Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em maio

Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em maio

Lista publicada no último domingo de cada mês reúne lançamentos nas livrarias brasileiras

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2019 | 16h00

A equipe do Aliás seleciona, na última edição de cada mês, dez obras publicadas recentemente no Brasil e em outros países para incluir em sua Estante. Confira as indicações de maio:

Dois Artistas das Sombras - Rodrigo Naves (Companhia das Letras)

Dois mestres com os quais o crítico Rodrigo Naves mais se identifica são analisados por ele no livro Dois Artistas das Sombras: El Greco (1541-1614) e o brasileiro Oswaldo Goeldi (1895-1961). Naves lembra que El Greco afastou-se do ideal de transparência do Renascimento, ditado por uma concepção neoplatônica, para afirmar a opacidade de sua pintura em que “a sombra ilumina”. Sobre Goeldi, diz que “nas áreas penumbrosas” dos seus desenhos “as coisas mais se ocultam do que se mostram”, acentuando a necessidade do artista, marcado pelo expressionismo e deslocado no Brasil, de construir uma paisagem capaz de revelar essa dilaceração.

Tumulto - Hans Magnus Enzensberger (Todavia)

Ganhador do prêmio Büchner, o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger escreve em Tumulto sobre suas andanças pelo mundo nos anos 1960 e seu desencanto com os regimes totalitários – ele flertou com grupos de ultraesquerda e foi expulso de um deles após a publicação de um perfil arrasador do terrorista Andreas Baader. Também rompeu com o regime castrista após a prisão do poeta Herberto Padilla, em 1971. Sem concessões, Tumulto é um livro autobiográfico em que Enzensberger conclui: “De um paraíso deve-se exigir que se possa abandoná-lo quando se está farto dele”. Isso é válido, segundo o alemão, também para o “comunismo”.

Casanova - Laurence Bergreen (Objetiva)

Casanova já foi biografado outras vezes e sua vida, filmada por Fellini. Sua mais recente biografia, escrita pelo historiador Laurence Bergreen, que já contou desde a vida de Marco Polo a Al Capone, é repleta de fatos engraçados como a relação de Casanova com a influente madame D’Urfe, que acreditou em seus poderes sobrenaturais e alquímicos e pediu ao sedutor que a transformasse num homem. Casanova usou as mulheres para se infiltrar na corte de Luís XV, mas, de volta à França, testemunhou a Revolução. Bergreen, seguindo Fellini, detecta em Casanova um gênio autodestrutivo, uma figura patética que escreveu suas memórias em 4 mil páginas.

Meu Pai, Minha Mãe - Aharon Appelfeld (Carambaia)

O escritor judeu Aharon Appelfeld (1932-2018), amigo de Philip Roth, que o tomou como modelo de um personagem de Operação Shylock, faz, em Meu Pai, Minha Mãe, um retrato de uma família burguesa de judeus em veraneio às margens do rio Pruth, em 1938. Outros personagens são descritos por Appelfeld, como um homem com uma perna amputada, um médico, um vidente e uma garota desiludida, entre outros. Appelfeld sobreviveu ao Holocausto (ele nasceu nos arredores de Czernowitz, escapou em 1942 e foi criado por um bando de criminosos ucranianos) e dedicou sua obra à análise da vida dos judeus na Europa, antes e depois de Hitler.

As Estrelas - Eliot Weinberger (34)

Eliot Weinberger é um erudito de. Tradutor para o inglês das obras de Borges e Octavio Paz, Weinberger escreveu um original livro de ensaios a convite do MoMA, que agora é lançado no Brasil, As Estrelas, em tradução de Samuel Titan Jr. e projeto gráfico de Raul Loureiro. Livro de difícil classificação, As Estrelas mistura ficção, poesia e ensaio, ao tentar responder o que são, afinal, as estrelas. As respostas que ele reúne são provenientes de livros de física, poesia, mitologia e até de relatos de viagens. Weinberger não vive, porém, no mundo da lua. Ele é autor de livros políticos engajados, entre eles um sobre a guerra do Iraque e outro sobre Bush.

No Jardim do Ogro - Leila Slimani (Tusquets)

A escritora marroquina Leila Slimani foi apresentada ao leitor brasileiro em 2018 com seu impactante Canção de Ninar, livro vencedor do prêmio Goncourt. Agora o selo Tusquets publica seu livro anterior, estreia de Slimani na literatura, obra que já evidencia alguns dos temas trabalhados por seu livro mais conhecido. No Jardim do Ogro narra a decadência moral de Adèle, uma jornalista bem-sucedida e casada com um cirurgião em Paris. No entanto, sua compulsão sexual começa a atrapalhar a vida ideal que leva, fazendo-a enfrentar uma espiral de desventuras. Slimani se inspirou na acusação de assédio contra o político Dominique Strauss-Kahn em 2011. 

A Parábola dos Talentos - Octavia E. Butler (Morro Branco)

Encerramento de uma duologia distópica, A Parábola dos Talentos, inédito no Brasil, foi lançado originalmente em 1998, mas ganhou novo fôlego com as eleições presidenciais americanas de 2016. O livro se passa em um país arrasado pelas catástrofes naturais desencadeadas pelas mudanças climáticas. Nesse cenário desolador, Andrew Steele Jarret, um candidato à presidência, recebe apoio de fundamentalistas religiosos e tem como lema “fazer a América grande novamente”, uma previsão ipsis litteris do slogan que levou Donald Trump à Casa Branca com 18 anos de antecedência, demonstrando a capacidade de Octavia Butler compreender a sociedade em que viveu. 

Economia Donut - Kate Raworth (Zahar)

Diante da desigualdade social crescente e das sucessivas crises que o mundo vem enfrentando, a economista Kate Raworth propõe uma alternativa ao vício em crescimento a qualquer custo. Apelidado de Donut, o sistema teria um alicerce de bem-estar social abaixo do qual ninguém deveria estar e um teto ecológico que não deve ser transposto. No meio desses círculos concêntricos, a “rosquinha” resultante é o ambiente que seria seguro e justo para a humanidade se desenvolver. Pode parecer utópico, mas seu livro Economia Donut tenta criar uma mentalidade que nos permita respeitar esses limites em prol de um crescimento mais sustentável.

Fanfic - Bráulio Tavares (Patuá)

Um dos destaques da Festa Literária Internacional de Paraty em 2019, o escritor e pesquisador paraibano Bráulio Tavares reúne 22 contos, alguns inéditos, outros já publicados, no livro Fanfic. Na seleta, há desde ficções longas (como a impressionante noveleta O Molusco e o Transatlântico, que retrata um astronauta brasileiro mantido cativo por uma inteligência alienígena graças a suas pesquisas com telecinese) até minicontos. Em várias de suas narrativas, Tavares questiona a real essência de nossa realidade em escalas que vão do micro ao macro, trilhando o melhor da tradição de escritores como Jorge Luis Borges, Philip K. Dick e Aldous Huxley. 

O Cerne da Questão - Graham Greene (Biblioteca Azul)

O escritor inglês Graham Greene fez parte de uma curiosa linha: a dos autores que foram agentes secretos, como Christopher Marlowe, Ian Fleming e John Le Carré. O Cerne da Questão, lançado apenas três anos após o fim da 2.ª Guerra Mundial, se passa em uma cidade da África Ocidental possivelmente inspirada em Freetown, capital de Serra Leoa, onde Greene viveu, onde moram um policial inglês e sua mulher. Enfastiada daquele país, ela se muda para a África do Sul. Em sua ausência, o protagonista arranja uma amante, acaba se corrompendo moralmente e tem de lidar com o remorso por suas ações em uma narrativa de viés religioso.

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