta, o protagonista Melchor Marín é um policial encarregado de investigar o bárbaro assassinato dos proprietários da maior empresa da pacata província que dá nome ao livro, mas também de lidar com espectros de seu próprio passado.

A Fé que Perdi nos Cães - Marcelo Mirisola (Reformatório)

Nos fragmentos de A Fé que Perdi nos Cães, Marcelo Mirisola questiona se Shakespeare escreveria O Mercador de Veneza se vivesse na era do politicamente correto, filosofa sobre a existência de Deus a partir de Stephen Hawking e faz retratos irônicos da classe média alienada e do círculo literário brasileiro. O autor de Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia destila acidez em pequenos textos que vão de verbetes à la Ambrose Bierce a contos que beiram o grotesco, passando por crônicas que examinam o Brasil, como a que trata do dia em que dois negros picharam uma suástica na estátua de Zumbi sem saber o significado do símbolo e nem quem foi Zumbi

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