Montagem/Estadão
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Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em junho

Obras clássicas e contemporâneas de autores brasileiros e estrangeiros, incluindo ficção, não ficção e poesia compõem a lista das indicações deste mês

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 15h00

De autores clássicos como Herman Melville a novas vozes da literatura como John Scalzi, de obras estrangeiras a autores brasileiros como Geruza Zelnys e Luís Cláudio Villafañe G. Santos, confira dez lançamentos que não podem faltar na sua estante em junho:

Jaqueta Branca - Herman Melville (Zahar)

Lançado em 1850, um ano antes do clássico Moby Dick, o ambicioso ‘Jaqueta Branca’ já foi definido como o ‘mais político’ livro de Herman Melville. Com justa razão. Nestes tempos em que a democracia se encontra ameaçada em vários pontos do globo, ‘Jaqueta Branca’, obra repleta de lances autobiográficos, é uma crítica feroz aos regimes de servidão e ao desrespeito pelos direitos humanos básicos. A bordo de um navio de guerra no século 19, um marujo, Jaqueta Branca, que se confunde com a figura do autor, descreve as condições dos tripulantes submetidos à absurdas ordens de seus superiores. Detalhe: numa de suas viagens, o navio faz escala no Rio de Janeiro. Melville, republicano, traça um retrato próximo ao caricatural do imperador Pedro II subindo a bordo do navio de guerra USS Neversink – na vida real, o USS United States–, em que o próprio Melville se engajou como segundo marinheiro sete anos antes da publicação de seu quinto romance.

Senhor das Moscas - William Golding (Alfaguara)

Lançado em 1954, o clássico do Nobel William Golding, O Senhor das Moscas tem sido analisado nestes dias de pandemia como uma alegoria da natureza selvagem que se apossa dos homens em tempos de crise. Mas o romance é mais que isso: mostra como o homem, submetido ao aterrador chamado da sobrevivência, se transforma num predador da pior espécie, podendo, sim, ser visto como uma metáfora do fim da inocência. Um avião britânico, transportando crianças durante a guerra, despenca numa ilha isolada e logo se forma uma tribo sob o comando do pré-adolescente Ralph, eleito chefe do grupo e autoridade suprema do que inicialmente se acredita ser uma democracia. O regime vai se deteriorando e se transforma com a luta pelo poder entre Ralph e Jack, postulante ao cargo nesse inferno em que o “senhor das moscas”, uma cabeça de porco espetada num pedaço de pau, “alerta’ um garoto epilético sobre o trágico destino que o aguarda – ele será massacrado pelos outros meninos, as bestas modernas. Para estômagos fortes.

Euclides da Cunha: Uma Biografia - Luís Cláudio Villafañe G. Santos (Todavia)

Para quem viveu apenas 43 anos, o escritor Euclides da Cunha teve uma experiência existencial digna de um homem centenário. Autor do clássico Os Sertões, fruto de uma série de reportagens para o Estadão sobre a guerra de Canudos – entre o Exército e os seguidores do beato Antonio Conselheiro –, Euclides é retratado na biografia do diplomata carioca Luís Cláudio Villafañe G. Santos como uma pessoa real, e não como um mito criado pelo mundo literário. Como tal, ele era sujeito aos apelos bélicos de sua alma – Cunha acreditava em “guerras reconstrutoras” contra nossos vizinhos, desprezando esforços de solidariedade sul-americana como sinais de fraqueza. A desqualificação dos mais humildes não passa em branco no episódio do conflito de Canudos, comentado como uma irracional defesa da superioridade da República sobre os jagunços. A trágica morte de Euclides é igualmente analisada com distanciamento, diferente das versões apaixonadas do episódio.

Poemas (2006 -2014) - Louise Glück (Companhia das Letras)

Prêmio Nobel de Literatura de 2020, a poeta Louise Glück, professora de Yale e Stanford, filha de judeus húngaros que emigraram para os EUA, é frequentemente analisada pela relação entre sua narrativa poética autobiográfica e os mitos clássicos. Em seus poemas mais recentes, essa conexão é ainda mais íntima, como prova o volume agora lançado com três títulos da escritora, nascida em Nova York há 78 anos. No mais antigo, Averno (2006), Louise Glück retoma o mito de Perséfone, a deusa sequestrada e obrigada viver no submundo, atualizando sua tragédia. Averno é um pequeno lago de cratera em Nápoles que os antigos romanos reconheciam como a entrada para o outro mundo. No poema de Glück, vira o “confisco da esperança’ num mundo que vê a luz se afastar e mergulha aos poucos nas trevas. No mais recente, Noite Fiel e Virtuosa (2014), a poeta descreve como é escurecer na vida dos mais velhos, a solidão à tardinha e a orfandade em meio ao caos.

Murambi, o Livro das Ossadas - Boubacar Boris Diop (Carambaia)

O escritor, jornalista, editor, dramaturgo e  roteirista de cinema senegalês  Boubacar Boris Diop é também um premiado ensaísta, mas sua obra é pouco conhecida no Brasil, que registra agora o lançamento de Murambi, o Livro das Ossadas, sobre o genocídio de Ruanda, em 1994,  que deixou 800 mil mortos.. Em Murambi, cidade em que 50 mil perderam suas vidas no massacre, um professor de história, Cornelius, filho de mãe tútsi e pai hutu, investiga o assassinato de toda a sua família, excetuando-se o pai médico. Numa época em que a palavra genocídio volta, infelizmente, a circular, Boris Diop mostra que o extermínio não é apenas físico, mas uma tentativa perversa de aniquilar culturas. Por isso fundou uma editora para publicar livros escritos em wolof, idioma nativo senegalês. Em 2006 ele lançou o primeiro livro em wolof. ‘Murambi, o Livro das Ossadas’, é o primeiro livro do escritor publicado no Brasil.

Atracados aos Pés da Cama - Geruza Zelnys (Fábrica de Cânones)

Atravessado por referências de Roland Barthes e Jacques Derrida sobre o luto, o livro Atracados aos Pés da Cama é uma reflexão que ecoa no presente, em um momento no qual as famílias de meio milhão de brasileiros mortos choram suas perdas, mas foi gestado durante um processo muito mais íntimo do que uma epidemia de proporções globais. A poeta Geruza Zelnys escreveu sua obra enquanto assistia sua tia Edna em coma na cama de um hospital. “Ninguém me leu como minha tia que não sabia ler”, decreta Geruza sobre a tia, morta em 2018. A obra mescla sentimentos de culpa, perda e esperança em versos como “‘só/nos resta esperar’/é o que diz o doutor/enquanto des-/espero”.

Redshirts - John Scalzi (Aleph)

O escritor norte-americano John Scalzi é, por excelência, o autor da desconstrução de clichês da ficção científica. Desde sua estreia com o disruptivo Guerra do Velho (2005), passando por Encarcerados (2018), seus livros desmontam ideias pré-concebidas do gênero passando pela via do humor, como fizeram Kurt Vonnegut, Douglas Adams e Terry Pratchett. Em Redshirts, vencedor do prêmio Hugo de melhor romance e que chega agora ao Brasil, o alferes Andrew Dahl é enviado para um posto de prestígio em uma nave militar, mas percebe que os oficiais de baixa patente como ele não costumam sobreviver a encontros com alienígenas. Em sua luta para evitar ser enviado ao conflito, Dahl descobre uma informação que pode salvá-lo e a outros tripulantes até então tidos como substituíveis pelo alto comando militar.

China Contemporânea - Vários autores (Autêntica)

A China é um país que fascina e perturba em igual medida. O gigante asiático que vem se consolidando como maior potência do século 21 está envolto em polêmicas de ordem étnica (como a opressão aos uigures e tibetanos), política (com a censura à imprensa e às redes sociais), econômica (com sua peculiar combinação de comunismo com livre-iniciativa) e agora até sanitária (com o surgimento do novo coronavírus que assola o mundo). Para compreender um pouco mais sobre o país, Ricardo Musse organizou este livro com ensaios de Alexandre de Freitas Barbosa, Alexis Dantas, Bruno Hendler, Elias Marco Khalil Jabbour, Francisco Foot Hardman, Luiz Enrique Vieira de Souza e Wladimir Pomar, que lançam luz sobre diferentes aspectos da China contemporânea.

Pantagruel e Gargântua - François Rabelais (34)

François Rabelais está para o idioma francês como Cervantes, Shakespeare, Camões e Dante Alighieri estão para o espanhol, inglês, português e italiano. Mais de meio século antes de Dom Quixote de la Mancha, comumente tido como primeiro romance ocidental, Rabelais revolucionou a literatura por meio do humor, do pastiche, da satirização das narrativas de cavalaria e da carnavalização, ou inversão de hierarquias. O primeiro de três volumes das Obras Completas de Rabelais, em tradução de Guilherme Gontijo Flores, traz seus dois principais livros, Pantagruel (1532) e Gargântua (1534), que têm uma relevância inegável nas teorias de Mikhail Bakhtin sobre a evolução e consolidação do gênero romanesco na literatura.

O Lugar - Annie Ernaux (Fósforo)

A premiada escritora francesa Annie Ernaux foi uma das 40 autoras recomendadas pela misteriosa italiana Elena Ferrante, e o leitor brasileiro tem a oportunidade de entender o porquê com dois livros dela sendo publicados simultaneamente. Vencedor dos prestigiosos prêmios Strega e Renaudot, Os Anos é menos uma autobiografia de Annie Ernaux do que um testemunho intelectual dos últimos 60 anos da França, passando por temas como a Guerra da Argélia, as mudanças comportamentais dos anos 1960, o consumismo, o terrorismo e a tecnologia. Já O Lugar, publicado pela primeira vez no Brasil, narra a vida de seu pai, seus avós e até seus filhos, sem condescendência no olhar para a própria família — e para si.

 

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