Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em janeiro

Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em janeiro

De clássicos de Adorno e Huxley a novidades de Teixeira Coelho e Lucila Mantovani, livros que não podem passar em branco

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 16h00

A equipe do Aliás seleciona, na última edição de cada mês, dez obras publicadas recentemente no Brasil e em outros países para incluir em sua Estante. Confira as indicações de janeiro:

O Templo - Stephen Spender (Editora 34)

Como seu amigo Christopher Isherwood, que escreveu sobre sua experiência na Alemanha pré-nazista (Adeus a Berlim, que deu origem ao filme Cabaret), o inglês Stephen Spender (1909-1995) contou sua vida na Alemanha no período em O Templo, recusado por seu editor nos anos 1930 e só publicado em 1988. Isherwood é personagem de seu livro, ao lado do poeta Auden (ambos com nomes trocados). Nele, Spender retrata a comunidade homossexual na Alemanha antes e depois da ascensão de Hitler. Na primeira parte, tudo parece apontar para a conquista da liberdade. Na segunda, com a volta do protagonista, em 1932. a realidade se impõe.

O Romance de Formação - Franco Moretti (Todavia)

Autor de um livro fundamental sobre o romance em cinco volumes, o italiano Franco Moretti, um dos grandes especialistas no gênero, já foi publicado no Brasil (Atlas do Romance Europeu) e é novamente lembrado com O Romance de Formação, em que analisa o processo embrionário do gênero, seu desenvolvimento e declínio na modernidade literária. Na obra, autores franceses como Flaubert e Stendhal são analisado ao lados dos russos (Puchkin) e ingleses (Dickens). Moretti coordenou a edição de A Cultura do Romance, que saiu pela Cosac Naify em 2009 e trazia textos de Beatriz Sarlo, Roberto Schwarz, Umberto Eco e Vargas Llosa, entre outros. 

As Mulheres Contam - D.H. Lawrence (Carambaia)

Conhecido por romances que desafiaram a sociedade de sua época, como O Amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence (1885-1930) foi também um excelente contista. As Mulheres Contam reúne textos curtos escritos entre 1910 e 1927, alguns com ênfase na guerra entre os sexos, como o conto de abertura, Bilhetes, Por Favor. Outros falam de experiências de Lawrence em lugares como Nottinghamshire, como Odor de Crisântemos, sobre a mulher de um mineiro apreensiva diante do atraso do retorno do marido. Sintonizado com o movimento feminista, o autor trata em outros contos de temas como relações interclassistas e independência da mulher.

A Menininha do Hotel Metropol - Liudmila Petruchévskaia (Companhia das Letras)

Segundo livro publicado no Brasil da escritora russa Liudmila Petruchévskaia, A Menininha do Hotel Metropol é uma autobiografia com cenas de horror, como a da prisão de sua bisavó, que foi enterrada viva a caminho de sua propriedade rural. Aos 81 anos, a autora, uma das mais celebradas da Rússia, conta como seus parentes, intelectuais bolcheviques, foram perseguidos pelo regime soviético com a ascensão de Stalin ao poder. Morando no Hotel Metropol, eles, que viviam bem, passam fome quando são obrigados a buscar uma nova vida em Kuibichev. Isso só alimentou o inconformismo de Petruchévskaia, que teve sua obra banida na ex-URSS.

Estudos sobre a Personalidade Autoritária - Theodor Adorno (Unesp)

Terrivelmente atual, Estudos sobre a Personalidade Autoritária, do filósofo e sociólogo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969) foi publicado nos Estados Unidos em 1950 com textos dele e outros autores. A obra coloca em discussão o fenômeno do fascismo durante a 2ª. Guerra Mundial, apontando-o não como um episódio isolado europeu, mas com reflexos na sociedade americana. Adorno e seus colaboradores identificam o fascismo em forma latente em parte da população, apontando alguns “sintomas” como o anti-intelectualismo, o convencionalismo, a superstição e a repressão da homossexualidade. O estudo decorre de uma pesquisa junto ao público.

O Elogio da Literatura - Zygmunt Bauman e Riccardo Mazzeo (Zahar)

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman foi um exímio observador do mundo contemporâneo e um prolífico autor. Tanto que, após a sua morte, em 2017, sete livros seus foram publicados postumamente no Brasil. Como boa parte deles, o mais recente, O Elogio da Literatura, é um diálogo com outro intelectual. Dessa vez, Bauman medita, em doze conversas com o editor e ensaísta italiano Riccardo Mazzeo, a respeito do intercâmbio entre a arte – mais especificamente a literatura – e as ciências humanas. Para isso, conjugam com erudição as obras literárias de Kafka, Saramago e Calvino às teses filosóficas de Kant, Descartes e Adorno. 

Puro Gesto - Teixeira Coelho (Iluminuras)

José Teixeira Coelho Netto versou sobre os mais distintos temas em seus livros mais recentes de ensaios, desde a cultura no mundo digital até a ascensão da inteligência artificial. No entanto, ele nunca deixou de ser um ficcionista talentoso, e demonstra isso em seu mais novo romance, Puro Gesto. O livro acompanha um grupo de amigos que se reencontra em São Petersburgo a fim de ponderar sobre os acontecimentos históricos que a cidade testemunhou, como quem faz um balanço do século 2o. Coelho usa uma linguagem poética ao escrever o romance em versos, e também emprega imagens junto ao texto para maior imersão narrativa. 

Recursão - Blake Crouch (Intrínseca)

Com seu romance anterior, Matéria Escura, que tratava da noção de multiversos sob uma perspectiva intrigante, o jovem escritor americano Blake Crouch se credenciou como um sucessor de Philip K. Dick ao questionar a essência mais fundamental da realidade. Agora, o autor – que já teve sua trilogia Pines adaptada para a televisão com produção de M. Night Shyamalan, mas sem o sucesso de Twin Peaks, que a inspirou – volta às tramas de mistério com Recursão. No livro, uma epidemia produz memórias falsas nas pessoas acometidas por ela, e um detetive precisa se associar a uma neurocientista para garantir o direito da humanidade à identidade individual.

Com o Corpo Inteiro - Lucila Mantovani (Pólen)

A estreia literária de Lucila Mantovani começou como um projeto de pós-graduação, passou pelo curso Clipe, da Casa das Rosas, e acabou sendo publicada com o apoio do Proac. Incensado por essas instâncias, o romance Com o Corpo Inteiro trata do delicado assunto dos relacionamentos abusivos por meio de experiências pessoais da autora, mescladas com elementos ficcionais e técnicas formais como o fluxo de consciência. Na obra, a personagem-narradora revisita o divórcio dos pais e coloca em questão o próprio namoro após uma viagem tanto pelo seu passado quanto pela Amazônia, onde tem contato com a sabedoria dos povos indígenas.

O Tempo Deve Parar - Aldous Huxley (Biblioteca Azul)

Aldous Huxley já havia refletido acerca das mazelas do totalitarismo em seu clássico Admirável Mundo Novo, de 1932, quando se debruçou novamente sobre o tema durante a 2.ª Guerra Mundial, em O Tempo Deve Parar. Tomando como pano de fundo histórico a ascensão do fascismo e do nazismo na Europa, o romance acompanha o jovem inglês Sebastian Barnack. Quando ele viaja a Florença para passar as férias na casa de seu tio Eustace, acaba sendo introduzido a duas visões de mundo diferentes que o mudam para sempre: a do tio, um ateu que lhe introduz aos prazeres da vida, e ao vendedor de livros Bruno, que o apresenta à espiritualidade

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