Estadão/Montagem
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Dez livros essenciais recomendados pela equipe do 'Aliás' em setembro

Obras de ficção e não ficção compõem a lista de indicações de lançamentos este mês

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 10h00

A equipe do Aliás seleciona, no último domingo de cada mês, dez obras publicadas recentemente para incluir em sua Estante. Confira as indicações de obras para ler na quarentena este mês:

Imagens Apesar de Tudo - Georges Didi-Huberman (Editora 34)

Imagens Apesar de Tudo é um ato de coragem do filósofo, historiador e crítico francês Georges Didi-Huberman. Fala de algo que muitos gostariam de esquecer para sempre: o Holocausto. Mas ele volta porque não se trata apenas de história, e sim de um crime cuja prova é justamente o que interessa a Didi-Huberman: as quatro únicas fotos do campo de Auschwitz tiradas por integrantes do Sonderkommando. Parte do livro é dedicada justamente à polêmica provocada por essas fotos: muitos viram nessas imagens uma obscenidade ainda maior que o extermínio no campo nazista. O autor não se furta ao debate e ainda faz a defesa da imagem como uma forma de resistência.

O Encanto de Narciso - Boris Kossoy (Ateliê Editorial)

Escritos entre 2010 e 2018, os textos de O Encanto de Narciso, do fotógrafo e professor Boris Kossoy, revela, como no livro de Didi-Huberman, Imagens Apesar de Tudo, um profundo desejo de conhecer o mundo por meio das imagens. Nessas reflexões sobre a fotografia, Kossoy discute as diferenças entre representação e documento fotográfico, argumentando que “a fotografia é sempre ambígua, seja analógica ou digital”. No livro há um texto dedicado ao fotojornalismo, em que Kossoy analisa a obra do editor de imagens Wilson Hicks (1897-1970) – ele trabalhou para a Associated Press e a revista Life. Kossoy conclui a obra falando da patológica mania dos selfies.

Crises da Democracia - Adam Przeworski (Zahar)

A instabilidade da vida econômica, cultural e política pode ter como resultado uma tragédia, como aconteceu nos anos 1930 na República de Weimar, que levou muita gente a apoiar um maníaco chamado Hitler. Em Crises da Democracia, o professor Adam Przeworski fala do colapso desse sistema em países que passam justamente por uma crise decorrente da pandemia e do desemprego em massa. Curiosamente, o estudioso cita vários país sul-americanos (Argentina, Chile), mas esquece do Brasil. Ainda assim, uma obra importante, em que Przewroski denuncia a intimidação da mídia de oposição e o avanço da máquina de propaganda em regimes autoritários.

Uma Terra Feita Refém - Roger Scruton (É Realizações)

Desde que foi declarado uma república, em 1926, o Líbano tem registrado uma sucessão de períodos de turbulência política. Empenhado em analisar a transição de tempos prósperos para uma era de conflito, o pensador Roger Scruton, morto em janeiro deste ano, escreveu, em 1987, Uma Terra Feita Refém - O Líbano e o Ocidente, reunião de ensaios em que o filósofo trata de temas políticos com a mesma lucidez com que escancara a perseguição de cristãos, o avanço da militância islâmica e a esperança da restauração de um Grand Liban, distante da intolerância e mais perto de um passado em que reinavam a cultura, o direito e as liberdades democráticas.

Narciso em Férias - Caetano Veloso (Cia. das Letras)

Narciso em férias, o livro, inspirou o documentário sobre a prisão de Caetano Veloso durante a ditadura militar dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil. Trata-se de uma edição avulsa do capítulo homônimo que integra a autobiografia do cantor e compositor, Verdade Tropical. Além do relato de Caetano, o livro traz uma seção com registros do processo aberto pela ditadura militar contra ele – documentos encontrados no Arquivo Nacional pelo historiador Lucas Pedretti e revelados ao artista pela primeira vez meio século mais tarde, em 2018. Caetano foi preso por uma fake news, a de que ele e Gil teriam cantado de forma deturpada o Hino Nacional.

Rosa & Rónai - Paulo Rónai (Bazar do Tempo)

A literatura brasileira salvou a vida do intelectual judeu húngaro Paulo Rónai. Às vésperas da 2ª Guerra Mundial, ele se apaixonou pelos autores do País e publicou, na Hungria, uma antologia de poesia brasileira. Esse contato com a nossa cultura fez com que Rónai conseguisse escapar das garras do nazismo e viesse para o Brasil em 1941. Pouco depois, tornou-se amigo do diplomata e então aspirante a escritor João Guimarães Rosa. Dessa amizade, Rónai extraiu uma extensa fortuna crítica de um dos principais autores brasileiros. Seus ensaios sobre Guimarães estão reunidos no livro Rosa & Rónai, organizado por Ana Cecilia Impellizieri Martins e Zsuzsanna Spiry. 

Sou uma Selva de Raízes Vivas - Alfonsina Storni (Iluminuras)

Pode-se dizer, não sem certo anacronismo, que a poeta argentina Alfonsina Storni (1892-1938) foi uma feminista pioneira. Antes do surgimento do feminismo, antes mesmo da publicação de O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, a autora já apontava em seus versos as contradições do patriarcado. No entanto, sua poesia não apenas celebra o feminino, como também a liberdade sexual da mulher. Desprezada pela crítica da época – incluindo aí Monteiro Lobato e Jorge Luis Borges –, Alfonsina Storni vem ganhando cada vez mais reconhecimento póstumo, tendo agora sua primeira antologia poética publicada no Brasil, Sou uma Selva de Raízes Vivas.

Uma Breve História das Mentiras Fascistas - Federico Finchelstein (Autêntica)

Muitos livros recentes se dedicam a compreender o atual estado de descrença na democracia pelo qual o mundo ocidental vem passando. Desde que “pós-verdade” foi eleita a palavra do ano do dicionário de Oxford em 2016, esse é um dos principais problemas a ser enfrentados. No entanto, o livro Uma Breve História das Mentiras Fascistas, de Federico Finchelstein, mostra que “fake news” é uma denominação recente para uma estratégia bastante antiga em regimes extremistas. A obra retraça, desde Mussolini e Hitler, como a mentira sempre foi um instrumento de governo, e por que os seguidores de figuras carismáticas acreditam em suas falácias. 

Piano Mecânico - Kurt Vonnegut (Intrínseca)

O primeiro romance do escritor americano Kurt Vonnegut, Piano Mecânico, foi fortemente influenciado por três experiências do autor na década de 1940: seu emprego na General Electric, sua participação na 2ª Guerra Mundial e a leitura de 1984, de George Orwell. O livro se passa em uma sociedade distópica, após a 3ª Guerra Mundial, em um cenário de extrema mecanização do trabalho, com operários e até executivos sendo substituídos por robôs. Piano Mecânico retrata o desencanto do engenheiro Paul Proteus, um dos poucos privilegiados nessa sociedade, ao se deparar com um antigo colega de trabalho no outro extremo do espectro social. 

Suíte Tóquio - Giovana Madalosso (Todavia)

Suíte Tóquio, novo livro de Giovana Madalosso, transplanta para a realidade brasileira o conflito central de um dos mais impactantes romances contemporâneos, Canção de Ninar, da franco-marroquina Leila Slimani. A oposição entre essência e aparência e o embate entre uma babá/empregada doméstica e seus patrões são os elementos chave da obra. Mas se Slimani apelou para um desfecho brutal revelado logo de cara, Madalosso se interessa em mostrar a hipocrisia dominante nas classes mais abastadas. Em Suíte Tóquio, a babá Maju sequestra a filha de sua patroa Fernanda, colocando em colisão dois mundos separados por um abismo social. 

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