Dez livros essenciais recomendados pelo 'Aliás' em janeiro

Dez livros essenciais recomendados pelo 'Aliás' em janeiro

Lançamentos brasileiros e estrangeiros compõem a lista das leituras que não podem faltar na estante nesse mês

André Cáceres e Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2019 | 16h00

A equipe do Aliás seleciona, na última edição de cada mês, dez obras publicadas recentemente no Brasil e em outros países para incluir em sua Estante. Confira as indicações de janeiro:

Iniciação à Estética - Ariano Suassuna (Nova Fronteira)

 Idealizador do Movimento Armorial, o poeta, dramaturgo e romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014) foi também professor de Estética da Universidade Federal de Pernambuco (entre 1956 e 1973). Em 1975, quando a primeira edição de Iniciação à Estética foi publicada, ainda eram escassos os títulos sobre o assunto. Nesta 15ª. edição, eliminados os erros das anteriores, o livro continua a fascinar pela seleção de escritores e pensadores citados por Suassuna, de Laurence Durrell a James Joyce, passando por Plotino e Hegel. Num dos capítulos, o autor do Auto da Compadecida fala da presença do mal na arte, reiterando a filosofia de Maritain. 

Os Fantasmas Inquilinos - Daniel Jonas (Todavia)

Aos 46 anos, o poeta português Daniel Jonas é considerado pelos críticos de seu país um dos grandes renovadores da literatura. Seu livro Os Fantasmas Inquilinos reúne uma seleção de seus poemas publicados desde o premiado livro Sonótono (2007), chegando até Canícula (2017). Jonas, também dramaturgo, é tradutor de Shakespeare, o que fica evidente quando se lê os sonetos do livro Nós (2014), em que evoca personagens do bardo. Ele também assinou a versão portuguesa de Paraíso Perdido, de Milton. Um erudito, sua poesia não poderia mesmo abdicar da tradição clássica. Ainda assim, é um contemporâneo que não se deixa aprisionar pelos compromissos formais.

O Língua - Eromar Bonfim (Ateliê)

Autor do romance O Olho da Rua (Nankin Editorial), o escritor Eromar Bomfim lança pela Ateliê o desconcertante O Língua, romance sobre um mameluco, filho de um fazendeiro e uma índia que, após uma jornada nômade com a mãe, é cooptado para lutar contra o próprio povo, numa referência ao processo caimita na formação da sociedade brasileira. A história é contada por quatro narradores-personagens: um índio cariri, um cafuzo, um índio anaió e a mãe do protagonista. Para escrever o romance, Bomfim, formado em Letras pela USP, fez uma longa pesquisa sobre tribos indígenas do Nordeste, associando história e invenção literária.

O Império do Sentido - François Dosse (Unesp)

O historiador e sociólogo francês François Dosse, conhecido por suas biografias de pensadores contemporâneos como Paul Ricoeur e Deleuze, tem uma das de suas obras mais complexas, O Império do Sentido, traduzida agora pela editora da Unesp, que aproxima as ciências humanas de outras ciências, contemplando a emergência de novas teorias e formas de pensar. Dosse reconhece que as relações entre as ciências humanas e a filosofia sempre foram ambivalentes, mas acredita no que ele chama de “recomposição global’ dos saberes. Ele defende que os anos 1980 trouxeram um novo paradigma de organização intelectual, mais voltada para a ação.

Quiet - Linn Ullmann (WW Norton and Company)

 Filha do cineasta sueco Ingmar Bergman e da atriz Liv Ullman, Linn Ullmann acaba de publicar nos EUA seu sexto romance, Unquiet, que, a despeito de não mencionar nenhum dos dois, parece uma narrativa autobiográfica. A garota do livro passa férias com o pai numa ilha (provavelmente a de Faro, onde morava Bergman), após a separação da mãe, mas é tudo o que revela a filha. Não é um livro para quem busca saber mais sobre a vida conturbada do famoso casal, já explorada, aliás, pela própria mãe da autora em seus livros. Trata-se, antes, de uma reflexão sobre os estados emocionais dessa garota deixada de lado pela mãe e criada por babás e pela avó.

Anton Reiser - Karl Philipp Moritz (Carambaia)

 Professor de estética e arqueologia em Berlim, Karl Philipp Moritz nasceu em uma família humilde e se tornou amigo de ninguém menos que Goethe, com quem trocaria influências por toda a carreira. Um dos frutos desse trânsito intelectual é Anton Reiser: Um Romance Psicológico, obra inédita no Brasil, publicada agora pela editora Carambaia. As trajetórias do autor e de seu personagem se confundem. Assim como Moritz, Anton Reiser é um jovem pobre que ambiciona seguir a carreira de ator, obtendo mais sucesso nessa área do que o próprio escritor – ou seja, quase uma autoficção quase um século antes de esse termo ser cunhado, em 1977. 

Reflexão como Resistência - Uma Homenagem a Alfredo Bosi (Companhia das Letras)

 Ocupante da cadeira 12 da Academia Brasileira de Letras e professor emérito da USP, Alfredo Bosi é um dos maiores críticos literários da história do Brasil. Organizado por Augusto Massi, Marcus Mazzari, Murilo Marcondes de Moura e Erwin Torralbo Gimenez, o livro Reflexão Como Resistência – Homenagem a Alfredo Bosi oferece cartas, artigos e depoimentos de mais de 50 colaboradores a respeito do intelectual. Antes de mais nada, a obra mostra como o autor de Dialética da Colonização e Ideologia e Contraideologia consegue exercer seu livre-pensar sobre a literatura produzida no País sem abdicar de alguma forma de resistência política.

Guerracivilândia em Mau Declínio - George Saunders (Antígona)

Vencedor do Man Booker Prize em 2017 por Lincoln no Limbo, o americano George Saunders tem seu livro de estreia traduzido pela primeira vez para o português pela editora lusitana Antígona. Reunindo narrativas publicadas originalmente em revistas como a New Yorker e a Harper’s, o livro Guerracivilândia em Mau Declínio conta com seis contos e uma novela. Na tradição que vai de Kafka a J.G. Ballard, George Saunders reflete sobre os efeitos da civilização moderna sobre o psicológico da sociedade: a desumanização dos funcionários ante tarefas burocráticas absurdas; a distopia da vida suburbana; a crueldade do empreendedorismo. Enfim, o lado negro do sonho americano.

O Relatório de Brodeck - Manu Larcenet (Pipoca e Nanquim)

Com Maus, de Art Spiegelman, os quadrinhos já se provaram uma das melhores formas de se retratar o horror do Holocausto. Agora chega ao País outra HQ fundamental sobre o tema: O Relatório de Brodeck, do francês Manu Larcenet, uma adaptação do romance de seu conterrâneo Philippe Claudel, lançado em 2007 e vencedor do prêmio Goncourt. O romance gráfico de Larcenet tinge os tons sombrios do livro de Claudel e acompanha Brodeck, um escriba libertado de um campo de concentração após a 2.ª Guerra Mundial que testemunha um assassinato brutal em seu vilarejo. Por sua função, Brodeck é obrigado a investigar o fato e produzir um relatório. 

Escritos Ficcionais - Karl Marx (Boitempo)

Com apenas 19 anos, o então jovem Karl Marx se aventurou na ficção com um conto, Escorpião e Félix, e uma peça teatral, Oulanem. Ambos os textos satirizam os costumes burgueses da época e, embora valham mais como documento histórico do que como empreitada literária, já demonstram de modo precoce as preocupações que seriam evidentes na idade adulta do filósofo. Nunca publicados por Marx, os textos permaneceram perdidos durante décadas e foram recuperados apenas em 1929. O uso da ironia e do humor é marcante especialmente no conto, que mostra a saga de três rapazes – Escorpião, Félix e Merten – em busca de seu passado. 

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