Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em maio

Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em maio

Obras de ficção e não ficção, entre lançamentos e reedições, selecionados para ler na quarentena

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2020 | 16h00

A equipe do Aliás seleciona, no último domingo de cada mês, dez obras publicadas recentemente para incluir em sua Estante. Confira as indicações de obras para ler na quarentena este mês:

O Fim da classe média - Christophe Guilluy (Record)

O Fim da Classe Média analisa o tsunami populista que ameaça o Ocidente, visível na vitória do Brexit, nos discursos de Trump e Bolsonaro e na ascensão de radicais de direita na Europa. No livro, Christophe Guilluy condena o desprezo da elite pelas classes populares e fala dos ressentimentos que podem levar a uma nova ordem mundial em que a classe média desapareça e só fiquem duas categorias sociais: os ricos e os miseráveis. Haveria, segundo as palavras de Guilluy, um mundo vulcânico prestes a entrar em erupção próxima. Crises políticas e gentrificação das cidades seriam dois sinais da agonia de um modelo social em crise desde o começo do século. Guilluy defende que as classes populares tentam preservar seu capital social e cultural, mas não têm poder econômico ou representação política.

As Sombras de Ontem - Marcelo Vicintin (Companhia das Letras)

O romance As Sobras de Ontem se divide entre dois protagonistas que representam estirpes diferentes dentro da elite brasileira:  Egydio Brandor Poente vem de uma família tradicional, herda a empresa do pai e se alia a políticos corruptos, o que o leva à cadeia e, posteriormente, à prisão domiciliar. Maria Luiza Alvorada vem de uma classe média que tenta se passar por aristocracia e aprende com a avó todos os truques de uma verdadeira arrivista social. Com referências que vão do cinema à matemática, o trabalho  de estreia de Marcelo Vicintin faz uma crítica repleta de ironia à pequena parcela que ocupa o topo da pirâmide social brasileira.

 

 Praça dos Heróis - Thomas Bernhard (Temporal)

Escrita em 1988 por encomenda do Burgtheater de Viena, por ocasião do centenário do teatro, Praça dos Heróis é uma crítica violenta do austríaco Thomas Bernhard ao negacionismo do passado por parte de seus compatriotas. Ainda que polêmico, como sempre, nessa peça Bernhard mostra seu lado mais delicado ao contardo uma história que ao mesmo tempo revela a natureza das relações familiares e políticas decorrentes da anexação da Áustria pelos nazistas. No apartamento de um professor que se matou, as filhas de Schuster, Anna e Olga, tentam convencer seu tio a assinar uma petição em defesa de um território onde a família possui uma propriedade. Paralelamente, uma governanta e uma empregada Herta preparam o jantar funerário, lamentando a morte trágica do patrão. A ação se passa em 1980 numa Áustria que via ressurgir o espectro do nazismo por meio de grupos radicais de extrema direita que fizeram Bernhard dar declarações públicas contra a inoperância das autoridades em coibir suas manifestações. A peça descreve esse panorama político da Áustria no fim da década de 1980, remetendo ao histórico episódio da invasão da Praça dos Herói pelas forças militares de Hitlers, que marcou a família do protagonista e a história ocidental.

Tarabas, um Hóspede Nesta Terra - Joseph Roth (Estação Liberdade)

Um jovem imigrante em Nova York volta para a Rússia para lutar no conflito com o Império Austro-Húngaro, no início da 1ª. Guerra Mundial, em 1914. Tarabas é um jovem russo de boa família que é obrigado a deixar a universidade por atividades contra o regime czarista. Vai passar um tempo nos EUA e retorna para se tornar um verdadeiro lutador no front, até que chega a Revolução e esse espírito bélico é por fim transformado em ódio por seus semelhantes, a ponto de praticar um ato de violência contra um judeu indefeso. Detalhe: Joseph Roth era judeu e fez um esforço gigantesco para se colocar no lugar do antissemita Tarabas e descrever esse ser preconceituoso que, a despeito do ódio e do racismo, vai buscar a redenção. Se o seu admirável livro “Jó” recorria à linguagem e personagens bíblicos para refletir sobre as razões do sofrimento, seu Tarabas não é muito diferente ao tratar do sentimento de desolação num mundo que força indivíduos a segregar o diferente. Um manifesto contra o pensamento massificado que é muito útil nos dias que correm.

O Espaço das Palavras - Jacques Rancière (Relicário)

O artista belga Marcel Broodthaers era, até o início dos anos 1960, um poeta sem leitores. Então, decidiu reunir as cópias não vendidas de seu último livro numa assemblage feita de papel, gesso, bola de plástico e madeira. O ensaio do filósoso Jacques Rancière é sobre o encontro de Broodthaers com a poesia de Mallarmé, expreswso por meio da mostra ‘Exposition littéraire autor de Mallarmé’ (1969), em que Broodthaers ofereceu aos espectadores quatro versões diferentes do poema ‘Um lance de Dados Jamais abolirá o Acaso’: em três delas, substituiu as palavras por traços negros; numa outra, escreveu a giz palavras do poema em camisetas pretas exibidas em cabides. Paea Rancière, esses traços de Broodthaers não são nem poesia nem arte visual, mas um enigma, que expressa melhor que outro a arte contemporânea e seus riscos. O filósofo defende que é preciso deixar de ouvir a grande massa e para ouvir pessoas que têm um discurso pessoal, intransferível.

William Morris, Sobre as Artes do Livro - Gustavo Piqueira (Ateliê)

A literatura de William Morris (1843-1896), baseada em clássicos medievais, inspirou autores dos mais diversos no século 20, do moderno James Joyce ao fantástico J.R.R. Tolkien. Morris, no entanto, também foi fundamental para o livro enquanto produto físico. Como designer têxtil, o intelectual britânico fundou, em 1891, a Kelmscott Press e foi um dos pioneiros da editoração. Com edição de Gustavo Piqueira, o estudo William Morris – As Artes do Livro mostra como esse objeto se desenvolveu na Inglaterra e é de grande valia em tempos de crise, nos quais um projeto gráfico sofisticado pode ser a linha divisória entre sucesso e fracasso editorial.

A Casa Holandesa - Ann Patchett (Intrínseca)

O romance A Casa Holandesa parte da ascensão e queda de uma família bem-sucedida no ramo imobiliário para narrar a saga de cinco décadas de dois irmãos largados à própria sorte. Vindo dos Países Baixos depois da 2ª Guerra Mundial, o empresário Cyril Conroy faz fortuna nos Estados Unidos e constrói uma casa que deveria ser o símbolo de seu sucesso, mas acaba se tornando o epicentro da derrocada familiar. O livro de Ann Patchett, autora americana premiada em 2002 com o PEN/Faulkner Award, é narrado por Danny, um dos filhos de Cyril, que se vê abandonado e tendo de sobreviver com sua irmã depois que sua família acaba. 

O Caminho Imperfeito - José Luís Peixoto (Dublinense)

Embora José Luís Peixoto seja um dos mais celebrados escritores portugueses, o início de seu livro O Caminho Imperfeito – lançado em 2017 em Portugal e agora no Brasil –, com uma frase mórbida, lembra muito os incipts de dois romances franceses, o clássico O Estrangeiro de Albert Camus e o contemporâneo Canção de Ninar de Leila Slimani. “Numa das caixas de plástico, estava a cabeça de um bebê.” Com capítulos ágeis, Peixoto empreende uma narrativa com ritmo de thriller policial, mas em um registro entre a prosa poética e o romance de viagem, para descortinar o mistério de estranhas partes de corpos encontradas em pacotes na Tailândia. 

A Arte da Quarentena para Principiantes - Christian Dunker (Boitempo)

Logo que a pandemia provocada pelo novo coronavírus obrigou boa parte da sociedade a se trancar em isolamento, a editora Boitempo reuniu textos de autores como Boaventura de Sousa Santos, Angela Davis e Naomi Klein produzidos no calor do momento na coleção Pandemia Capital, composta apenas por e-books. O ensaio A Arte da Quarentena para Principiantes, do psicanalista Christian Dunker, dialoga diretamente com a realidade brasileira na medida em que o País vai se tornando gradativamente o epicentro da doença no mundo. Dunker fala sobre medo, ansiedade e solidão, e aborda as novas configurações sociais e familiares decorrentes do isolamento.

O Espetáculo da Ausência - Ney Anderson (Patuá)

O assassino em série que descreve a brutalidade dos crimes que comete em seus romances policialescos; o padre insuspeito que se deita com rapazes desconhecidos na noite recifense; o matador de aluguel que se recusa a matar a própria cliente. Esses são alguns dos personagens que se esparramam pelos contos de O Espetáculo da Ausência, livro de estreia do escritor e crítico Ney Anderson. Composta de 33 narrativas breves, com introdução de Raimundo Carrero e prefácio de Luiz Antônio de Assis Brasil, a obra esmiúça dramas bastante contidos em uma Recife urbana e contemporânea, com seus personagens marginais. 

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